© San Sebastián Film Festival
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É o rosto do cartaz de San Sebastián 2026 e voltou a Donostia com Lo dejamos acá. Aos 69 anos, o argentino que nunca precisou de Hollywood continua a conseguir uma coisa quase obscena de tão difícil: parecer absolutamente normal enquanto demonstra que é um actor extraordinário.

Ricardo Darín é daqueles actores que mais do que interpretarem parecem ter sido nascido para nos convencer de que não estão a representar coisa nenhuma. Talvez por isso tenha passado de galã televisivo argentino — esse género que costuma envelhecer pior do que certos penteados dos anos 80 — a algo bem mais difícil: um actor reconhecível à primeira vista que ainda consegue desaparecer dentro de um homem comum. Um burlão, um advogado, um taxidermista, um padre, um presidente, um procurador ou simplesmente um tipo furioso porque lhe rebocaram o carro. Darín muda de profissão; a humanidade fica.

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O Festival de San Sebastián percebeu isso há muito. Este ano deu-lhe o cartaz principal da 74.ª edição, quase uma fotografia de família ampliada à escala de uma cidade. Em 2015, Darín e Javier Cámara dividiram a Concha de Prata de Melhor Actor por Truman, de Cesc Gay. Em 2017 recebeu o Prémio Donostia. Em 2026 tornou-se a nona grande figura contemporânea a emprestar o rosto ao cartaz oficial do Festival e regressou para a estreia mundial de Lo dejamos acá, de Hernán Goldfrid, ao lado de Diego Peretti, antes da chegada do filme à Netflix a 16 de Outubro.

Darín, ou a arte de parecer que não está a fazer nada

É provavelmente aí que começa o mistério. Darín tem técnica, claro, mas a técnica não se vê. Não há aquele sublinhado do actor que entra numa cena para nos avisar que agora vai representar muito. Os colegas falam da concentração instantânea e daquele ouvido quase musical para detectar uma frase falsa. Javier Cámara chegou a compará-lo a um Stradivarius. A comparação é boa, embora Darín provavelmente preferisse dizer que é apenas um tipo a fazer o seu trabalho, acender um cigarro — quando ainda se podia fumar em todo o lado — e mudar de conversa.

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A grande viragem chama-se Nove Rainhas, de Fabián Bielinsky. Em 2000, passou de celebridade argentina a rosto internacional. Marcos, o burlão que atravessa Buenos Aires como se a cidade inteira fosse um truque de mãos, abriu a porta. Depois vieram O Filho da Noiva, Aura, O Segredo dos Seus Olhos, Carancho, Um Conto Chinês, Relatos Selvagens, Truman, Todos Sabem, A Odisseia dos Tontos e Argentina, 1985. Pelo meio realizou O Sinal com Martín Hodara e teve oportunidades para se converter no latino de serviço de Hollywood. Não quis. Hollywood perdeu um estereótipo; o cinema em espanhol ficou com Ricardo Darín.

O mais interessante é que nunca construiu uma carreira em cima de super-heróis. Construiu-a em cima de homens. Cansados, zangados, irónicos, amorosos apesar deles próprios e frequentemente encostados a uma parede moral. Em Relatos Selvagens é “Bombita”, o engenheiro que declara guerra à burocracia. Em O Segredo dos Seus Olhos transporta durante décadas um crime e um amor inacabado. Em Truman enfrenta a morte sem violinos a ordenarem-nos que choremos. Em Argentina, 1985 transforma o procurador Julio César Strassera num homem capaz de enfrentar a História sem deixar de parecer alguém preocupado com problemas muito mais pequenos. Até em O Eternauta, já na televisão e com a neve mortal a cair sobre Buenos Aires, consegue fazer do apocalipse um assunto doméstico.

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Se me pedirem hoje um nome para o maior actor ibero-americano em actividade, fico por aqui. Não por causa da quantidade de prémios, nem sequer pelo Óscar de O Segredo dos Seus Olhos, que pertencia ao filme e não a ele. É pela credibilidade. Darín faz-nos acreditar. E depois das plataformas, dos algoritmos, dos efeitos digitais e dos actores que passam mais tempo a fabricar a própria imagem do que uma personagem, acreditar continua a ser o efeito especial mais caro.

San Sebastián, segunda casa, cada vez mais cara

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A passagem por esta edição foi curta, mas chegou para lembrar quem manda no cartaz. Veio apresentar Lo dejamos acá, nova colaboração com Hernán Goldfrid depois de Tesis sobre un homicidio. Interpreta Ulises Verón, um psicanalista pragmático que perde a fé nos métodos tradicionais e começa a ultrapassar limites profissionais até lhe entrar no consultório um escritor bloqueado, interpretado por Diego Peretti. Terapia, ego, método, descontrolo e argentinos a discutir a cabeça uns dos outros: parece quase um documentário nacional. O filme teve aqui estreia mundial e é também produzido por Darín e dentro de dias está disponível na Netflix.

E ele próprio não esconde a relação sentimental com Donostia. Disse que regressar é chegar a um lugar que sente como a sua “segunda casa”, onde fez amigos e onde sempre foi tratado com familiaridade. Depois acrescentou a frase que qualquer jornalista acreditado compreende imediatamente: San Sebastián está cada vez mais cara, “talvez porque esteja cada vez mais bonita”. Quem anda esta semana a pagar hotéis na cidade sabe que, neste caso, o método Darín não é interpretação. É cinema documental.

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Aos 69 anos, já não precisa de provar nada

O rosto envelheceu, a barba e o cabelo ficaram brancos. Melhor ainda. Darín continua com os mesmos instrumentos: aqueles olhos que parecem saber qualquer coisa cinco segundos antes de nós, a voz áspera, a ironia defensiva e uma capacidade quase indecente para escutar outro actor em cena. Não representa para a câmara; parece esperar que a câmara tenha inteligência suficiente para o acompanhar. Num festival que vive do passeio das estrelas, não deixa de ser uma bela ironia que o homem escolhido para ocupar o cartaz seja precisamente alguém que passou a carreira inteira sem precisar de se comportar como uma. Ricardo Darín fugiu sempre do pedestal. San Sebastián pô-lo lá em cima na mesma. E, raios, fica-lhe bem.

CAIXA | Ricardo Darín — A filmografia de cinema

He nacido en la ribera (1972); Así es la vida, La nueva cigarra (1977); La rabona, La fiesta de todos (1978); Los éxitos del amor, La carpa del amor, Juventud sin barreras, La playa del amor (1979); La canción de Buenos Aires, La discoteca del amor (1980); Abierto día y noche (1981); El desquite (1983); La Rosales (1984); Expreso a la emboscada, Te amo, The Stranger (1986); Revancha de un amigo, Me sobra un marido (1987); Perdido por perdido (1993); El faro (1998); El mismo amor, la misma lluvia (1999); Nove Rainhas (2000); O Filho da Noiva, La fuga, Samy y yo (2001); Kamchatka (2002); Luna de Avellaneda (2004); Aura (2005); La educación de las hadas (2006); XXY, O Sinal (2007); Amorosa soledad (2008); O Segredo dos Seus Olhos, El baile de la Victoria (2009); Carancho (2010); Um Conto Chinês (2011); Elefante Branco, Una pistola en cada mano (2012); Tesis sobre un homicidio, Sétimo (2013); Relatos Selvagens, Delirium (2014); Truman (2015); Kóblic (2016); Neve Negra, A Cordilheira (2017); Todos Sabem, El amor menos pensado (2018); A Odisseia dos Tontos (2019); Argentina, 1985 (2022); Lo dejamos acá (2026).

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