"Rizi" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Rizi, em análise

Depois de estrear na Competição Oficial da Berlinale, “Rizi” de Tsai Ming-Liang passou no 17º IndieLisboa, onde integrou a secção Silvestre.

Em 2013, aquando da estreia de “Cães Errantes” no Festival de Veneza, o cineasta malaio-taiwanês Tsai Ming-liang anunciou que se iria deixar de realizar longas-metragens. Motivos de exaustão estariam no cerne de decisão, mas isso não impediu o artista de conceber algumas curtas, vídeos e experiências museológicas nos últimos anos. Contudo, foi com alguma surpresa que se soube que a quase-reforma de Tsai Ming-liang iria cessar e que uma nova longa-metragem da sua autoria se avizinhava. O que é ainda mais estranho é que o filme rompe com a evolução artística do autor, rejeitando a pequenez temporal dos seus novos projetos, a sua ruralidade e o crescente uso de texto que representavam na filmografia do autor.

De certa forma, “Rizi” parece um eco sussurrado dos filmes que deram fama internacional ao realizador nos anos 90. Tal como o seu campeão do Leão de Ouro, “Vive L’Amour”, este é um poema visual com pouco ou nenhum diálogo, grande foco na sexualidade queer e numa virulenta solidão que infeta as pessoas em ambientes urbanos. A viagem do rural para o citadino é feita entre cortes, mas, para seguidores da carreira de Tsai Ming-Liang, essa escolha deliberada ganha conotações poderosas. Ainda para mais, porque “Rizi” se parece afigurar como a passagem do testemunho de um jovem errante do cinema urbano para outro.

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Lee Kang-sheng é a maior musa de Tsai Ming-Liang. Desde a primeira longa-metragem do realizador que o ator tem protagonizado todos os seus filmes, dando-lhes uma assombrosa continuidade dramática e interpretativa. Também as narrativas dessas obras se moveram, à semelhança do que aconteceu ao ator na vida real, do burburinho da metrópole para a calma do campo. Mais do que nunca, o realizador e seu ator estão a comentar metatextualmente a relação profissional e criativa que os une. Aliás, Ming-liang faz até questão de incluir um detalhe que liga “Rizi” a um outro dos seus filmes. O elo de ligação entre esta obra e “Dong” é a dor de Lee Kang-sheng.

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Tal como o jovem protagonista dessa perturbadora fantasia musical dos anos 90, também o Kang de “Rizi” padece de terríveis dores que se estendem do ouvido ao pescoço, às costas e omoplatas. Noutros filmes, esse detalhe podia ser um apontamento ignorável, mas aqui está no centro de toda a experiência. A dor é o que leva a figura de Lee Kang-sheng a voltar a Taipei e a ir ao encontro da outra personagem principal do filme. Esse outro protagonista é mais novo, um jovem errante da cidade, calado e doce, perdido em paisagens de alcatrão e betão que esmagam a figura humana. Ele é Non interpretado por Anong Houngheuangsy. Noutra vida, o jovem ator poderia ter dado vida aos papéis outrora interpretados por Lee Kang-sheng no princípio de carreira.

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Estes detalhes extrâneos à narrativa são importantes, em parte, porque o filme em si é tão mínimo e desafetado. Tsai Ming-Liang excisa texto e legendas, excisa a comunicação da palavra e convida o espectador a um jogo de observação prolongada. Em tableaux compridos em que quase nada acontece, ele inclui detalhes preciosos que, por acumulação, vão pintando um mural de duas almas sozinhas em busca do toque de outro, da companhia de outro. A dor é do músculo em nós, mas também é da alma e do espaço. Quando Kang e Non se encontram num quarto de hotel, não nos admiramos que uma massagem resvale em sexo, tanto pelo cenário do momento como pela aura de necessidade que envolve os dois homens. Eles precisam de outra pessoa e, naquele instante, têm outra pessoa.

Apesar da prolongada cena de sexo, “Rizi” é notoriamente casto na sua imagética. Nunca temos nudez frontal e o foco do momento sexual é a gentileza dos protagonistas, sua dança de desejo e prazer. Tal ideia é reforçada pelas passagens que se seguem à paixão, a oferta de uma caixa de música, um jantar partilhado e a separação que traz novamente o isolamento físico e emocional. Este é cinema lento e ponderoso, glacial até, mas contém em si grande riqueza de sentimento. Para audiências que se deixem levar pelos quadros de quietude que Tsai Ming-Liang concebeu, há aqui algo transcendente a ser descoberto. É o êxtase de uma dor aliviada, do orgasmo, da música de Charlie Chaplin a ecoar por entre o ruído da cidade qual margarida a crescer por entre rachas no asfalto.

Rizi, em análise
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Movie title: Rizi

Date published: 2020-09-06

Director(s): Tsai Ming-Liang

Actor(s): Lee Kang-sheng, Anong Houngheuangsy

Genre: Drama, 2020, 127 min

  • Cláudio Alves - 78
78

CONCLUSÃO:

Uma meditação penosa sobre almas perdidas no Taiwan moderno, “Rizi” é um comovente poema sobre alienação e o desejo de companhia, sobre a vontade de aliviar a dor. Em quadros lentos e ritmos glaciais, o filme desenrola-se com disciplina extrema.

O MELHOR: O uso genial da música que Chaplin compôs para as suas “Luzes da Ribalta”. A aparição da melodia no último tableau de “Rizi” é particularmente inspirada.

O PIOR: A lentidão glacial de “Rizi” não é para todos. Há alturas em que a imagem parece quase uma fotografia de tão inativa que é. Isso e a ausência de diálogo, assim como a duração excessiva da peça, resultam numa experiência entre o transe hipnótico e uma dor de cabeça soporífera.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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