"Ghost Tropic" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Ghost Tropic, em análise

Bas Devos construiu em “Ghost Tropic”, uma hipnotizante sinfonia da cidade, observando o caminho de uma senhora muçulmana a regressar a casa numa noite de Inverno em Bruxelas. Com fotografia sublime de Grimm Vandekerckhove e uma prestação delicada de Saadia Bentaïeb, esta é uma das grandes obras-primas que passou pelo 17º IndieLisboa.

Vemos uma sala de estar. O cenário é humilde, arrumado, mas com marcas de vivência como um cesto com roupa deixado por cima do tapete. Da janela coberta com cortinas translúcidas entra o brilho leitoso de um sol tardio. O tempo passa e a luz vai esmorecendo, as cores da sala subsumidas ao advento da noite, sombras suaves pintadas por todas as superfícies. A mesa com sua toalha lustrosa parece reter a última réstia de luz na penumbra, uma madrepérola em tecido barato. Esta imagem é um prelúdio, um prólogo, e, sobre sua gradual escuridão, ouve-se a voz de uma senhora que fala sobre o que vê, o que ouve, os sons da cidade e o murmúrio dos vizinhos. Ela fala sobre o trabalho que é encher um espaço com vida, criando o lar nas memórias que deixamos sobre os objetos.

Esta ilha de serenidade doméstica é a Ítaca a que a nossa Ulisses vai tentar regressar ao longo da sua odisseia. Só que a travessia dela não é feita pelas águas do Mediterrâneo, mas pela noite de Bruxelas, suas ruas frias e gente solitária. Antes disso, contudo, há riso e felicidade, há a comunhão de colegas de trabalho que partilham uma refeição num intervalo a meio do turno. São empregados de limpeza. São pessoas que tornam o mundo habitável, que dão ordem ao caos e se deixam ser invisíveis aos olhos daqueles que habitam os espaços que limpam. Entre elas, a câmara encontra a dona dessa a voz que acabámos de ouvir, essa senhora que pensa nas memórias que fazem o cenário da casa. Khadija é seu nome e ela é o nosso Ulisses.

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Contudo, não é a guerra de Troia ou um monstro disforme que lhe contraria a viagem para o domicílio. Trata-se de algo mais corriqueiro e comum, esse inimigo da consciência a que todos nós temos de nos render – o sono. Quando o trabalho termina já a noite está cerrada e a cidade vazia, o silêncio como um cobertor que acalenta os seus habitantes. Cansada depois do lavoro, Khadija segue para o metro e deixa-se embalar pela canção repetida da locomotiva. Também nós, que a observamos, sentimos a hipnose das carruagens sobre os carris, das luzes que entram pelas janelas sujas e pintam a viagem em tons de âmbar baço. À medida que o metro prossegue, um novo som imerge. São ondas, o vento nas palmeiras, uma praia? Será um sonho? Um desejo? Uma memória, talvez?

Somos imersos na consciência inconsciente de Khadija e, tal como ela, apreciamos essa impossibilidade sónica que floresce do canteiro da mundanidade. É tão lindo, tão calmante, que não podemos evitar o choque que vem com o acordar. Pelo menos, nós vivemos esse acordar no conforto do cinema. Khadija acorda para o frio de uma noite invernal e para o transtorno de quem adormeceu no último metro da noite. Ela acabou na estação terminal, em Hermann-Debroux, longe do seu apartamento no Molenbeek. Os filhos, a quem ela tenta telefonar, não atendem e, entre ficar na estação à espera do primeiro comboio da madrugada ou caminhar até casa, ela segue a segunda opção.

Inicialmente, contudo, Khadija ainda tenta levantar dinheiro para um táxi. Como ela caminha, a câmara voa pelas ruas da capital belga, atravessando seus rios de alcatrão em busca de algum multibanco. Tanto a câmara como a heroína acabam às portas de um centro comercial em horas de encerrar. Baixinha, com uma voz doce e cara simpática emoldurada pelo hijab aprumado, Khadija inspira confiança no segurança do sítio. Tal como ela, trata-se de um imigrante e quiçá sua bondade seja algum gesto de fraternidade empática. Qualquer que sejam as suas razões, o resultado é o mesmo – Khadija não tem dinheiro suficiente para fazer um levantamento.

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Lá ela vai tentar a sorte com os autocarros noturnos, mas só depois do simpático segurança lhe mostrar o papagaio que mora numa gaiola do centro. Entre lojas anónimas, escadas rolantes e elevadores envidraçados, o pássaro é uma pincelada de cor e uma espécie de anunciador do futuro do edifício. O centro comercial vai ser demolido e, em seu lugar, haverá um parque aquático subtropical, um oásis no meio do deserto de betão. Será essa uma melhor casa para o papagaio? Será que ele terá lugar nessa nova encarnação do espaço? Como muitas das outras questões levantadas pela viagem de Khadija, nunca há resposta. Não que a nossa heroína esteja particularmente preocupada com a simbologia premonitória de aves tropicais.

Seus problemas são outros, nomeadamente a avaria do autocarro seu salvador. Parece que não há mesmo alternativa e que a viagem para casa terá de ser feita a pé, uma caminhada pelo ar glacial da cidade adormecida. O frio muito perturba Khadija e é seu beijo cortante que a faz parar quando se cruza com um sem-abrigo que aparenta dormir. No inferno de arquitetura hostil que é a cidade moderna, há poucos sítios para tais indivíduos se abrigarem do frio e uma noite na tormenta pode ser o que chama o Anjo da Morte. Na sua aflição, a boa samaritana chama uma ambulância e é com muito pesar que deixa o cão do senhor preso a um candeeiro de rua. Com sorte, o animal aguentará a noite, mas sorte é algo que há em pouca quantidade nestes dias cruéis que vivemos.

A viagem de Khadija traz outras provações e encontros que são tão memoráveis quanto corriqueiros. Quando passa por uma casa que ela outrora limpava, a senhora vê um rapaz a habitar o domicílio clandestinamente. No entanto, não o denuncia quando um guarda noturno a interroga. Mais tarde, a pobre Khadija encontra refúgio momentâneo na estação de serviço de uma bomba de gasolina e bebe um chá para afugentar o frio, chamando a atenção da gentil funcionária atrás do balcão. Finalmente, depois de tanto andar, Khadija encontrou alguém que lhe dá boleia até casa. Enquanto espectadores, quase queremos aplaudir a vitória, mas recatamo-nos. É como se tivéssemos medo de perturbar o feitiço de paz noturna que esta sinfonia da cidade invocou.

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Quaisquer laivos de triunfo têm vida curta, de qualquer forma. Entre conversa tensa com a sua condutora caridosa, Khadija vê a filha a passear com amigos e decide sair do carro. Sempre uns passos atrás do grupo de adolescentes, Khadija é como uma sombra a observar a filha, vendo aquele lado da rapariga que ela, enquanto mãe, nunca tem o privilégio de conhecer. Nas mãos de outro cineasta ou de outra atriz, o momento poderia parecer invasivo, mas Devos e Bentaïeb encaram a cena com extrema delicadeza, encontrando melancolia no voyeurismo materno. Todo o filme vive nessa nebulosa tonalidade do sentimento, nessa tristeza com rasgos de júbilo, na saudade e na serenidade, na paz de espírito e na angústia também.

Antes de chegar ao fim de Khadija chegar a casa, ainda há o advento da morte, um possível momento de magia e mais tapeçarias de uma Bruxelas a dormir. Descrever “Ghost Tropic” em tanto detalhe pode parecer uma futilidade da crítica, mais sinopse que análise, mas este é um filme que estimula o espectador, que o envolve e convida a perder-se nas suas imagens granulosas da odisseia urbana. Naquelas horas perdidas entre o pico da noite e a alvorada, nós viajamos ao lado de Khadija, conhecemo-la e amamo-la. Também conhecemos Bruxelas e também a amamos. “Ghost Tropic” é um filme que há que ser sentido, um inebriante sopro de simplicidade cinematográfica que exige admiração e merece o nosso amor.

Ghost Tropic, em análise
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Movie title: Ghost Tropic

Date published: 2020-09-06

Director(s): Bas Devos

Actor(s): Saadia Bentaïeb, Laurent Kumba, Jovial Mbenga, Sara Sampelayo, Mieke De Groote, Anemone Valcke, Maaika Neuville

Genre: Drama, 2019, 85 min

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

Pela calada da noite, entre viagens de metro sonolentas e chás de menta, “Ghost Tropic” evoca uma das experiências cinematográficas mais assombrosas de 2020. Uma salva de palmas para esta obra.

O MELHOR: A fotografia fantasmagórica, seus matizes de luz colorida e escuridão granulosa. Este filme tem imagens inesquecíveis no seu humilde deslumbramento.

O PIOR: Nada a apontar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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