Salve, César! | O vestuário da nova sátira dos irmãos Coen

Segundo as palavras da própria figurinista, este foi o filme mais divertido da sua carreira e, ao olhar para o esplendoroso resultado final de Salve, César!, não é difícil perceber porquê!

No seu estatuto como uns dos mais importantes autores do cinema americano contemporâneo, os irmãos Coen têm vindo a criar uma equipa de atores e criativos que os acompanham de filme para filme, à la Bergman, por exemplo. Uma das grandes veteranas da filmografia desta dupla é a figurinista Mary Zophres que, apesar de já ter sido responsável por conjuntos tão memoráveis como os andrajos desleixados do Dude de O Grande Lebowski ou os agressivos visuais do western revisionista Imperdoável, nunca antes tinha tido uma oportunidade em que o seu trabalho fosse uma componente tão vistosa da mise-en-scène como em Salve, César!. Mesmo em Barton Fink, outro filme sobre a Hollywood de outrora em que aparecem os inventados estúdios da Capitol Pictures, Zophres tinha a oportunidade de conceber uma explosão tão deliciosa de glamour, elegância, exagero e jubilante humor visual.

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Há que lembrar que na sua criação dos fictícios Capitol Pictures, os irmãos Coen procuraram criar uma versão satírica de uma específica instituição da velha Hollywood, a MGM. Por exemplo, longe do realismo social da Warner Bros., a MGM do final dos anos 40 e início da década de 50 era um mundo de ossificada tradicionalidade que via o convencionalismo crónico e o escapismo espetacular como as únicas abordagens para a produção cinematográfica. Como consequência, os filmes dentro dos filmes vistos em Salve, César! e seus gloriosos figurinos são fortemente presos às estéticas regentes na produção desse tão lembrado estúdio.

Salve, César!

Com glorioso e admitido artificialismo, Zophres concebeu uma visão da Antiga Roma vida através do prisma dos respeitáveis épicos ao estilo de Quo Vadis e Ben-Hur. Cada figurante, mesmo os escravos, apresentam-se em figurinos executados com a inexorável polidez do trabalho da Hollywood na sua era dourada. A impraticabilidade desse artifício é aliás, uma das piadas recorrentes do filme, com a estrela protagonizada por George Clooney a repetidamente se atrapalhar com a espada integrada no seu figurino pseudo romano.

Salve, César!

Salve. César!

Os outros filmes dentro do filme são igualmente hipnotizantes com o seu magistral equilíbrio entre paródia e apaixonada homenagem. Scarlett Johansson, por exemplo, é uma homenagem descarada a Esther Williams, com os musicais aquáticos de Williams a serem de particular referência para o visual da cena em que atriz aparece como uma sereia num magnífico figurino verde completo com uma cauda de peixe que é rapidamente arrancada do seu corpo quando esta sai, carrancuda, da piscina de filmagens. Também musical é o filme protagonizado pela personagem de Channing Tatum, uma clara alusão a Gene Kelly cuja ligação a Salve, César! é exacerbada pelo uso de fatos de marinheiro que facilmente recordam Anchors Aweigh e On the Town.

Channing Tatum Salve, César!

Salve. César!

Um melodrama realizado por uma caricatura de Vincente Minelli (Ralph Fiennes vestido com toda a elegância de um dândi californiano da época) é uma lindíssima visão de vestidos ao estilo de Charles James a pintarem a brancura ofuscante de um glamouroso cenário com o luxo sedutor de cetins luxuosos. Finalmente, um western temperado com momentos musicais é caracterizado pelo tipo de clichés visuais típicos desse género de celebrações da iconografia Americana do Velho Oeste que trocam verismo histórico por uma abordagem de açucarado encanto.

Salve, César! Ralph Fiennes

Salve, César!

Não são apenas as magníficas recriações de estilos cinematográficos passados que permitiram a Zophres cair na indulgência da estilização glamourosa das modas dos meados do século passado. A figurinista tentou utilizar a mesma filosofia de estilização colorida e caricaturada na concretização das variadas personagens fora dos luminosos plateaus. Para esta veterana da filmografia dos irmãos Coen, esta exacerbação de estilos glamourosos é uma fabulosa anomalia numa carreira caracterizada por realismo e uma procura por palpável autenticidade, que aqui é mais visível nas fugazes figuras da equipa técnica que em qualquer um dos protagonistas da narrativa.

Salve, César!

Salve. César!

Este trabalho de Mary Zophres é de particular importância na caracterização das diferentes personagens e sua ligação a personalidades históricas de Hollywood. Apesar de Johansson aparecer inicialmente num ballet de natação ao estilo de Esther Williams, o seu figurino numa cena posterior é uma clara alusão a um estilo de maior sedução e elegância que mais facilmente lembra Loretta Young ou a escandalosa Gloria Grahame. Outro grande exemplo de estilização é a hilariante visão de uma estrela de cinema a entrar num submarino soviético envergando um conjunto preto completo com gola alta, casaco comprido e luvas de cabedal, como um vilão de James Bond tornado “real”.

Salve. César!

Salve, César!

No entanto, o protagonista do filme, uma versão moral e relativamente benevolente de Eddie Mannix, usa um fantástico fato original da época que foi encontrado pela figurinista na sua pesquisa. Utilizando as cores terrenas destas peças vintage, Zophres criou assim uma paleta cromática de cores calorosas para o mundo fora da vida de celebridade, sendo que apenas as espalhafatosas gémeas encarnadas por Tilda Swinton escapam à regra, com dramáticos conjuntos em cores mais vistosas ou pálidas e claramente concebidos numa paródia dos extravagantes estilos de Hedda Hopper e Louella Parsons, as duas acídicas rainhas da coscuvilhice e manipulação da Hollywood da época.

Salve. César!

Salve. César!

Salve, César!

Com gloriosas caracterizações, hilariantes usos de exuberância e descarada estilização, uma panóplia do melhor glamour da Hollywood dos grandes estúdios e uma fabulosa celebração de estilos cinematográficos do passado, Salve, César! é a joia da coroa na filmografia de Mary Zophres e um dos mais imperdíveis filmes para fãs de cinema clássico e esplendorosos figurinos.

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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