Se Esta Rua Falasse critica

Se Esta Rua Falasse, em análise

Se Esta Rua Falasse” é o novo filme de Barry Jenkins, o realizador de “Moonlight”. Presentemente, encontra-se nomeado para três muito merecidos Óscares nas categorias de Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Banda-Sonora Original.

Muitos cineastas dedicam as carreiras a capturar a experiência imediata, cristalizando o momento fugaz na forma de filme. Tais vozes criativas tentam imergir o espectador no mundo das suas obras, concebendo realidades de materialidade tátil e catedrais sonoras que consomem a sala de cinema, prestações naturalistas e ritmos da vida transformados em realismo cinematográfico. Isto tanto se regista ao nível dos maiores espetáculos de Hollywood que querem envolver quem os vê emocional e sensorialmente, tanto como ao panorama do cinema independente com suas formalidades imersivas e propostas cerebrais. No meio de tudo isto, Barry Jenkins assume-se como uma voz dissonante.

Este realizador nunca parece estar interessado no imediato. Longe de serem experiências diretas e realistas, os filmes dele são construídos com uma pressuposta distância entre o espectador e o que está a ver. Estes filmes não vivem no presente, mas no passado, não são o fervor do agora, mas a enevoada indefinição da memória. Neles, o tempo é uma experiência deturpada pelas cicatrizes emocionais de quem está em cena e o espaço é uma névoa que serve de fundo a caras que olham nos olhos do espectador, um som distante torna-se o ribombar de uma orquestra e um pormenor insignificante enche o ecrã de cor, como uma gota de tinta diluindo-se num copo de água.

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O melhor elenco do ano!

Tais mecanismos podem levar audiências menos generosas a encarar as propostas de Jenkins como algo alienante, cujos ritmos hipnotizantes são mais monótonos que meditativos. Contudo, quem estiver disposto a ultrapassar a estranheza inicial destas joias de memória cinematográfica, poderá descobrir maravilhas incalculáveis, histórias que vibram de humanismo e um cinema orientado em volta do valor da empatia. Nunca isso foi mais claro que em “Se Esta Rua Falasse”, onde o realizador corajosamente tenta trazer ao grande ecrã um romance de James Baldwin, cuja prosa está bem distante de quaisquer noções de dramaturgia cinemática.

De forma extremamente sumária, esta é a história de Tish Rivers, uma jovem afro-americana que vive em Harlem nos anos 60, onde se apaixona pelo seu amigo de infância Fonny, um escultor modernista, e engravida dele. Infelizmente, as injustiças de um sistema judicial envenenado por racismo, acabam com Fonny atrás das grades por um crime que não cometeu, enquanto sua amada e a família dela tentam tudo para o libertar. Expressa assim, a narrativa do filme até parece bastante básica e linear. Contudo, o modo como Baldwin e Jenkins abordam tal premissa está longe de ser simples.

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Basicamente, “Se Esta Rua Falasse” funciona como uma sinédoque para toda a História da comunidade afro-americana, suas opressões, cultura e resiliência face a um mundo que parece não ter lugar para si. Como tal, mais do que se focar somente no casal e seus dilemas, o filme e o romance espalham seu foco por uma série de subenredos, concedendo interioridade a figuras que, nas mãos de outros autores, seriam encaradas como negligenciáveis presenças secundárias. Tudo isso é feito por meio de flashbacks e flashforwards, memórias e saltos temporais, sendo que a cronologia é um barco à mercê das ondas do sentimento e da recordação, assim como da argumentação sociopolítica que tornou Baldwin numa das mais importantes vozes do movimento da luta pelos direitos civis nos EUA.

É precisamente graças a esta conflagração de interesses políticos aliados à subjetividade da lembrança que o texto de Baldwin encontra seu perfeito tradutor cinematográfico em Jenkins. As personagens parecem viver dentro e fora do seu tempo, falando com pesar sobre seus dilemas como se entendessem a posição deles contextualizada na História de uma comunidade. O passado e o presente precisam de estar em comunhão para o texto de Baldwin fazer sentido. De facto, ao contrário de tantas outras narrativas sobre tensões raciais, “Se Esta Rua Falasse” jamais quer limitar tais horrores ao passado e não ousa respostas fáceis a questões que ainda estão por resolver. No cinema de Barry Jenkins, onde o imediato não existe e a ambiguidade da emoção domina, tais permutações que transcendem, mas necessitam do tempo e da História, conseguem existir dentro de um discurso cinematográfico coerente.

Se esta rua falasse critica
Acredita no amor até ao fim.

E que discurso! Esteticamente, “Se Esta Rua Falasse” é uma orgia para os sentidos, transbordando tanta beleza visceral como sofisticação formal. A Nova Iorque dos anos 60 é reconstruída com um olho atento a texturas e cores vibrantes, fazendo florescer vitalidade digna mesmo na vida daqueles que mais sofrem às margens da sociedade, quer sejam afro-americanos, latinos, mulheres, imigrantes que mal sabem falar inglês, judeus recatados ou advogados idealistas cuja compaixão os separam de seus pares. Os figurinos seguem o mesmo caminho e a fotografia de James Laxton tudo isto captura com uma elegância assombrosa.

Os grandes planos de Jenkins, com o olhar direto para a câmara, tornam-se pinturas vivas graças à lente de Laxton. As várias passagens em slow motion tornam-se memórias esbatidas, enevoadas pelo fumo de cigarros fumados por lábios carnudos que jamais parecem mais eróticos que quando expiram uma nuvem perfumada a tabaco. Tais imagens existem numa dança continua com a banda-sonora de Nicholas Britell, rica em melodias sobrepostas e a luxúria sónica do jazz. Quem coreografa tal dança é a montagem, por sua vez subserviente às demandas do texto, seus ritmos verbais e preciosos momentos humanos que doem e fazem doer com sua beleza e especificidade.

O espectador quase sente o amor que Jenkins tem pelas personagens a vibrar do ecrã. Certamente sua direção dos atores em cena manifesta e empatia absoluta com que o cineasta encara todas as vidas que passam em frente à sua objetiva. Regina King, por exemplo, é uma âncora de calor doméstico e convicção maternal no meio da tempestade trágica do enredo, enquanto Stephan James tanto retrata Fonny como o amante idealizado de Tish como o homem assustado a viver os horrores da prisão. Melhor do que todos os membros neste que é o melhor elenco do ano é Brian Tyree Henry que, numa só sequência, nos guia por uma montanha-russa de tons e acaba como uma facada no coração. A lâmina é a verdade feia de um mundo onde a justiça é um ideal que ainda nunca foi alcançado e cujos rebentos morrem envenenados pelo preconceito e privilégio. “Se Esta Rua Falasse” não é um filme feliz, mas não se deixa consumir pela miséria. Jenkins e companhia podem apontar o dedo aos males do mundo, mas têm igual capacidade para sorrir face às maravilhas da vida, do amor e do espírito humano que é capaz de resistir aos mais inimagináveis sofrimentos e permanecer de cabeça erguida.

Se Esta Rua Falasse, em análise
Se Esta Rua Falasse

Movie title: If Beale Street Could Talk

Date published: 2019-02-21

Director(s): Barry Jenkins

Actor(s): Kiki Layne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo, Teyonah Parris, Michael Beach, Aunjanue Ellis, Ebony Obsidian, Dominique Thorne, Diego Luna, Finn Wittrock, Dave Franco, Ed Skrein , Brian Tyree Henry, Pedro Pascal, Emily Rios, Marcia Jean Kurtz

Genre: Romance, Crime, Drama, 2018, 119 min

  • Cláudio Alves - 90
  • Inês Serra - 60
  • Daniel Rodrigues - 60
  • Miguel Pontares - 77
  • Virgílio Jesus - 100
77

CONCLUSÃO:

Depois do triunfo de “Moonlight”, Barry Jenkins volta a mostrar que é uma das mais importantes vozes criativas no atual panorama do cinema americano. “Se Esta Rua Falasse” é uma joia de cinema enquanto máquina de empatia e enquanto feitiço sensorial. Experienciar esta obra é chorar as indignidades injustas do mundo em que vivemos, acordar para o privilégio que muitos de nós desfrutam sem questionar e ver a beleza que consegue florescer mesmo no meio de tudo isto. Há que confiar no amor e manter a cabeça erguida, ensina-nos este filme que, ao contrário de tantas outras obras sobre temas semelhantes, nunca tem a arrogância de presumir que os problemas que levanta já foram resolvidos.

O MELHOR: Uma prolongada cena em que duas famílias de encontram, colidem e explodem, é um deleite dramático e formal.

O PIOR: Parte da estrutura do filme sujeita-se a críticas de desnecessária repetição.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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