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LEFFEST ’18 | Sedução da Carne, em análise

Sedução da Carne” é a mais recente experiência cinematográfica do brasileiro Júlio Bressane e o único filme de expressão portuguesa em exibição no Lisbon & Sintra Film Festival.

“Sedução da Carne” é uma história de amor entre a História e a profecia de um futuro que o nosso presente afigura. Assim é o novo filme do experimentalista do cinema brasileiro Júlio Bressane que aqui nos conta esse mesmo romance através de um triângulo amoroso entre uma viúva agorafóbica, um papagaio e uma pilha de bifes crus, em sangue e pulsante voracidade sexual. Entre memórias de viagens passadas e leituras históricas, este trio debate-se, ama-se e acaba por formular um dos filmes mais bizarros do ano.

Tudo ocorre no espaço teatral de uma black box feita de tecido negro erguido em forma de pano de fundo num estúdio de cinema. No seu interior, a atriz Mariana Lima fala-nos em monólogo estilizado, sua interpretação sempre num registo que repugna o naturalismo em nome de uma declamação poética que abre as portas ao surreal da situação. Ela é Siloé, a viúva mencionada anteriormente, não que essa informação seja fácil de desenterrar por entre as suas complexas torrentes de verbosidade.

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A suavidade das penas de um papagaio é o píncaro do erotismo.

No início do filme, muito do seu discurso é direcionado ao papagaio que se exibe na companhia da viúva como um símbolo de pureza tropical, marca da esperança e riqueza que os colonizadores lusitanos haviam de encontrar nas terras brasileiras. A ave com suas plumas macias e cores garridas torna-se num elemento de erotismo curioso, especialmente quando o cineasta coloca a atriz a falar sobre bestialismo enquanto grandes planos seduzem o espectador e o convidam a imaginar a experiência sensorial do toque. Quase sentimos a macieza das penas, elas seduzem-nos.

Tais devaneios luxuriantes com o papagaio são acompanhados por imagens de populações locais de países que supostamente a viúva terá visitado com o marido. A qualidade destas passagens sugere um mundo exterior à escuridão hermética do filme, uma realidade que respira fora do abafado artifício desta construção. São gestos de respiração que insuflam o filme e dialogam com os seus símbolos, complementando seus potenciais significados e conjurando o espectro de um discurso ambientalista e de identidade, onde o que é um brasileiro é algo que transcende a cultura e encontra seus paradigmas na natureza.

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Esse discurso, que talvez exista somente nos olhos do espectador e não nas intenções do seu artista criador, ganha o máximo potencial quando Bressane viola o padrão estabelecido até aí e inclui imagens de abate de animais, sangria e o processamento da sua carne. Emparelhado com a esperança tropical contida na imagem do papagaio, esta dinâmica de imagens choca e exaspera. O filme representa uma continuação de questões identitárias nacionais que o realizador há muito explora, mas convém dizer que “Sedução da Carne” está longe de ser militante, mas a componente mais sanguinária da sua imagética certamente despertará inquietação ideológica, mesmo para quem do filme só retire uma experiência sensorial.

Com tudo isto dito, é evidente que este filme vive e morre nas suas brincadeiras formais com imagética surrealista e essa componente só se manifesta na plenitude quando a carne no prato parece ganhar vida. Num dos instantes mais deliciosamente tresloucados do exercício, os filetes vivaços são perseguidos pela câmara à medida que rastejam apressadamente pelo estúdio de cinema até que encontram o seu destino e o atacam. Falamos, pois claro, do corpo de Siloé, suas pernas abertas prontas a receber o toque pecaminoso e impossivelmente sedutor da carne vermelha em epítetos de erotismo estrambólico.

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A carne seduz. Consegues resistir-lhe?

Nestes momentos mais loucos, “Sedução da Carne” assume-se como uma experimentação que, apesar de algumas ideias mais cáusticas, vive no prazer do choque e da criatividade. A sua imagem final, onde a atriz aparece coberta pelos pedaços pulsantes de tecidos animais em copulação fantasiosa, representa talvez o mais estrondoso desses choques. Infelizmente, nem tudo no filme funciona, a começar pelo seu esquema visual em humilde estúdio coberto por tecido preto.

Verdade seja dita, quando a carne não ganha vida, há pouco que distinga o filme de uma peça de teatro que teria bom lugar de encenação no São Luiz em Lisboa. Nem mesmo a incursão de filmagens de arquivo é um obstáculo que um projetor não consiga superar. O pior de tudo, é que é fácil imaginar como “Sedução da Carne” funcionaria melhor e mais visceralmente se a barreira entre o espetáculo e sua audiência sumisse no espaço teatral. Na sua forma atual, este é um projeto que pouco justifica a sua condição fílmica, parecendo mais um esboço de algo melhor explorado noutra plataforma de expressão. Não deixa por isso de ser uma proposta singular de cinema experimental, mas, no fim, “Sedução da Carne” sabe a pouco, quando parecia prometer um festim.

Sedução da Carne, em análise

Movie title: Sedução da Carne

Date published: 2018-11-22

Director(s): Júlio Bressane

Actor(s): Mariana Lima

Genre: Drama, Experimental, 2018, 70 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO

No panorama do cinema brasileiro, a obra de Júlio Bressane é suis generis. Apesar disso, “Sedução da Carne” não é das suas mais espetaculares experiências, mesmo que contenha em si várias ideias valiosas a fermentarem, à espera de outra possibilidade de serem expressados num modelo mais apto para a sua sustentação. Há, contudo, que aplaudir os esforços deste artista obstinado e a bravura de Mariana Lima a dar vida ao centro humano deste sonho sobre o apelo carnal de filetes cruas e a promessa esperançosa de um papagaio sedutor.

O MELHOR: A animação rudimentar da carne em exuberância erótica.

O PIOR: A conceção do black box enquanto espaço para esta encenação é um passo em falso estético do qual o filme nunca totalmente recupera.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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