LEFFEST ’18 | Long Day’s Journey Into Night, em análise

Long Day’s Journey into Night” é uma experiência de cinema levado aos seus limites formais, manipulando tempo e espaço de modo a nos dar a entender a impossibilidade visual do sonho e da memória. Este é um dos filmes em competição no Lisbon & Sintra Film Festival.

Memórias e sonhos são um eterno tema e desafio para cineastas de todo o mundo. Nomes como Tarkovsky, Lynch, Marker e Resnais, entre muitos outros, dedicaram grande parte das suas carreiras a estas mesmas explorações, aventurando-se pelos paradoxos de tentar materializar o imaterial e transfigurar o abstrato em concreto. Com a sua segunda longa-metragem, o cineasta chinês Gan Bi junta-se a esta lista de nomes áureos, tendo mesmo concebido algo a que poderíamos justamente chamar um manifesto formalista em como, de um lado, explorar a fragmentação da memória, e de outro, a fluidez impossível do devaneio onírico. “Long Day’s Journey Into Night”, que não tem nada que ver com a peça homónima de Eugene O’Neill, começa como uma tapeçaria de lembrança e acaba como um sonho lúcido.

De forma muito básica, a história que temos perante nós representa um cocktail de temas noir adaptados à China da contemporaneidade. Depois de muitos anos ausente, um homem chamado Luo Hongwu retorna à sua terra natal de Kaili em busca de uma antiga amada que desde então ele nunca conseguiu esquecer ou voltar a encontrar. Ela é Wan Quiwen, uma mulher misteriosa com nome de estrela de cinema cujo namorado mafioso matou alguém que dava por nome de Lince e era um dos antigos companheiros do protagonista. Na sua busca, ele só encontra mais questões e objetos escondidos que lhe despertam as labaredas da recordação e todas as mulheres com quem se cruza parecem de algum modo recordá-lo da amada perdida entre memórias.

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Um passeio por memórias estilhaçadas em tons de néon.

Nos primeiros 75 minutos deste filme, Gan Bi mostra-nos esta narrativa de valores quase arquetípicos através de uma viagem pelos estilhaços da lembrança. Saltando entre presente e passado, entre recordações concretas e flashes de situações imaginadas, “Long Day’s Journey Into Night” vai pintando um hipnótico retrato de néons, águas turvas e paredes degradadas. O mundo que aqui se habita é rico em detalhes táteis, mas a montagem e jogos tonais do cineasta fazem com que a especificidade física dos ambientes se dilua em farrapos de efemeridade, mais estados mentais que lugares. As figuras que habitam este universo são igualmente efémeras e incompreensíveis, sendo que todas as suas conversas se parecem dobrar sobre si mesmas e não levar a lado nenhum.

Para muitos espectadores, tal jogo de deliberada inelegibilidade poderá ser nada mais que uma fonte de dores de cabeça e frustração. Contudo, se nos deixarmos levar pela beleza pictórica, pela envolvência sónica e pela genialidade do cineasta, “Long Day’s Journey Into Night” tem recompensas para nos dar. Primeiro, é claro, temos de nos sujeitar ao transe desta viagem pela memória em forma de cenas fragmentadas e sem nexo, e, quando estivermos no limiar da consciência e da inconsciência, do fascínio e da intransigência, então há que por os óculos de 3D que nos deram à entrada da sala de cinema e prepararmo-nos para adormecer nas cadeiras e cair numa espiral onírica sem precedentes.

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Por outras palavras menos floreadas, depois do filme nos levar a um estado de transe devido ao bombardeamento de estímulos sensoriais e confusão narrativa, Luo Hongwu senta-se num cinema e coloca óculos 3D, convidando a audiência a fazer o mesmo. Depois disso o título de “Long Day’s Journey Into Night” finalmente manifesta-se e entramos na segunda metade do filme. Nesta última hora, Gan Bi volta a explorar os mesmos temas, as mesmas personagens do passado do protagonista e os mesmos acontecimentos já mencionados, mas agora fá-lo com um plano contínuo, sem cortes, em constante movimento e em 3D que dura cerca de 59 minutos.

É impossível não ver nesta proposta uma ambição descomunal por parte dos cineastas em causa, mas Gan Bi complica ainda mais o seu filme ao orquestrar uma coregrafia de câmara que, em certas alturas, parece desafiar as leis da física. Há que lembrar que estamos dentro de um sonho e o realizador tenta a todo o custo proporcionar uma experiência imersiva que transmita a ideia de infinitas possibilidades. Por isso mesmo, a câmara viaja por uma mina, observa um jogo de ping pong, segue uma mota, atira-se de uma ravina, perscruta um labirinto proto urbano onde é testemunha de um jogo de bilhar, de uma sedução inerte e um concurso de karaoke, voa graças a uma raquete mágica antes de se aventurar pela fuga de uma mulher que abandona o filho e terminar numa casa que gira sobre si mesma quando se vocaliza um feitiço secreto, escondido num livro verde.

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O cinema é um sonho lúcido.

Ao longo desta folia, a banda-sonora dança entre sons eletrónicos e coros distantes, os sons formam uma catedral de ruído e “Long Day’s Journey Into Night” faz-se de Napoleão e coroa-se a si mesmo rei formalista do cinema de 2018. O filme é a obra final para qual a primeira longa-metragem de Gan Bi era um esboço. A estrutura dos filmes é incrivelmente parecida, com uma primeira metade fragmentada seguida por um ensandecido plano ininterrupto, onde a excisão de cortes não impede a cronologia da ação de se transmutar e fragmentar. Contudo, na mesma medida que “Kaili Blues” era um tratado sobre tempo e movimento, em cinema e na etérea narrativa humana no seu centro, este segundo esforço é sobre o sonho e a memória, interessando-se em questões de tempo e movimento como ferramentas para o seu engenho e não como sujeitos de estudo.

Gan Bi, cujo discurso dentro e fora dos seus filmes é uma coleção de referências artísticas sem fim, evidencia na sequência do sonho as ideias de Tarkovsky sobre a extensão do momento e do tempo até que a realidade é sublimada por uma pressão crescente. Na memória, ele evoca o cinema surrealista de outros autores, trabalhando num gesto que tanto tenta confundir como seduzir a audiência. Articular a experiência deste filme é algo difícil, tal é o papel dos sentidos na sua apreciação visceral, mas fica aqui a ideia de que, em tempos recentes, talvez nenhum cineasta se tenha aproximado tanto como Gan Bi da sintetização em cinema dos mistérios da mente humana enquanto espaço de impossibilidades.

Quando vemos “Long Day’s Journey Into Night” é como se nos perdêssemos do nosso corpo e fôssemos mergulhados na psique fílmica de Gan Bi, é como se nos embriagássemos em melancolia e caíssemos de cabeça nas angústias amarguradas de Luo Hongwu. As memórias são mentiras e verdades comungadas e o cinema é toda uma mentira, mas não haverá mentira tão doce e intoxicante como esta que Gan Bi nos sussurra.

Long Day's Journey Into Night, em análise
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Movie title: Di qiu zui hou de ye wan

Date published: 2018-11-22

Director(s): Gan Bi

Actor(s): Yongzhong Chen, Hong-Chi Lee, Wei Tang, Jue Huang, Sylvia Chang

Genre: Drama, Mistério, 2018, 133 min

  • Cláudio Alves - 95
  • José Vieira Mendes - 90
93

CONCLUSÃO

Gan Bi afirma-se aqui como um dos grandes autores do cinema chinês contemporâneo, perscrutando as diferenças entre representar memórias fragmentadas e um sonho impossivelmente fluido. Formalmente, este é um feito cinematográfico com poucos precedentes.

O MELHOR: O sonho de uma hora e sua espetacularidade melancólica em tonalidades de néon, sob a luz de fogo-de-artifício e pintada com a profundidade do 3D.

O PIOR: Quão frustrante a primeira parte é na sua constante sugestão de significados que só nos são dados retroativamente pelo sonho da segunda metade. É um jogo engenhoso, mas que levará ao aborrecimento e ao ódio de muitas audiências.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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