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LEFFEST ’18 | Segredos e Mentiras, em análise

“Segredos e Mentiras”, a obra-prima que, em 1996, valeu a Palme d’Or a Mike Leigh, regressa aos cinemas portugueses numa versão restaurada. O filme também integra a retrospetiva do realizador inglês feita no âmbito do Lisbon & Sintra Film Festival.

O cinema britânico é célebre por uma tradição realista que remonta ao período pós-guerra e chegou à sua primeira apoteose durante a década de 60. No panorama contemporâneo, Mike Leigh assume-se como um dos grandes perpetuadores dessa tradição. Já há três décadas que o cineasta tem dedicado a carreira a estudos humanistas caracterizados por atores que constroem suas prestações com base em improvisação e aproximação a um registo de híper naturalismo. Hoje em dia, tais técnicas podem aparecer no contexto de pesquisas históricas como “Mr. Turner” e “Peterloo”, mas o seu foco continua a ser a minúcia do comportamento humano, a complexidade de relações interpessoais, de dinâmicas sociais e o trabalho de ator em estado de graça.

Entre toda a sua gloriosa filmografia, uma obra afirma-se como a magnum opus do realizador, ou pelo menos como o trabalho mais representante da sua oeuvre em geral. Trata-se de “Segredos e Mentiras”, o filme mais popular na carreira de Leigh, o mais comercialmente bem-sucedido e o vencedor da Palme d’Or no Festival de Cannes de 1996. Tal foi o sucesso deste melodrama dos subúrbios londrinos que até a América Leigh veio a conquistar, acabando com um projeto nomeado a cinco Óscares, inclusive uma indicação inacreditável para Melhor Filme. Mesmo numa época em que a Academia de Hollywood se virava progressivamente para projetos independentes, a especificidade e deliberada modéstia de “Segredos e Mentiras” parecem uma aberração junto a títulos como “O Paciente Inglês” e “Jerry Maguire”.

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Uma família como todas as outras, cheia de segredos e mentiras, ressentimentos e amor.

O mais impressionante de tudo é que, nas mãos de outro cineasta, é fácil imaginar a premissa narrativa de “Segredos e Mentiras” resultar num desinspirado exemplo de sensacionalismo telenovelístico. Afinal, esta é a história de Hortense, uma optometrista preta de classe média que, após a morte da mãe adotiva, decide descobrir a identidade da sua progenitora biológica. O que ela encontra é uma mulher branca de classe baixa com tendências histriónicas que dá pelo nome de Cynthia Rose Purley e que, atualmente, vive com a filha adulta, mas depende financeiramente da caridade do irmão mais novo, Maurice. Por sua vez, ele é um fotógrafo cabisbaixo que só quer ver as pessoas que mais ama serem felizes, mas tem de diariamente confrontar as dinâmicas antagónicas da irmã, da sobrinha e até de Monica, sua esposa que converteu a casa dos dois num pesadelo de pastéis e respeitabilidade suburbana.

Uma filha desconhecida de diferente etnia a aparecer repentinamente, um casal que passa a vida a discutir, uma mãe e filha que só comunicam em gritaria e um malfadado festejo de aniversário em que quase tudo é posto em pratos limpos e litros de lágrimas são derramadas. Sim, “Lágrimas e Suspiros” bem poderia ter sido um desastre de sentimentalismo gratuito, mas Leigh jamais permite que tais excessos dramáticos floresçam da sua narrativa. Parte dos seus esforços concentram-se na estética rigorosamente realista que o cineasta aqui promove, especialmente no que diz respeito à fotografia granulosa de Dick Pope. O homem que viria a pintar a “Mr. Turner” em matizes proto impressionistas, trabalha aqui numa lógica de iluminação naturalista e sempre motivada, mas transcende os limites de dogmas como aqueles de Lars von Trier e Thomas Vinterberg.

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Com isso dito, é evidente que o cinema de Mike Leigh não é um cinema apoiado somente em cenários imersivos e fotografia primorosa. Acima de tudo, a obra de Leigh vive das personagens que o cineasta coloca no panteão luminoso do ecrã de cinema e “Segredos e Mentiras” não é diferente. Cada personagem, por muito caricaturada que possa parecer, como pode inicialmente acontecer com Monica, é construída com monumentais doses de delicadeza e nuance, com carinho e respeito por um realizador cuja empatia humanista não tem limites. No caso deste filme em particular, isso é particularmente evidente, pois Leigh oferece aqui uma das suas raras conclusões otimistas.

Tamanha generosidade estende-se das personagens aos atores que as interpretam com quem o realizador trabalha registos que podem parecer ocasionalmente exagerados, mas cujos excessos são sempre justificados pela caracterização pretendida. Nem sempre é assim na filmografia de Leigh, sendo “Segredos e Mentiras” um dos pontos altos do seu trabalho com atores. Tão inegáveis foram os feitos do elenco que Brenda Blethyn ganhou o prémio do Festival de Cannes e foi nomeada para o Óscar por interpretar Cynthia. Esta é uma figura de grande histeria e copiosas lágrimas, uma mulher facilmente chamada de patética, mas a quem Blethyn confere uma estranha dignidade precisamente pela sua candura emocional e inescapável fragilidade psíquica.

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O elenco é formidável, talvez o melhor na filmografia de Leigh.

Seus pas de deux conversacionais com Marianne Jean-Baptiste no papel de Hortense são assombrosos. Blethyn é uma explosão que tudo exterioriza, enquanto Jean-Baptiste representa um movimento inverso, de implosão e interiorização silenciosa de todos os choques que são atirados contra a sua personagem. Todo o cosmos de desapontamento, esperança, traição e piedade que Jean-Baptiste conjura no clímax do filme ter-lhe-ia merecido o Óscar de Melhor Atriz Secundária para o qual foi nomeada. Por sua vez, Spall dá corpo e alma à sua figura sôfrega, ancorando o filme nos seus pedidos compulsivos por alguns sorrisos. Até com figuras mais extremas como a outra filha irritada de Cynthia e a esposa de Maurice, Claire Rushbrook e Phyllis Logan encontram multidimensionalidade, na mesma medida em que Lesley Manville quase conquista todo o edifício fílmico nas suas breves aparições como a assistente social mais credível e cansada da História do Cinema.

Se há um elemento mais frágil em toda a mestria de “Segredos e Mentiras” é a gentileza omnipresente de Mike Leigh enquanto realizador. Especialmente no que diz respeito à possibilidade de uma violação traumática no passado de Cynthia e às tensões raciais que se sentem cada vez que Hortense se imiscui num espaço social tradicionalmente branco, quase sentimos que Leigh não teve coragem de desenvolver as questões cáusticas que levanta. Enfim, não podemos elogiar o humanismo delicado de Leigh e depois criticá-lo demasiado pela sua recusa em castigar as suas personagens com ódio e exumações de passados dolorosos. Se há algo que “Segredos e Mentiras” defende é que todos merecemos afeto e amor nas nossas vidas, algo que pode parecer lamechas, não fosse o realismo brutal, mas nunca violento, com que o Mike Leigh nos transmite tais ideias.

Segredos e Mentiras, em análise
segredos e mentiras

Movie title: Secrets & Lies

Date published: 2018-11-18

Director(s): Mike Leigh

Actor(s): Brenda Blethyn, Timothy Spall, Marianne Jean-Baptiste, Phyllis Logan, Claire Rushbrook, Lee Ross, Elizabeth Berrington, Michele Austin, Lesley Manville

Genre: Drama, 1996, 136 min

  • Cláudio Alves - 95
  • José Vieira Mendes - 90
93

CONCLUSÃO

“Segredos e Mentiras” é o filme mais célebre e lucrativo de Mike Leigh, assim como um dos seus projetos com melhor elenco. Trata-se de um retrato das dinâmicas de uma família há muito fraturada por ressentimentos, deceções e traumas passados que, todos os dias, negoceia os parâmetros da sua intimidade conjunta. Ou seja, uma família como todas as outras, se bem que nem todas as famílias experienciam o aparecimento de filhas de etnias inesperadas há muitos anos dadas para adoção.

O MELHOR: O formidável trabalho dos atores, especialmente Jean-Baptiste e Spall.

O PIOR: As permutações raciais e sexuais inerentes à narrativa nem sempre são exploradas na sua plenitude. Isto arrisca-se a conferir uma aparência de inadvertido conservadorismo ou então temor reticente a algumas das suas dinâmicas sociais.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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