Asako I & II critica leffest

LEFFEST ’18 | Asako I & II, em análise

Depois do épico observacional de cinco horas “Happy Hour”, Ryûsuke Hamaguchi assina em “Asako I & II” um romance aparentemente convencional que competiu no Festival de Cannes deste ano e agora chega ao público português na secção competitiva do Lisbon & Sintra Film Festival.

A comédia romântica é um subgénero cinematográfico que existe desde há muitas décadas, mesmo que nem sempre tenha sido reconhecido com esse nome. Essas obras confortavelmente assentes em fórmulas onde Meg Ryan eventualmente tinha sempre de abandonar um infeliz e aborrecido pretendente em prol de encontrar o seu final feliz com o coprotagonista da fita. Tais figuras secundárias são inerentemente descartáveis e o espectador é treinado pela convenção e pela expetativa a não dar valor à sua interioridade, negando-lhes a qualidade humana das outras personagens. Afinal, o amor digno do grande ecrã precisa de obstáculos, mas esses obstáculos não podem nunca ter direito à nossa empatia. Isso complicaria demasiado a receita pop. Entre muitas outras possíveis leituras e interpretações, “Asako I & II” representa uma ativa subversão desta dinâmica.

Apesar disso, o filme de Ryûsuke Hamaguchi começa como uma exaltação dos mesmos mecanismos de cinema que permitem sintetizar toda a complexidade de uma relação humana em meia dúzia de imagens. Aí, encontramos Asako, uma jovem estudante universitária, a observar uma exposição fotográfica de Shigeo Gocho no Museu Nacional de Osaka. O seu olhar fixa-se numa foto de duas raparigas aparentemente idênticas em uniforme escolar antes de apanhar na sua periferia a figura de um jovem atraente. Ele chama-se Baku e Asako segue-o pela rua depois de saírem do museu. Junto ao rio, eles separam-se, mas o barulho de alguns miúdos a entreterem-se em jogos pirotécnicos fá-los virarem-se um para o outro. A banda-sonora eletrónica cessa, ele avança, abraça a rapariga e beija-a. É amor à primeira vista.

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O amor de contos-de-fadas pertence aos contos-de-fadas.

Também é uma proposta absurda para quem não esteja a ler tais eventos como realidades codificadas pelas necessidades dramáticas do cinema. Asako é uma figura de total passividade embriagada de amor, enquanto Baku é um prototípico bad boy que não pode ser domado por ninguém. Nem eles nem o seu amor pertencem ao nosso mundo, mas sim a uma esfera de existência habitada por fantasias juvenis carregadas de hormonas. Tanto é esta intoxicação apaixonada que, quando os dois amantes sofrem um acidente de mota, Asako rasteja até Baku e os dois perdem-se no erotismo romântico que nasce desta proximidade da morte. Não é surpresa para ninguém quando Baku desaparece e Asako é deixada abandonada com a promessa de um improvável regresso.

Tudo isso é somente o prólogo de “Asako I & II”, sendo que a ação principal da obra só tem efetivo início cerca de dois anos depois de Baku ter deixado a namorada sem aviso. De Osaka, passamos para a selva urbana de Tóquio e é na companhia de Ryôhei que entramos neste primeiro capítulo da história. Ele trabalha para uma empresa de saqué oriunda de Osaka e acabou de se mudar para a capital devido ao emprego. Sua cara é igual à de Baku, mas sua disposição em nada tem que ver com a do rebelde libertino, o que não impede Asako de congelar em choque quando se depara com o executivo bem parecido. Os esquemas incertos do destino levam a que ela trabalhe no café mais próximo dos escritórios de Ryôhei e, apesar de uma inicial relutância, Asako acaba por consentir o convívio.

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Sem descurar ora nas suas sensibilidades pop ou na sua mestria formal, Ryûsuke Hamaguchi vai documentando o florescer de amizades e romances no ecossistema social dos dois indivíduos unidos pelo espectro amoroso de Baku. Verdade seja dita, é difícil para o espectador não se apaixonar um pouco por Ryôhei tal é a sua afabilidade, carinho e abertura emocional. Até quando tenta fazer-se passar por cruel, ele mostra-se incompetente, traído pela compaixão que faz dele a pessoa que é e que, com o passar do tempo, vai derrubando as barreiras emocionais de Asako. O desmoronamento de tal obstáculo ocorre com o advento do terramoto de 2011 é finalmente e seu necessário impulso de mortalidade romântica.

O romance e suas convenções dramáticas são o principal objeto de estudo de “Asako I & II”, mas o filme também constitui um retrato de amadurecimento no qual adolescentes tardios aprendem a reconstruir-se a si mesmos como adultos. No caso de Asako, tal processo parece passar pela domesticidade idílica com Ryôhei e uma adorável gata que passa os fins-de-semana na casa de amigos, enquanto Asako e o companheiro fazem voluntariado numa região costeira. Há aqui contentamento e aparente perfeição, mas há também a ominosa sugestão que o amor que Asako diz sentir por Ryôhei não é mais que uma performance social estimulada pela gratidão. Afinal, não há aqui nenhum do fogo que havia com Baku e quaisquer dúvidas que houvesse são obliteradas quando esse ex-namorado decide reentrar na vida de Asako. Resta-nos questionar se tal fogo é sustentável.

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Tal como Joni Mitchell, Asako tem de ver as nuvens dos dois lados antes de se conseguir compreender a si mesma.

Sem querer revelar demasiados spoilers, fica a ideia de que, a partir desse reaparecimento, as personagens principais de “Asako I & II” fazem uma série de escolhas que provocam dor e tormento àqueles que mais amam. No caso da protagonista, tais devaneios são exibidos sem julgamento, mas também sem nenhuma exteriorização do seu tormento emocional. Ryûsuke Hamaguchi e a atriz Erika Karata mantêm o espectador à distância, convertendo a figura de Asako num barómetro para a audiência, numa tela sobre a qual se pode projetar toda uma infinidade de possibilidades emocionais. Em contraste, Ryôhei é completamente transparente e cândido, seus sentimentos são sempre desenhados de forma evidente na expressão do ator Masahiro Higashide que, quando interpreta Baku, esconde tudo isso atrás de uma máscara de opacidade calculadamente inexpressiva.

Essa dinâmica entre o naturalismo performativo de certas figuras e a estilização inelegível de outras reflete a fricção entre o romance de conto-de-fadas com Baku e a relação de cinco anos com Ryôhei. Nos últimos trinta minutos, tal fricção afeta a própria linguagem do filme e sua economia visual, outrora empregue em espetaculares sequências de romance pop, torna-se numa arma de transtorno e cruel indiferença desferida com rigor formalista. Contudo, o realizador nunca ousa condenar as suas personagens ou o próprio legado cinematográfico e cultural de onde muitas das suas expetativas mais insensíveis nascem.

Tal compaixão humanista recorda a coda de “Os Chapéus-de-Chuva de Cherbourg”, onde Jacques Demy também contrapôs a realidade complicada das emoções humanas com o espetáculo simplista dos mecanismos fílmicos do amor. Num derradeiro olhar de confrontação, “Asako I & II” deixa em aberto ao espectador se se trata ou não de uma história com um final feliz, mas só a existência dessa questão é prova de todo um diálogo concetual que, sub-repticiamente, Ryûsuke Hamaguchi tem vindo a fazer com a audiência. Por vezes, a pergunta e todas as interrogações a si subjacentes é mais importante que a resposta.

Asako I & II, em análise
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Movie title: Netemo sametemo

Date published: 18 de November de 2018

Director(s): Ryûsuke Hamaguchi

Actor(s): Erika Karata, Masahiro Higashide, Sairi Itô, Kôji Nakamoto, Kôji Seto, Misako Tanaka, Daichi Watanabe, Rio Yamashita

Genre: Drama, Romance, 2018, 119 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO

Em “Asako I & II” retrata-se o fulgor do amor perfeito da fantasia juvenil e contrapõem-se tal ideal insustentável a uma realidade adulta cheia de compromissos. O filme pode parecer simples e corriqueiro, mas é uma equação romântica com mais a dizer que muitas obras muito mais putativamente importantes e portentosas.

O MELHOR: A prestação dupla de Masahiro Higashide é deveras impressionante.

O PIOR: A inacessibilidade emocional de Asako pode levar a leituras misóginas do filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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