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Segurança Nacional T8, primeiras impressões

A melhor série de espionagem da televisão por cabo regressa ao palco islâmico para um último ato. Carrie é repatriada de um Gulag, num tenso e turbulento primeiro episódio.

Segurança Nacional” aka “Homeland” chegou finalmente às nossas televisões quase com um ano de interregno, que já ia erradicando das nossas memórias a urgência inteletual e social desta premiada série de culto. No entanto, contrariando a longevidade subjetiva do nosso tempo psicológico, ainda somos capazes de relembrar aquela intrépida e efervescente Carrie Mathison de há quase uma década atrás, acabadinha de sair da “quinta” – o campo de treino dos operativos da CIA -, àvida por provar todo o seu valor longe do tédio claustrofóbico de uma secretária empilhada de ficheiros sensíveis. E em todo esse arquivo temporal de uma vida tão perto da nossa realidade e tão longe da nossa vista, vimo-la crescer e desabrochar camaleonicamente em toda a sua genialidade analítica e em toda a sua falésia de emoções destrutivas, que agora convergem no derradeiro sacrifício incomensurável em nome do seu país. “Deception Indicated” volta a pegar precisamente na escuridão de Carrie, remenda-lhe a ferida e devolve-a ao convívio com os lobos, na esperança que a sua expertise no terreno cole o barro político americano à parede dos seus inimigos.

Segurança Nacional T8 Primeiras Impressões Corpo
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Mas antes de mergulharmos no xadrez de intenções e exigências bilaterais, o enquadramento do status quo é feito às custas daquele dilacerante momento, no final da temporada transata, quando Carrie (Claire Danes) corre tresloucadamente e passa por Saul (Mandy Patinkin) sem o reconhecer, depois de um longo e penoso cativeiro em solo russo. Novamente de regresso à Alemanha, Carrie cumpre agora um escrupuloso plano de reabilitação mental, num Centro Médico Regional do Exército Americano, em Landsthul, aonde cada tortuoso dia de desmame é sabotado pela amnésia traumática do que viveu na custódia do inimigo. E enquanto Carrie ainda acalenta esperanças de voltar a ser completamente reintegrada na agência, as reservas dos seus superiores quanto à lucidez de eventuais atos ilícitos que possa ter praticado contra a sua nação, ainda que inconscientemente, constituem um obstáculo à sua vontade inicial. Assim, é numa toada vagarosamente tensa e mordaz, que os produtores Alex Gansa e Howard Gordon, puxam mais do que nunca pela faceta mais íntima e vulnerável de Carrie, aquela que nos faz seguir cada movimento corporal seu como um rebuçado representativo insaciável.

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Entretanto, no ostentoso hotel Marsa Malaz em Doha, no Qatar, Saul Berenson, na qualidade de Conselheiro de Segurança Nacional do recém-eleito Presidente Warner, é também ele uma espécie de “peace talker man” em matéria de política externa, sobretudo numa pasta que ele conhece tão bem como a do Médio Oriente. Numa altura em que os EUA querem retirar as suas tropas do Afeganistão, abrir um canal para o diálogo reconciliador entre talibãs e afegãos é condição sine qua non, e quem mais apto e confiável do que Saul, para conseguir a proeza diplomática de sentar à mesa das negociações, duas nações de costas voltadas à nove anos. Sempre com aquela sua distinta rigidez corporal e uma eloquência infecciosa, Saul assume a missão mais robusta da sua carreira, carregando às costas, mais uma vez, o destino da nova presidência americana. O último sobrevivente a transitar da primeira equipa de espiões é o nerdíssimo Max Piotrowsky (Maury Sterling), que continua a oferecer à trama uma dimensão emocional mais “quirky” e introvertida, bem como todo o “spy craft” da praxe.

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Com demasiados anti-corpos a favor de uma pacificação para a infindável guerra afegã, Saul volta a recorrer ao savoir faire da sua prodigiosa pupila, para desbloquear as intransigências da parte do seu conhecido Vice-Presidente Afegão, Abdul Qadir G’ulom (Mohammad Bakr) em consentir a libertação de prisioneiros de guerra talibãs como ato de boa fé instigador do início das conversações. E esse obstáculo é exatamente a abébia que Carrie precisa para galvanizar o seu ego e suprir a sua fome profissional, metendo-se no primeiro avião militar a caminho da secção da CIA, em Cabul. Com a intensidade da acção a trepidar levemente perto do desfecho, pavimentando os habituais tapetes escorregadios em diferentes ângulos, todos os ricochetes vão sempre ter com Carrie, em vias de colapsar nos fragmentos da sua memória estilhaçada, que entoam o cântico nebuloso de persona non grata para o seu governo.

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“Segurança Nacional” recomeça o seu adeus naquela típica rotação “slow burner” de quem vai espicaçando paulatinamente os seus trunfos adjuntos, para voltar a embrenhar-se na nossa mente e pele como uma droga clarividente sobre os subterfúgios da “governance” mundial. Contudo, será que Gansa e Gordon conseguirão encerrar este dossiê radioativo com louvor e distinção? Para já, estamos no bom caminho…

Segurança Nacional T8
Segurança Nacional T8

Name: Homeland T8

Description: Na última temporada, Carrie Mathison está a recuperar do confinamento brutal num gulag russo. O seu corpo está a recuperar, mas a sua memória continua fragmentada. Isto constitui um problema para Saul, o conselheiro do Presidente Warner em termos de Segurança Nacional que foi enviado para negociar a paz com os Talibãs no Afeganistão. Porém, Cabul fervilha de senhores da guerra e mercenários, fanáticos e espiões - e Saul precisa dos relacionamentos e conhecimentos que somente a sua protegida pode fornecer. Contra indicações médicas, Saul pede a Carrie para viajar com ele até à boca do lobo... uma última vez.

  • Miguel Simão - 90
90

CONCLUSÃO

"Segurança Nacional" volta a animar os nossos serões de quarta à noite com aquela dose de espionagem real, que atua na sombra obscura dos bastidores governamentais. Claire Danes, é sempre tão genuinamente louca e audaz, que vê-la e senti-la é quase como um deleitoso exercício de contorcionismo para o espetador. Ela e Mandy Patinkin, enchem-nos as medidas por completo. E por todos os motivos e mais alguns,"Segurança Nacional" é absolutamente OBRIGATÓRIOOOO!!!!

O MELHOR: Claire Danes e Mandy Matinkin são contagiantes; enredo bem trabalhado funde a ficção com a realidade de forma superlativa; altíssimos valores de produção.

O PIOR: Ser a derradeira temporada.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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