Os melhores guarda-roupas da TV | 10. Sherlock: The Abominable Bride

The Abominable Bride é o episódio mais extravagantemente vestido de Sherlock que, neste especial, se enfoca num insano mistério vitoriano.

 


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sherlock the abominable bride

Damos início à nossa exploração dos melhores guarda-roupas televisivos de 2016 com um episódio que foi originalmente emitido no primeiro dia desse já infame annus horribilis. Referimo-nos ao episódio especial de Sherlock que serviu como uma bizarra ponte entre o final da terceira temporada e a quarta série que estreou no primeiro mês de 2017. A razão pela qual chamamos a este episódio, quase um telefilme, bizarro devém da sua insana localização na Inglaterra do final do século XIX quando Sherlock tem sido sempre uma versão contemporânea das aventuras do detetive mais famoso da literatura inglesa.

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Desde o início desta famosa série, que a figurinista Sarah Arthur tem vindo a provar a sua mestria e capacidade para criar conjuntos dramáticos capazes de se transformarem em imagens icónicas. Afinal, o que seria de Sherlock sem o casaco comprido constantemente usado por Benedict Cumberbatch ou as confortáveis camisolas de lã que conferem a Martin Freeman uma aparência de caloroso conforto personificado? A resposta é fácil – não seria a mesma série que nos tem vindo a apaixonar desde 2010.

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Para este episódio, denominado The Abominable Bride, a série manteve a sua equipa criativa do costume, incluindo a figurinista que teve aqui um dos seus primeiros trabalhos num registo que não o contemporâneo. Qualquer possível insegurança ou incerteza é invisível aos olhos do espetador pois esta aventura oitocentista mostra o mesmo tipo de brio visual que tem vindo a caracterizar Sherlock. O fausto e requinte das modas vitorianas apenas acrescenta mais exuberância a uma estética que, mesmo com uma narrativa moderna, estava sempre a piscar o olho ao passado.

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Pela primeira vez, por exemplo, os cenários de interiores forrados a exuberante papel de parede não parecem um anacronismo peculiar. O mesmo acontece com algumas das personagens em cena, como é o caso da versão gorducha de Mycroft, cuja enigmática formalidade parece perfeitamente coerente no contexto da aristocracia inglesa no reinado da rainha Vitória. O mesmo se pode dizer do seu irmão, cujo dramatismo característico é exacerbado de modo sublime pela pomposidade severa dos seus novos trajes.

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Grande parte do divertimento do espetador e do desafio de Sarah Arthur vem precisamente da tradução dos estilos pessoais das personagens num mundo diferente daquele em que normalmente as observamos. A guiá-la na sua adaptação, Arthur baseou-se certamente nas ilustrações que acompanharam as primeiras edições dos livros de Arthur Conan Doyle. Afinal, essas mesmas ilustrações são referenciadas pelo guião que nos sublinha como o próprio Watson teve de copiar o estilo do ilustrador para que as pessoas o reconhecessem. Humor metatextual não é nenhuma novidade para fãs de Sherlock, mas The Abominable Bride reforça essa natureza pós-moderna, especialmente a um nível visual.

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Numa perspetiva menos humorística, é fascinante conferir como a relação entre as personagens e a sua imagem é um dos elementos mais constantes do episódio, nomeadamente no que diz respeito ao seu mistério central. O que os outros veem quando olham para a nossa figura, o que a sociedade deduz do nosso aspeto, é algo tão central ao modo como nos vestimos hoje em dia como era no século XIX, mesmo que, no passado, tais realidades fossem muito mais óbvias. Como nota final, destacamos o figurino da personagem titular, a noiva abominável, cujo figurino memorável e conservadoramente feminino (montanhas de renda, uma silhueta espartilhada e moda nupcial) é um dos melhores que Sarah Arthur já concebeu para Sherlock.

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Na próxima página, deixamos os mistérios do passado para explorarmos o vestuário de uma comédia passada na América dos nossos dias. Não percas!

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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