"Sibyl" | © NOS Audiovisuais

LEFFEST ’19 | Sibyl, em análise

Sibyl” é um genial melodrama de Justine Triet, que competiu com o filme em Cannes antes de agora chegar ao Lisbon & Sintra Film Festival.

No universo do grande ecrã, raro é o psicoterapeuta que se pode orgulhar da sua competência e profissionalismo. Afinal, da pura eficácia raramente se obtém drama decente. Nesse aspeto, a figura titular de “Sibyl” é uma perfeita psicoterapeuta para a narrativa cinematográfica. Drama é o que não falta na sua vida e, quando tudo se acalma, ela própria está pronta a minar as cavernas da memória em busca de algum farrapo de caos que venha desordenar o espírito. Além disso, em termos de profissionalismo, Sibyl é um zero à esquerda, estando sempre pronta a atirar princípios borda fora e mergulhar de cabeça nas escolhas mais amorais imagináveis para alguém da sua profissão. Sibyl é um desastre e, por isso mesmo, observá-la é um deleite.

A narrativa do mais recente filme de Justine Triet começa num ponto de viragem na vida desta protagonista. Sibyl decidiu dedicar-se à escrita depois de anos a fazer carreira enquanto psicoterapeuta. Apesar dos presságios ominosos de um editor, ela não vacila nas suas escolhas e tem todo o apoio que precisa no idílio familiar. O marido charmoso está sempre pronto a apoiá-la, a irmã excêntrica que vive com ela não se importa de tomar conta das filhas de Sibyl enquanto ela se fecha na clausura do artista em trabalho. O único senão neste cenário é uma crónica falta de inspiração que torna a folha em branco num inimigo tão formidável quanto assustador, seu vazio um constante dedo a apontar para as inseguranças da mulher que não o consegue preencher.

sibyl critica leffest
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Nos píncaros da crise criativa, Sibyl depara-se com uma nova cliente que diz estar em busca de terapia, mas que, na verdade, procura alguém que lhe carregue a responsabilidade de fazer escolhas difíceis. Ela é Margot, uma atriz em início de carreira que engravidou de um colega ator que acontece estar casado com a realizadora do filme em que ambos trabalham. A vida dela é uma autêntica telenovela e Margot não ajuda a situação com o seu constante choro e espirais de dúvida neurótica. Ela é um caco humano e, de repente, é como se uma lâmpada metafórica se acendesse sobre a cabeça de Sibyl. Aí está uma boa história para o seu livro. Só é preciso saber esconder um telemóvel a gravar as conversas entre paciente e terapeuta e saltar por cima de alguns obstáculos éticos pelo caminho.

A premissa narrativa de “Sibyl” é meio estapafúrdica, mas Triet sabe como esticar os limites do drama até chegar ao absurdo e ao transcendente. O emaranhado de más escolhas que unem Sibyl e Margot só se vai complicando com o passar do tempo e, de um dia para o outro, a terapeuta dá por si na ilha de Stromboli a acompanhar as filmagens do projeto que tanto veio desnortear a vida da atriz engravidada. Neste cenário que em tempos foi pisado por Ingrid Bergman, Triet acrescenta mais alguns ingredientes à sua loucura sentimental. Por um lado, temos Igor, o amante de Margot e um especialista em dissimulação. Por outro, há Mika, a realizadora germânica que se tenta equilibrar no precipício da histeria, mas raramente consegue conter as explosões de irritação que a consomem.

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Deste improvável quarteto nasce muito caos, mas isso não é suficiente para o engenho cinematográfico de Justine Triet. Tal como tem vindo a mostrar ao longo da sua curta carreira, a cineasta francesa vive para o estudo de personagens femininas difíceis e “Sibyl” não é exceção. Por muito que o enredo possa chamar a atenção, é a interioridade da psicoterapeuta que dá ordem e propósito ao filme. Mesmo quando tudo corre bem, há sempre algo a matutar na cabeça da protagonista, cujas memórias do passado se intrometem no agora e recusam subsumir-se. O fulgor de uma paixão fracassada está sempre a vir à superfície, está sempre a intrometer-se na psique de Sibyl e a fazê-la questionar as suas escolhas. Gabriel, seu antigo amante, é um espectro que tanto seduz como destrói, uma manifestação do desejo rarefeito e do apelo magnético do caos.

Nesse sentido, “Sibyl” assume-se como um melodrama estilhaçado pela intromissão da memória. É a já referida telenovela, se esta fosse partida pelos ecos de um passado que parece sempre mais real que o presente. Tais realidades traduzem-se na estrutura e nos ritmos de montagem do filme, com flashbacks a segmentarem cenas corriqueiras e a interromper o desenrolar do drama principal. Por vezes são diálogos concretos, enquanto noutras ocasiões são só imagens de luxúria. O que isto faz é distabilizar a protagonista e o espectador que a observa, pondo em dúvida os próprios paradigmas da felicidade que todos tentamos alcançar em vida. Será que essa felicidade pode ou deve ser igual para todos?

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A ideia de felicidade de um pode ser uma mera construção social para outro. Sibyl, que parece uma mulher de sucesso que conseguiu tudo o que queria na vida, é confrontada com a vacuidade de um idílio que parece ter nascido de ideais sociais ao invés do seu coração. O seu marido é perfeito, mas a perfeição não a excita. O seu trabalho como terapeuta era sólido e importante, mas há algo na precariedade da aventura literária que chama por ela. Mesmo quando tudo parece correr bem, ela precisa de incluir Margot na sua vida qual alcoólica a engolir um copo de champanhe com um só golo. A partir da forma e da estrutura, Triet assim redefine o melodrama sem estribeiras à imagem do retrato contraditório sobre uma mulher que parece ser alérgica a estabilidade e se está sempre a deixar levar por impulsos autodestrutivos que ela mesma não consegue racionalizar.

O que faz todo este complicado engenho funcionar é, como já dissemos, a astúcia formalista de Triet. Contudo, muito crédito há que ser dado aos atores, eles que tão habilmente dominam registos tonais que vão desde o melodrama mais choroso à farsa mais gritada. O trio de mulheres no centro da trama é de particular espetacularidade. Virginie Efira consegue, de algum modo, impor ordem na tempestade de incongruências comportamentais de Sibyl. Por seu lado, Adèle Exarchopoulos dá vida a Margot em toda a sua glória caprichosa e birrenta. Apesar da sua aparente vulnerabilidade emocional, a atriz real faz da atriz fictícia uma mulher que sabe ter a capacidade para ser um formidável objeto de manipulação dissimulada pela lágrima e o tremer de um lábio carnudo. Por fim, Sandra Hüller é um pingo de pura comédia neste cocktail bombástico, fazendo de Mika uma figura que simultaneamente consegue ser uma harpia de histerismo descontrolado e a única ilha de sanidade neste mar de folia.

Sibyl, em análise
Sibyl

Movie title: Sibyl

Date published: 2019-11-24

Director(s): Justine Triet

Actor(s): Virginie Efira, Adèle Exarchopoulos, Sandra Hüller, Gaspard Ulliel, Niels Schneider, Paul Hamy, Laure Calamy, Arthur Harari, Adrien Bellemare

Genre: Comédia, Drama, 2019, 100 min

  • Cláudio Alves - 80
  • Rui Ribeiro - 83
82

CONCLUSÃO:

“Sibyl” é um melodrama desconstruído e exaltado pelo engenho formal e estruturalista de Justine Triet. A realizadora e um elenco à altura, dão vida a um estudo de personagem que faz rir e chorar, que encontra absurdo na tragédia e depressão no idílio de um final feliz.

O MELHOR: A plasticidade tonal que a montagem proporciona.

O PIOR: Chegado o final, parece que o argumento não sabe bem como resolver os problemas de “Sibyl” ou dar conclusão aos vários fios da narrativa dispersa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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