Estreia hoje, quinta-feira 17 de setembro, nas salas de cinema portuguesas, com distribuição da Cinemundo, a nova comédia francesa “Só Uma Ilusão” (2026, Éric Toledano e Olivier Nakache).
Antes da estreia, a MHD entrevistou os realizadores do filme na passada quinta-feira 10 de setembro na Embaixada de França em Lisboa. Nessa mesma noite aconteceu uma sessão especial de antestreia do filme no Jardim da Estrela, ao ar livre onde os realizadores estiveram igualmente presentes. A acompanhar o teu visionamento nas salas de cinema, deixamos um resumo da nossa entrevista.
Regressar aos anos 1980 em Só Uma Ilusão
Éric Toledano e Olivier Nakache têm uma relação próxima de amizade que se repercute no seu trabalho. Assim, os dois realizadores trabalham juntos há mais de 30 anos, mais precisamente desde 1995. Desde então, os dois realizadores sempre assinaram os seus filmes em conjunto. “Trabalhamos melhor em conjunto. Não sabemos fazê-lo de outra maneira. Não dividimos de uma maneira clara o nosso trabalho.”, referiram os realizadores.
Conhecidos mundialmente pelo grande sucesso “Amigos Improváveis” (2011), neste filme, os realizadores decidiram fazer uma história um pouco mais íntima. Assim, “Só Uma Ilusão” não é meramente um filme de homenagem ao ano de 1985. Os seus temas intemporais como a família ou o desemprego têm uma razão de ser na narrativa deste filme. Deste modo, os realizadores decidiram situar o seu filme em 1985 porque “é o nosso tempo da adolescência. Esta era a melhor forma de contarmos a história, de todas as mudanças que estavam a acontecer, a partir dos olhos de uma criança. Esta foi uma época de transição com a chegada da esquerda ao poder em França e o crescimento do desemprego. Foi também nesta altura que surgiu o ‘Restos du Cœur’” (nota: uma instituição de caridade para distribuição de comida pelos mais necessitados).
Os realizadores Éric Toledano e Olivier Nakache refletiram, assim, sobre a sua própria infância através do olhar de Vincent. De referir que Éric teria 13-14 anos em 1985 e Olivier teria 11-12.
Para os realizadores, regressar aos anos 1980 foi mágico. Contudo, tiveram algum receio que pudessem errar na transposição deste contexto histórico. “Esperamos não ter errado muito. Foi como regressar a todo o espírito dos anos 1980, às suas cores, aos seus penteados.”
A narrativa do filme o seu tratamento

“Só Uma Ilusão” é um filme que se centra numa fase de transição da infância para a adolescência do ponto de vista da religião. Isto porque Vincent prepara-se para o seu bar-mitzvah – a altura em que, segundo o judaísmo, ele entrará na vida adulta de responsabilidades. Contudo, para os realizadores a religião está presente no filme apenas como meio para atingir um fim. Nesse aspeto, Éric Toledano e Olivier Nakache decidiram acabar o filme sem mostrar ao espectador o próprio acontecimento. Na verdade, o filme centra-se muito mais nas próprias dúvidas de Vincent e na sua primeira paixão. Os realizadores justificam o final do filme em aberto: “Porque é um ciclo. O importante era mostrar a transição da infância para a idade adulta. A religião foi apenas um motivo.”
Ao longo do filme sentimo-nos ligados aos desafios de Vincent. Em certa medida, sentimo-nos no seu corpo. Os realizadores, por vezes, intensificam esta ligação com o espetador ao tornar o olhar de Vincent ainda mais subjetivo. Lembremo-nos, por exemplo, das cenas em que Vincent imagina os seus pais numa viagem de carro a preto e branco ou quando os seus pais estão a ralhar com ele e surge Anne-Karine à sua frente. “É a mistura do olhar. O Vincent não distingue a realidade da ficção.”, referiram os autores. Mais do que uma homenagem ao cinema, esta é a própria fantasia de Vincent.
Entre a realidade e a ficção

Regressando ao final do filme, os realizadores não só terminam “Só Uma Ilusão” a meio caminho, como ainda nos dão algumas imagens em película que funcionam, em certa medida, como um resumo da grande temática do filme. Ou seja, a transição entre a infância e a vida adulta e, claro, sobre a ligação familiar das personagens. No entanto, estas imagens não são apenas ficcionais, o que tornam a experiência totalmente diferente…
“Há imagens de arquivos pessoais. Misturámos. É a conclusão certa. A ficção e a realidade misturam-se sempre na cabeça. Então, ali estávamos totalmente numa ficção, baseada na realidade. No fim, misturámos a ficção com a realidade. Misturámos imagens dos nossos pais e de nós pequenos com as imagens que filmámos desta família. (…) Isso mistura-se sempre e é isso que faz o cinema. Falamos sempre de nós no cinema. Todos os realizadores. (…) É a magia do cinema.” Os realizadores concluem mesmo que muito do que metem de pessoal nos seus filmes é inconsciente: “Também é por isso que fazemos muitas ‘tournés’. (…) Para que os espectadores nos deem uma resposta, daquilo que sentem.”, confidenciaram os autores.
Os atores de Só Uma Ilusão

Ao ver “Só Uma Ilusão”, sentimos que esta família é praticamente real. Isso é, obviamente, conseguido pelo excelente desempenho dos seus atores. O pequeno Simon Boublil têm aqui o seu primeiro papel no cinema como Vincent e é realmente perfeito, seja na sua relação com o seu irmão de ficção interpretado por Alexis Rosenstiehl ou com os seus pais interpretados pelos atores profissionais Louis Garrel e Camille Cottin.
Sobre Simon, referiram os realizadores: “Foi um casting. Foi muito longo. O Alexis encontrámo-lo logo. O Alexis apresentou-se como um milagre, apareceu logo, com um carisma, com aquela beleza e o lado ‘rock’ que precisávamos para a personagem. Pelo contrário, o Simon foi complicado. Vimos cerca de 2000 crianças. Então, foi difícil encontrar esta criança entre a infância e a adolescência. (…) Encontrámo-lo um mês antes da rodagem.”
Por fim, podes ler aqui a nossa crítica ao filme.


