"Sócrates" | © Querô Filmes

Queer Lisboa ’19 | Sócrates, em análise

Sócrates”, uma obra já premiada nos Film Independente Spirit Awards do ano passado, é um poderoso drama brasileiro e está integrado na competição de longas-metragens do Queer Lisboa 23.

Alguns filmes começam com um sussurro, uma leve insinuação do que está para vir. Outros começam com gritos. “Sócrates”, a primeira longa-metragem narrativa do brasileiro Alexandre Moratto, é um exemplo da segunda hipótese, tanto a nível figurativo como literal. A primeira imagem que vemos é a face plácida de uma mulher que parece dormir. Alguém a sacode, em histeria e angústia, enquanto, na banda-sonora, rugem as súplicas desesperadas de um filho em pânico. Esta mãe não acorda, por muito que a voz off-screen lhe suplique. A mãe de Sócrates morreu e, agora, ele está sozinho.

Este jovem tem apenas 15 anos e, tirando a mãe que o espectador nunca vê sem ser em forma de cadáver, Sócrates não parece ter qualquer pessoa para o apoiar. No rescaldo do choque, os seus ouvidos ainda zumbem e as palavras de assistentes sociais são como ecos distantes e ininteligíveis. A câmara, como que a seguir o voyeurismo claustrofóbico de Cassavetes e dos Dardenne, não se afasta da cara dele, documentando a apatia narcotizada que vem com o luto. Nestes instantes, Moratto mostra-nos um jovem a afogar-se em terra, sentado numa cadeira de um escritório impessoal, cansado ao ponto que já nem consegue chorar.

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© Querô Filmes

A atenção que Moratto presta à face do seu protagonista é amplamente justificável pela extraordinária performance do ator. Este é o primeiro papel de Christian Malheiros, mas ele mostra a segurança e plasticidade expressiva de um veterano do grande ecrã. Quando está em cena, o seu Sócrates é um livro aberto de angústias juvenis, de dor e luto, de desejo e ressentimentos. Vê-lo chorar é tão ou mais doloroso do que o ver tentar engolir em seco os soluços que ameaçam rasgar-lhe a garganta quando é expulso do apartamento que partilhava com a mãe ou quando a promessa de um romance é esmagada pela mão impiedosa da realidade.

O ator terá sido um dos muitos jovens que este filme empregou numa tentativa de ajudar comunidades empobrecidas do Brasil. Na verdade, “Sócrates” é a primeira produção do instituto Querô que recebe apoio da UNICEF para desenvolver projetos artísticos que abram oportunidades à juventude mais economicamente desprivilegiada desse país. Se há alguma justiça na indústria cinematográfica brasileira, Malheiros estará só no início de uma carreira muito auspiciosa. Contudo, este mundo em que vivemos não é particularmente justo e muitos são os grandes artistas que jamais conseguem ultrapassar as barreiras que a sociedade e a má sorte lhes impõem.

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Na atual conjetura política do Brasil, é difícil imaginar “Sócrates” como um bilhete para o sucesso, não obstante a sua qualidade. O drama é marcado por uma brutalidade emocional e franqueza social que o tornam numa experiência abrasiva, a dois passos do miserabilismo gratuito. Há aqui um retrato muito feio, mas não por isso menos necessário, de um Brasil onde o desemprego é uma praga e a precariedade económica é um veneno de ação prolongada para os mais vulneráveis na hierarquia social. Para Sócrates, um jovem homossexual, preto e sem pais, não há muita esperança.

A abordagem realista de Moratto, com suas câmaras claustrofóbicas e sonoplastia expressiva, fazem com que toda esta tragédia seja experienciada através da subjetividade do protagonista. Isso tanto atenua como intensifica a dor da história. Se há algo que poupa o filme de ser categorizado como ‘poverty porn’ é o modo como os cineastas estão sempre prontos a contrabalançar a situação desesperante de Sócrates com rasgos de fúria e de prazer. A relação que ele desenvolve com um colega de trabalho chamado Maicon pode acabar mal, mas injeta uma necessária carga erótica no desfile de desgraças do filme.

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A primeira interação dos dois futuros amantes é um jogo de olhares e agressividade de macho latino, uma performance de galos emproados em dança de acasalamento. A câmara dança com eles e a montagem marca o compasso do seu gesto e do seu olhar. Mais tarde, quando estão sozinhos num apartamento e a promessa do sexo paira no ar, a câmara acalma e afasta-se para melhor observar a coreografia de um beijo e de uma fuga, de um regresso e de uma paixão explosiva. Tais passagens excitam e emocionam. É claro que, como tudo na vida de Sócrates, o sexo também acaba por se tornar numa fonte de tristeza que só não é maior porque o jovem faz como um comboio distante e foge da cena a toda a velocidade.

“Sócrates” é assim um daqueles filmes que muito aplaudimos, mas é difícil de recomendar. Os seus epítetos de sofrimento são intensos e dolorosos, a sua beleza nasce do arder de feridas emocionais abertas e em sangue, depois banhadas com sumo de limão. Trata-se de uma experiência que não poupa, nem sensacionaliza, que não vira os olhos para longe da desgraça, mas também não a ousa tornar em entretenimento de fácil consumo. É, portanto, um filme difícil, mas valioso, nem que seja pelos seus jogos de olhares erotizados e a performance extraordinário que ancora toda a narrativa e dá palpável humanidade a toda esta tragédia brasileira.

Sócrates, em análise
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Movie title: Sócrates

Date published: 2019-09-26

Director(s): Alexandre Moratto

Actor(s): Christian Malheiros, Tales Ordakji, Caio Martinez Pacheco, Roseane Paulo, Jayme Rodrigues, Vanessa Santana

Genre: Drama, 2018, 71 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Com menos de uma hora e vinte, “Sócrates” é como uma facada de emoção e empatia, de sofrimento humano e a resiliência de um jovem que luta por sobreviver num Brasil decidido a afoga-lo em dor. Prestações brilhantes e uma montagem hábil elevam o filme acima de miserabilismos gratuitos e conferem-lhe uma elegância um tanto ou quanto paradoxal à sua brutalidade narrativa.

O MELHOR: O poder da performance de Christian Malheiros.

O PIOR: Apesar de funcionar perfeitamente para este projeto, há pouco de original na abordagem formal de “Sócrates”. Só mesmo o som o diferencia de tantos outros filmes parecidos.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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