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Queer Lisboa ’19 | Memories of My Body, em análise

Memories of My Body”, também conhecido como “Kucumbu tubuh indahku” no original indonésio, foi uma das obras premiadas no Festival de Veneza de 2018 e está em competição no Queer Lisboa 23.

Apesar de ser o filme selecionado pela Indonésia para representar o país na corrida aos Óscares de 2020, “Memories of My Body” tem vindo a causar muita controvérsia no seu país de origem. A obra mais recente do realizador Garin Nugroho foi acusada de promover valores LGBT e ser sexualmente degradante. Exibições do filme foram proibidas em várias regiões da Indonésia e foram feitos abaixo-assinados com milhares de apoiantes para banir a obra por completo. Grupos islâmicos do país têm sido particularmente vocais nas suas exigências de censura estatal contra o filme e têm feito campanha nesse sentido. Recentemente, até se registaram altercações violentas causados por estas disputas.

Grande parte do problema não devém só do conteúdo queer do filme, mas do seu comentário histórico e visão das tradições ancestrais do país. “Memories of My Body” é tanto uma biografia poética sobre um bailarino homossexual como também é um retrato de uma Indonésia encurralada entre a tradição e a modernidade. Uma Indonésia onde os conservadores se apoiam na tradição, mas pervertem-na, excluindo os seus aspetos que contradizem a retórica política, nomeadamente em questões de sexualidade e género. Com tudo isto em consideração, não admira que o filme esteja a causar furor e polémica. Talvez o que mais espanta no meio desta confusão, é que “Memories of My Body” é uma obra de cinema de autor, formalmente rigoroso e deliberadamente ambíguo.

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Em suma, é o tipo de produção que raramente recebe a atenção das massas, tanto na Indonésia ou noutros países. Afinal, qual foi a última vez que se falou nos noticiários da reação pública aos filmes de Pedro Costa? Nada disto lhe tira ou acrescenta valor, só torna “Memories of My Body” num objeto curioso, um artefacto cultural que merece aplausos pelo simples facto de ter posto o dedo na ferida de uma sociedade e tê-lo feito, não através da mensagem gritada, mas com etéreos devaneios de cinema meio lírico, meio impressionista. Tal como o título sugere, “Memories of My Body” é essencialmente uma tapeçaria de recordações.

O filme começa mesmo com a fonte destas memórias, Rianto, a falar diretamente para a câmara, para o espectador. Cada um dos episódios da narrativa é introduzido com uma semelhante mensagem, pela qual o bailarino indonésio expatriado no Japão sugere muito vagamente os temas a desenvolver nesta fase da sua história. As memórias dele são filtradas pelo prisma da ficção e do cinema, sendo que o herói do filme não se chama Rianto, mas Juno – um nome derivado de um viril guerreiro do folclore indonésio. Primeiro, vemos o desabrochar de uma obsessão ainda na infância, quando Juno descobriu a dança Lengger e a começou a praticar. Nesse estilo tradicional, homens vestem-se como mulheres e movem-se com coreografias que sugerem a feminilidade em oposição à força de um macho.

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Em pequeno, Juno mirava os bailarinos em traje de mulher através de fechaduras, frestas em janelas e buracos na parede. Infelizmente, ensaios e nudez não foram as únicas coisas que o menino testemunhou e, depois de um homicídio sangrento, ele é enviado para viver com uma tia. Nesse segundo capítulo, o futuro bailarino encontra outra obsessão. Parece que, ao espetar o dedo nos traseiros das galinhas, Juno consegue prever quando e se elas irão pôr ovos. O que começa por ser um truque com alguma utilidade doméstica, depressa se torna num vício e num motivo de chacota generalizada. E assim Juno vai viver com um tio alfaiate, sendo que pelo meio também teve um encontro meio perverso com uma professora de dança com pretensões maternais e eróticas.

Já com o corpo de um adulto, o aprendiz de alfaiate sente-se atraído por um pugilista que encomendou trajes matrimoniais ao tio, mas o romance é esmagado antes de poder florescer em toda a sua glória. É o que acontece quando se trai a máfia. Os episódios finais distanciam-se um pouco da curiosidade infantil e desejos descontrolados de um adolescente. Por isso mesmo, tratam-se também das partes de “Memories of My Body” que mais obstáculos impõem a um espectador não indonésio. Há uma grande especificidade cultural, política e até linguística na história de Juno a trabalhar para uma companhia de dança e suas relações sexuais ora com políticos ambiciosos ora com bailarinos xamânicos.

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Admitimos que poderemos não ter entendido todas as nuances desta história, sendo que até as legendas da obra se enchem de parênteses e asteriscos para tentar explicar o significado multifacetado de algumas palavras usadas. O que é transversal a toda esta coleção de memórias é a fluidez do género e o modo como o corpo é uma fonte de tantas maravilhas como de pesadelos, de sonhos e obsessões perigosas. Somos todos prisioneiros dos nossos corpos e, por vezes, quase nos sentimos separados deles. Juno, no entanto, é um homem cuja psique e fisionomia são indissociáveis e qualquer tentativa para separar os desejos do corpo dos impulsos da mente é a receita para a frustração e para o desastre.

Por consequência, “Memories of My Body” é um filme que tem um pé na abstração poética da lembrança e outro na materialidade sensualista do corpo. A fotografia de Gay Hian Teoh, a montagem de Greg Araya e a performance de Muhammad Khan são brilhantes na sua mescla destes impulsos contraditórios, dando fisicalidade à imagem virtual do cinema, ao mesmo tempo que tornam a história numa experiência fragmentária e difícil de agarrar, como fumo que escapa por entre os dedos que o tentam conter.

Memories of My Body, em análise
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Movie title: Kucumbu tubuh indahku

Date published: 26 de September de 2019

Director(s): Garin Nugroho

Actor(s): Muhammad Khan, Raditya Evandra, Rianto, Sujiwo Tejo, T. Rifnu Wikana, Randy Pangalila, Whani Darmawan

Genre: Drama, 2018, 105 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Memories of My Body” enfeitiça e confunde em igual medida, uma dança é também uma luta e a memória é um toque, uma cicatriz e um poema sussurrado. Montagem fragmenta a realidade, enquanto a fotografia a ancora no material e o corpo a retorce e transforma em algo que está entre esse binário, entre o sonho e o agora, entre o homem e a mulher. Além de tudo o mais, esta quebra de binários também se estende a perspetivas históricas e políticas, resultando num filme tão complexo como belo.

O MELHOR: A fotografia, a montagem, a performance do ator principal.

O PIOR: A especificidade cultural da obra torna-a em algo meio insular e de difícil apreciação para pessoas exteriores à sociedade onde ela foi feita.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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