Diogo Morgado

Solum | Entrevista exclusiva com Diogo Morgado

Com a estreia de “Solum” nos cinemas, a MHD reuniu-se com o realizador, argumentista, produtor e ator Diogo Morgado para falar sobre o projeto.

“Solum” representa uma proposta um tanto ou quanto peculiar no panorama do cinema português. Trata-se de uma história de ficção-científica que segue modelo familiar de blockbusters de Hollywood. Esta é a aventura dos participantes de um reality show a nível global, em que um grupo seleto de pessoas é deixado numa ilha à mercê dos elementos. Quem conseguir persistir e sobreviver, triunfa, mas há muitos segredos escondidos por detrás desta premissa aparentemente simples, incluindo uma mensagem subtilmente ecológica sobre o estado do mundo na atualidade.

Esta é já a segunda longa-metragem realizada por Diogo Morgado. Já “Malapata”, estreado em 2017, tinha sido obra do ator português que encontrou sucesso fora do país. Também aí, Diogo Morgado trabalhou ao lado do irmão, Pedro Morgado, e tanto mostrou os seus talentos como realizador, como argumentista, produtor e como ator. Agora, resta saber se “Solum” consegue replicar o sucesso comercial que os filmes americanos em que se inspirou conseguiram alcançar nos cinemas nacionais.

Na semana que antecedeu a chegada do filme às salas, a MHD fez uma entrevista exclusiva a Diogo Morgado. O diálogo aqui transcrito foi levemente editado por questões de brevidade.

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MHD (Cláudio Alves): Não é uma pergunta muito original, mas como é que surgiu a ideia para esta história?

Diogo Morgado: A ideia começou aí há três anos, quando eu e o meu irmão nos questionávamos. Nós somos fãs do cinema feito em Portugal. No entanto, achamos que há falta de variedade. Achamos que o cinema português também pode ser outras coisas. Da mesma forma que, olhando para os números, nós vemos público português a ir às salas ver mainstream, filmes de entretenimento, vemos que aqui em Portugal não se produz para esse tipo de público. Nesse sentido, questionámos o porquê. Porquê as dificuldades de determinados géneros em Portugal e se seria possível conseguirmos fazer um filme que, independentemente de conseguirmos financiamento ou não, fosse uma proposta alternativa. Uma homenagem a filmes como o “Blair Witch”, como o “Hunger Games”, como o “Arrival”, como até o “2001: Odisseia no Espaço”. São tudo filmes de ficção-científica que, de alguma maneira, são referências para nós. Não que sejam os filmes da minha vida, de todo, mas são filmes que estão bem feitos dentro do género. A nossa questão era essa: Será que nós conseguimos fazer um filme que, dentro do seu género, seja bem feito? Consiga ser coeso? Será que o público quer ver esse tipo de cinema? Fomos atrás e fomos ver os números de todos estes filmes, do “Hunger Games”, do “Arrival”, do “Blair Witch”, e foram todos fenómenos de bilheteira, sucessos em Portugal. Então, começámos a desenvolver um argumento que se traduziu naquilo que veio a ser o “Solum”.

Nós somos fãs do cinema feito em Portugal. No entanto, achamos que há falta de variedade.

MHD: Enquanto via o filme, pensei no que é que teria vindo primeiro. Se a mensagem ecológica, que acaba por se evidenciar na narrativa, ou a experiência de género. Então tudo começou com a tentativa de fazer este cinema de género no contexto do cinema português?

Diogo Morgado: Começou primeiro pelo género, sim. Depois de escolhermos o género de ficção-científica, começámos então à procura da plasticidade, do que é que nós podíamos agregar a esta proposta e que fizesse sentido. Nós achámos que olhar para o nosso país, para o seu esplendor, era determinante. Achámos que devia ter uma mensagem. Não é uma mensagem demagoga, mas um alerta. Juntando estes fatores todos, chegámos à questão que, para nós, é a reflexão daquilo que andamos a fazer enquanto seres humanos, a nossa condição humana e a forma como tratamos o planeta em que habitamos. Nunca estivemos tão avançados enquanto espécie, nunca estivemos tão dotados de tecnologia e conhecimento, e, no entanto, nunca fomos tão burros. Somos tão génios quanto estúpidos. Isso é uma coisa que, para nós, sempre fascinou e quisemos muito incorporá-la no filme.

MHD: Pensas que estamos a caminhar para o futuro que retratas no “Solum”?

Diogo Morgado: Eu não pus nada no filme que não existisse. Eu só disse “olha, isto aconteceu” ou “está a acontecer”. Nós não estamos a inventar nada. Se calhar é uma perspetiva mais preocupada, claro que sim. Nós até podemos ir à mesma ao futebol nos fins-de-semana, mas estamos preocupados e sabemos que isto é um todo e que as pessoas têm que ter consciência. Esta nova presidência dos Estados Unidos, por exemplo, saiu fora de um tratado ambiental importantíssimo. Como é que, nesta altura, se sai fora de tratados cuja função é só proteger a Terra? Faz-me uma confusão terrível e preocupa-me. Não quero dizer aqui que estamos de uma forma demagoga a explorar isto no filme, mas está lá presente essa preocupação.

MHD: Trata-se de um filme de entretenimento, mas com um alerta necessário.

Diogo Morgado: É isso. É isso mesmo.

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Catarina Mira em SOLUM.

MHD: As conclusões a que o filme acaba por chegar são, de certo modo, quase trágicas. Falas de um alerta, mas achas que ainda há esperança para nós, esperança de retroceder este processo?

Diogo Morgado: Sim. Aliás, há uma frase no “Solum” que está lá metida de uma forma quase subtil, “a esperança do planeta és tu”. Este é um filme que pretende comunicar com a malta juvenil. Nós não estamos a esconder isso. Se há público que é pertinente que veja este filme será o público juvenil, os que estão a cinco ou dez anos de serem os adultos de amanhã que poderão fazer a diferença. Cinco ou dez anos pode parecer muito, mas não é. Um miúdo que tenha quinze anos agora, tem vinte e cinco daqui a dez anos. Aos vinte e cinco anos já se assinam tratados, já se tomam conclusões que podem ter um impacto muito grande no nosso planeta e na comunidade. Não é que o filme seja uma dissertação sobre isso, mas eu acredito no poder das histórias.

MHD: De certo modo, isso vai de encontro a muita da História do próprio género da ficção-científica. Quando olhamos para o passado do cinema e mesmo para obras mais recentes, como mesmo o “Arrival”, vemos que é um género que regularmente se propõe a falar sobre estes temas de forma alegórica.

Diogo Morgado: Sim.

Somos tão génios quanto estúpidos.

MHD: Talvez de um ponto de vista mais técnico, há que dizer que as paisagens dos Açores são lindíssimas.

Diogo Morgado: Incríveis.

MHD: Foi difícil filmar nesse tipo de ambiente?

Diogo Morgado: Não. O que foi difícil foi tentar fazer aqui quase que um best of que servisse o filme. Nós filmámos em cinco ilhas diferentes, mas a tentar fazer com que a história parecesse passar-se numa ilha só. A logística da equipa, do equipamento, em cinco ilhas diferentes, é complicada. Mas nós fizemos questão que, se vamos filmar nos Açores, então vamos filmar o melhor, para servir a história do filme. Estivemos quase a abrir mão de uma das ilhas, mas acabámos por lá voltar pois achámos que era determinante para o filme ter esse cenário. Foi difícil no sentido em que os acessos não eram fáceis, muitos dos lugares eram remotos. Se não fosse o elenco disposto a ajudar, a carregar umas caixas, seria muito difícil para uma equipa tão reduzida conseguir fazer o filme. Isto foi um grupo que se juntou para uma causa. Não havia o grupo do lado artístico e o do lado técnico, havia um grupo de pessoas que acreditava muito naquilo que estava a fazer e, essencialmente, queria que este filme resultasse.

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Maria Botelho Moniz em SOLUM.

MHD: Como falas no elenco, gostava de saber se, tendo trabalhado tantos anos como ator, se essa experiência é uma mais-valia quando chega a altura de dirigires outros atores.

Diogo Morgado: Eu acho que sim no sentido em que eu sei as dificuldades e as inseguranças e, às vezes, os problemas que vão na cabeça de um ator, mesmo sem ele dizer, pois já as tive. Não havia nada que eu pedisse que não fizesse primeiro, para testar a segurança, para testar se era possível, para testar se aquilo que eu estava a pedir não era só da minha cabeça. Portanto, eu fazia tudo antes de pedir. Eu acho que é uma mais-valia, sim. Grande parte das pessoas que compõe este elenco são pessoas com quem eu já trabalhei e, portanto, sabem que a minha postura como ator é uma postura colaborativa. Eu posso ter a minha ideia, mas quero ouvir a tua, e o melhor conjunto das duas há de resultar. Essa é a minha postura como ator, sempre foi. Como realizador, não é muito diferente. A única diferença será que, numa situação de impasse, alguém tem que desempatar e esse alguém sou eu. Se a maioria for da opinião que é melhor fazer assim ou assim, eu nem ponho dúvidas, mesmo que ache o contrário. O que eu acho que é mau para um realizador ou para alguém que esteja a dirigir outro tipo de projeto é quando tenta forçar. A proposta é esta, mas, por alguma razão, o filme transformou-se noutra coisa. Forçar isso a ser aquilo que se pensou de início é o que eu acho errado, porque, no limite, se essa orgânica que foi criada, se é pura, verdadeira e espontânea, ela deve ser aproveitada. Há aqui personagens que estavam escritas para ser sérias, mas estão mais leves. Há personagens que eram para ser mais cerebrais e aqui estão de outra maneira.

MHD: Pegando nessa ideia de o projeto ir evoluindo, entre o guião original e o que vemos no ecrã, houve muitas alterações?

Diogo Morgado: Sim, muitas alterações. Houve alterações do ponto de vista estrutural da história. A intenção quando nós escrevemos é uma e depois, quando vemos no ecrã, muitas vezes o efeito não é aquele que nós queríamos. Essencialmente, teve a ver com o lado do alerta. Estava muito mais forte no guião original e sentimos que, de alguma maneira, estava muito imposto. Mudámos um bocadinho na edição e, ao longo da rodagem do filme, fomos mudando para que ficasse mais equilibrado. Tentámos que ficasse ao critério do espectador de quem é a culpa, o porquê, quem é mau. Repara que tentámos aqui que não houvesse um personagem que é o mau. Há pessoas que, a um determinado momento e consoante a informação que temos, são os maus. Conforme vamos tendo mais informação vamos questionando isso. Alguém pode ter uma atitude má, mas o argumento que a sustenta pode ser válido.

No entanto, o público tem que fazer a parte dele.

MHD: Há uma certa ambiguidade e relativismo moral inerentes ao filme. Ao longo da história, os laços emocionais que o espectador cria com as diferentes personagens vão-se alterando.

Diogo Morgado: Sim.

MHD: Esta já não é a primeira vez que és ator e realizador no mesmo projeto. Como é trabalhar dos dois lados da câmara?

Diogo Morgado: É horrível. No primeiro, nem era suposto entrar, mas, dois dias antes da rodagem da primeira cena da minha personagem, o ator que ia fazer teve um percalço e eu tive à pressa de entrar como ator. Aqui foi diferente, porque esta personagem é muito específica. Eu acho que me fui apercebendo, à medida que ia escrevendo, que no grupo dos atores etc. cada um tinha uma perspetiva muito diferente do que é que era esta personagem. Uma dizia que era um extraterrestre, outro dizia que é uma inteligência artificial, outro dizia que não, que ele é uma consciência humana numa máquina. Havia aqui muita ambiguidade. É uma personagem que não tem uma importância muito determinante na estrutura da história, mas tem muita importância no tom. Vou ser sincero, a responsabilidade dessa personagem era tão grande que eu decidi assumi-la. Se fizesse merda, só me culpava a mim próprio, não queria culpar ninguém. Esta é a mais pura das verdades. Se vires, o tempo de ecrã é pequeno, mas ele é muito específico, é estranho e bizarro, é assustador, mas é hipnotizante ao mesmo tempo. Ficas ali “é suposto eu ter medo ou não ter medo?”. Essa ambiguidade de cenas era o que eu queria. Fui dos que chamei mais nomes a mim próprio na edição, sem dúvida, mas, no final, estou contente com o resultado. Acho que era por ali.

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Gonzalo Ramos em SOLUM.

MHD: Pensas em continuar a trabalhar como realizador?

Diogo Morgado: Para ser sincero, esta coisa de fazer filmes é, obviamente, algo muito pessoal. Aliás, é como aquela pessoa que quer fazer pão que ninguém come. O que é que adianta teres prazer a fazer pão se ninguém o come? O que eu quero dizer com isto é que, para mim, a vontade de continuar a fazer filmes que podem ter pertinência é muito grande. No entanto, o público tem que fazer a parte dele. Se eu não sinto que o público está interessado em ver um filme destes, tenho que repensar se quero continuar a fazer isto. É como um ator, o ator só trabalha se tiver público. Se não tiver público, não faz muito sentido. O António Pedro Vasconcelos, que é um grande amigo, diz “eu posso querer fazer mil e uma histórias, mas quando estou a fazer um filme há duas coisas que me importam – o que é que não perceberam e onde é que se aborreceram”. Se uma história correr mal, se um filme correr mal, tem que, no limite, entreter. Não percebes o filme, não te toca do ponto de vista pessoal e nem sequer te diverte ou entretém, para que é vais ver um filme? Nesta medida, este é o género de filmes que eu e o meu irmão gostávamos de fazer, filmes que fossem vistos em qualquer parte do mundo. Se pões o filme na Bélgica, o filme é válido, se pões um filme, num lado qualquer do planeta, o filme é válido. Não é um filme sobre a cultura portuguesa, não é um retrato da cultura portuguesa, é uma história de vida que poderia ser de qualquer lugar. Eu acho que são esses os filmes que, de alguma forma, conseguem ser mais transversais a todo o tipo de público e eu acredito que aquilo que nós precisamos em Portugal é esse lado internacional. “A Gaiola Dourada” é um exemplo perfeito disso. É sobre o imigrante português? Sim, mas é sobretudo sobre o imigrante e qualquer pessoa no mundo é imigrante. O sentimento de descolocares-te do teu habitat para outro é comum e foi isso que fez com que um filme como “A Gaiola Dourada” tivesse o sucesso que teve. Não é sobre a imigração portuguesa, é sobre um imigrante que, por acaso, é português. Eu acho que essa perspetiva está a faltar ao cinema português. Se queremos contar uma história sobre o que flagela o bairro Z, então temos de cozinhar essa história sobre o bairro Z de forma a que possa tocar qualquer pessoa, mesmo quem não mora no bairro.

MHD: Encontrar o universal a partir do específico, talvez?

Diogo Morgado: Eu acho que sim, eu acho honestamente que sim. É isso que o António quer dizer quando diz “o que é que não perceberam e onde é que se aborreceram”. Se tu não percebes ou te aborreces, é porque não conheces essa realidade, ou porque não te foi explicado ou traduzido ao ponto de fazer essa ligação. Alguma coisa ali está a falhar. Nós somos dos únicos países no mundo, dos pouquíssimos países do mundo, que nunca foi nomeado a um Óscar.

MHD: Aliás, somos o país que mais filmes já candidatou sem nunca ser nomeado. Estamos em boa companhia.*

Diogo Morgado: Sim estamos em boa companhia, mas eu acredito que nós conseguimos. Eu não estou a dizer que o “Solum” é o melhor filme para isso. Não tenho essa ambição sequer, mas o “Solum” é o início de uma conversa. Eu acredito que haja um realizador escondido hoje, aí, que tem condições para fazer o filme que poderia levar Portugal ao Óscar. Ele está aí. Não sou eu, mas quero encontrá-lo. Quero ver isso acontecer antes de morrer e acredito que é possível. Isto tem que instigar as pessoas. Se não, fica sempre, sempre, sempre da mesma maneira e essas pessoas nunca vão surgir. Não quero ser mais do que aquilo que sou, mas quero deixar algumas coisas para os meus filhos, tentar mudar o paradigma do cinema. Os critérios de seleção da atribuição dos subsídios são vergonhosos, escandalosos. Eu só quero começar uma conversa. Eu quero que aqueles que têm algo a dizer, que apareçam, que tenham oportunidade. Nem que passe por baterem à minha porta. Quero muito que me batam à porta com um argumento e me perguntem se é possível. Epá, duas pessoas do elenco foram de um casting. Casting esse que não foi interno. Eu pus nas redes sociais. A Catarina (Mira) é a protagonista e ela mandou casting, ela tinha aquilo que achávamos que esta personagem devia ter, uma coisa maternal, tranquila. Se fez bem, se fez mal, isso é outra questão, mas foi um casting aberto, não foi por cunhas. Eu e o meu irmão criámos uma série que foi “O Pulso” e abrimos casting para argumentistas e foram pouquíssimos, apareceram para aí dez argumentos. Ficámos em pano roto. Porque, se calhar, ainda não está na rua que a gente está a tentar fazer alguma coisa. Se calhar, depois do “Solum”, se voltarmos a organizar um casting para argumentistas, já aparece muita gente. A nossa esperança é essa.

Eu acredito que haja um realizador escondido (…) que poderia levar Portugal ao Óscar.

MHD: Como falas muito do cinema português e de internacionalização, há planos para distribuir o “Solum” no estrangeiro?

Diogo Morgado: Há intenções. Os planos são tentar pôr as intenções em marcha. A intenção é que um filme rodado em Portugal possa ser visto em todo o mundo e seja um bilhete postal daquilo que pode ser feito em Portugal. Eu, que tive a sorte de já ter participado em várias produções internacionais, percebo o potencial que o nosso país tem. Já estive em sítios que não têm potencial nenhum e, no entanto, filma-se imenso. Isto pode ser feito aqui, em vez de ser feito noutro lado. Estamos a preparar uma coprodução americana que é um filme que era para ser rodado noutro lado e, se tudo correr bem, vai ser rodado cá. O serviço público está feito.

MHD: Esperamos que seja o início de muito mais.

Diogo Morgado: Esperamos que sim.

MHD: Por fim e porque não podia deixar de fazer esta pergunta, podes explicar por que razão é que o filme é falado em inglês?

Diogo Morgado: O filme é falado em inglês porque a história é sobre um evento global. Aliás, essa questão de o filme ser inglês ou português foi logo levantada no início. Nós começámos por escrever o argumento em português e depois percebemos que se estava a tornar cada vez mais estúpido porque, se a história do filme é sobre um evento mundial, em vez de ter um concorrente que vem de Braga, outro que vem de Coimbra, temos de ter uma personagem da Finlândia, outro da Noruega, outro do Brasil, outro dos EUA. A história justifica.

MHD: Para não ser como aqueles filmes em que os aliens invadem sempre e exclusivamente os EUA.

Diogo Morgado: Ou então outros filmes que são em inglês e depois tu perguntas-te porque é que isto não é em português. A história é feita aqui em Lisboa e estão a falar em inglês? Este filme, por exemplo, não é caracterizado nem no tempo nem no espaço. O filme não tem um ano, não indica o que já foi ou o que vai ser. Também não tens local.

MHD: No entanto, há certos momentos em que se utilizam passagens áudio de noticiários, com a voz do Trump, por exemplo.

Diogo Morgado: Mas aí são coisas de todo o mundo, é uma recolha. Tens coisas desde a Síria aos EUA.

MHD: Sim, mas é uma referência ao nosso tempo presente, ao passado do universo do filme.

Diogo Morgado: Será que é o passado? Ainda é possível interpretares como sendo do futuro. Uma das coisas que o elenco nos perguntava era se ainda havia espaço para uma eventual sequela e nós temos a sinopse feita. É possível continuar esta história. No fim, percebes que tens novas personagens.

É possível continuar esta história.

MHD: Veremos como é que a audiência responde a este primeiro filme.

Diogo Morgado: Exatamente, mas isso é uma coisa válida se se traduzir num número de público relevante. Eu não preciso que seja esmagador, mas tem que ser relevante. Eu diria que sessenta mil espectadores já é um número que é relevante para o cinema português.

MHD: Infelizmente é.

Diogo Morgado: Epá, aí tu acertaste na batata. Infelizmente é. Mesmo assim, eu penso que quem gosta de ficção-científica vai curtir, como nada ainda foi feito no género, conseguem perceber o esforço, que há uma intenção e a intenção é bem feita. Se a malta juvenil começar a curtir o filme, há espaço para uma sequela.

“Solum” estreou hoje, dia 1 de maio, nos cinemas portugueses. Não percas a oportunidade de ver o filme de Diogo Morgado!

 

*Dos 126 países que já se candidataram ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, 68 nunca foram nomeados. Portugal está acompanhado por outros países com grandes legados cinematográficos como a Roménia, Irlanda, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Egito, Ucrânia, Tailândia e Indonésia.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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