Star Wars: O Despertar da Força, em análise


Star Wars: O Despertar da Força volta a reencontrar-se com a sua identidade matricial, avivando-nos a memória de que Han Solo, Chewbacca, Leia e Luke ainda são os transportadores da mística do maior franchise sci-fi da história do cinema.


FICHA TÉCNICA

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Título Original: Star War: The Force Awakens
Realizador: J.J. Abrams
Elenco: Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Harrison Ford, Carrie Fisher, Adam Driver, Domhnall Gleeson
Género: Ação, Aventura, Fantasia, Sci-fi
Disney | 2015 | 135 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 

 

Há muito, muito tempo atrás, numa galáxia não muito distante…

Star Wars: O Despertar da Força, não se despertou apenas a si próprio, despertou igualmente o espírito mais puro e pueril de uma geração sonhadora que cresceu a idolatrar as estrelas mais emblemáticas da trilogia original. Talvez, Star Wars tenha sido vítima da produção mainstream da máquina de entretenimento hollywodesca, desbaratando-se numa mescla de enredos paralelos descaraterizadores. E foi preciso que a saga indagasse nas brumas da memória para ao fim de três décadas restituir aquele encanto vinculativo que nos viu crescer. O Jedi já regressou há muito tempo, e voltou a dar o ar da sua graça como um messias libertador dos “pecados económicos” de Lucas. Rey (Daisy Ridley) é a nova guerreira das luzes, a última “Airbender” sucateira do ferro velho arenoso de Jakku.

“O Despertar da Força, não se despertou apenas a si próprio, despertou igualmente o espírito mais puro e pueril de uma geração sonhadora que cresceu a idolatrar as estrelas mais emblemáticas da trilogia original.”

Leram bem e no feminino, e não é de estranhar, já que as heroínas nunca estiveram tão em voga como neste nosso tempo cinematográfico. Claro que na sua estrutura formal em termos de enredo, a existência de um predestinado perfila-se como uma condição sine qua non, tal como a predominância de um vilão que justifique a dicotomia entre a força benigna e a força maligna. No entanto, J.J. Abrams não despojou a sua vedeta da aura e àurea de Anakin Skywalker – sobretudo aquele do segundo episódio – sendo as aproximações demais evidentes, nem que seja pela paridade de aptidões ao comando de um bólide espacial.

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E é ali, nas atuais dunas de Abu-Dabhi, numa pintura de fundo que cheira a Lawrence da Arábia, que Rey pesca um dróide giratório (BB-8) tão irrequieto e cognoscível quanto o seu mítico congénere R2-D2. Mas o “bichinho esférico” não aterrou nas mãos de quem devia de pára-quedas, sem antes ter escapado à brigada tempestuosa de Kylo Ren (Adam Driver), com um fragmento da localização do exilado e procurado Luke Skywalker (Mark Hamill). E se uns fogem da carnificina do exército branco, outros como Finn (John Boyega), só querem livrar-se do significado desumano do capacete neutral para desertar com um propósito de redenção.

“Talvez, O Despertar da Força, possa ser acolhido como o derradeiro filme que introduziu ao mundo a guerra intergalática mais famosa de todos os tempos, mas tal constatação pouco importa quando a nostalgia permite superar qualquer défice de inovação.”

É nesta conjuntura de caça ao Jedi sem dó nem piedade que emerge a Primeira Ordem, uma fação de tropas pseudo-nazis liderada pelo impetuoso e maléfico Ren – a mais recente criação do lado negro da força com um je ne sais quois de Vader. Ao leme de uma armada artilhada com a terceira iteração da Estrela da Morte, poder-se-ia afirmar que J.J. Abrams limitou-se a fazer copy/paste de “A Nova Esperança” de setenta e sete. Talvez, O Despertar da Força, possa ser acolhido como o derradeiro filme que introduziu ao mundo a guerra intergalática mais famosa de todos os tempos, mas tal constatação pouco importa quando a nostalgia permite superar qualquer défice de inovação. Basta Chewie entoar o seu guincho de concordância com a empreitada ilícita de Han Solo (Harrison Ford) a bordo da sua “Millennium Falcon” para os velhos tempos renovarem-se como novos. Mais ainda quando Leia (Carrie Fisher) – a General matriarca da Resistência – descola da arca frigorífica do passado a faísca amorosa por Solo.

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Mas é a Rey de Ridley quem desvia o grosso das atenções magnas da máquina do tempo sénior, paulitando destemidamente os obstáculos aremessados na sua direção como uma Keira Knightly em potência. Aguerrida e afoita como uma rebelde que julga ser incompreendida pela Força, é assim que a jovem atriz britânica se lança às feras vorazes, tratando o perigo por tu a cada aro de areia que evapora na sua passagem anónima de aprendizagem transcendente e marcial. Coadjuvada por um Finn assumido por Boyega com a regência da lealdade pelas causas nobres, sprintar visualmente com o duo dinâmico á entrada das unhas de quem os quer esmigalhar até ao rendezvouz em Solo Milenar, atesta o caudal físico e profundidade psicológica que enriquecem os diálogos com a rama shakespiriana.

“Mas é a Rey de Ridley quem desvia o grosso das atenções magnas da máquina do tempo sénior, paulitando destemidamente os obstáculos aremessados na sua direção como uma Keira Knightly em potência.”

Não tivessem as trevas nada a ver com a herança crónica de uma série de complexos de animosidade freudiana e edipiana no seio familiar, que motivassem a esgrima dos sabres de luz num clássico odiante. E se desta vez o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) é a expressão divina de tal perversão disfuncial, o seu lacaio Ren é dirigido pelos mesmos impulsos retorcidos e defeituosos que nortearam os seus antecessores. Mas é neste debate existencial que reside o antagonismo do antagonista, em que Driver faz emergir um pseudo Vader/Yoshimitsu não asmático deliciosamente cruel, temperamental e presunçoso, que subestima o próprio destino, enquanto Rey potencia o seu Jedi interior para o confronto final.

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Star Wars: O Despertar da Força, quando enquadrado num intuito de continuidade, quase que se poderia reduzir, talvez injustamente, a uma remasterização plus que se reinicia literalmente, mas ainda assim, numa análise individual, assume-se como um clássico instantâneo. A sua essência é agora propriedade dos fãs, num pacote mais familiar e honesto sem Ewoks, Jar Jar Binks e Yodas, com mais conteúdo humano de carne e osso, mais abrangente em termos do seu público alvo. Star Wars é muito mais do que um produto cinematográfico, é um fenómeno cultural sem idade, sem tempo, sem gosto, sem sim ou não, retocado ou reinventado, nunca será uma questão de escolha, mas de interiorização.

P.S – May The Force Be With You…

MS

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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