Star Wars: Os Últimos Jedi

O vestuário de Star Wars: Os Últimos Jedi

Entre os mantos imperiosos de Leia e os andrajos de Luke, os figurinos de “Star Wars: Os Últimos Jedi”, desenhados por Michael Kaplan, são alguns dos melhores da saga.

star wars os ultimos jedi figurinos

Por muitas naves espaciais e conflitos armados que tenha na sua narrativa, a trilogia original da saga Star Wars era, muito mais do que uma série de filmes de guerra ou ficção-científica, um conto-de-fadas interestelar sobre a luta do bem contra o mal. As prequelas abandonaram a simplicidade quase folclórica dos seus antecessores para explodirem numa indulgente ópera espacial, tão ambiciosa como inepta. Passada mais de uma década, “O Despertar da Força” inaugurou uma nova era para o universo Star Wars, uma era que, inicialmente, parecia principalmente definida pela nostalgia de lendas do passado e seus códigos visuais. Nesta evolução de tom e género, “Rogue One”, estreado em 2016, marcou uma espécie de evento fraturante, redefinindo a saga como, acima de tudo, uma história de guerra entre forças opressoras e a resistência desesperada.

“Os Últimos Jedi”, mesmo que seja uma sequela de “O Despertar da Força” e não uma continuação direta de Rogue One, parece representar um desenvolvimento da estética e tom de filme de guerra edificados nessa trágica aventura do ano passado. Para fazer a sua pesquisa antes das filmagens, o realizador Rian Johnson chegou mesmo a usar filmes sobre a 2ª Guerra Mundial como objetos de estudo. No entanto, não obstante a sua seriedade bélica, “Os Últimos Jedi” é também um emocionante novo capítulo na épica saga da família Skywalker e todos aqueles que orbitam em seu redor, dando grande importância aos encontros e reencontros de personagens, assim como à carga sentimental e icónica das suas personagens, dentro e fora da narrativa.

star wars os ultimos jedi figurinos

O que isto quer dizer é que, para além de ser um filme de guerra, “Os Últimos Jedi” transcende o conto-de-fadas de outrora, assim como a ópera espacial e o exercício em nostalgia, para se apresentar como uma manifestação mitificada do universo Star Wars. Tanto para o espectador, como para as personagens dentro do filme, Leia e Luke são lendas de carne e osso, enquanto Rey, Finn, Poe e Kylo Ren, entre outros, são pessoas que vivem no mundo criado pelos eventos e iconografia da mítica trilogia original. Isso reflete-se em todos os aspetos do filme, desde o registo dos atores até ao mais pequeno adereço. Pela sua parte, o figurinista Michael Kaplan, veterano de obras tão memoráveis como o original “Blade Runner” e o reboot cinematográfico de “Star Trek”, continua aqui o trabalho que começou em “O Despertar da Força”, refletindo, em tecido e armadura, o modo como este franchise tem vindo a evoluir.

O desafio foi grande, mesmo se descontarmos problemas criativos. Para todo o filme, Kaplan e a sua equipa tiveram de construir milhares de figurinos individuais, sendo que uma centena deles representa o guarda-roupa da alta-sociedade intergaláctica no casino de Canto Bight. Esse foi um dos desafios criativos mais acutilantes de Kaplan, pois, segundo as palavras do figurinista, a saga Star Wars nunca nos mostrou trajes formais para festas ou banquetes. Sempre que algo mais formal foi apresentado, foi sempre num contexto político ou cerimonial, como se pode ver bem nos figurinos sumptuosos de Padmé Amidala nas prequelas. Mesmo assim, foram as armaduras rubras da guarda pretoriana de Snoke que realmente derem prazer ao figurinista, que as definiu, em entrevistas, como o seu figurino preferido deste novo filme.

Lê Também:
Star Wars | Os 10 melhores figurinos da saga

Referir a cor da guarda pretoriana é importante, pois o uso de cor é talvez o elemento que mais radicalmente mudou desde o primeiro filme em 1977. Inicialmente, preto e cores escuras eram associadas com forças antagónicas, enquanto os heróis trajavam branco e creme, principalmente. Agora, no entanto, só os vilões parecem apoiar-se em esquemas cromáticos rígidos, com preto-e-branco a dominarem figurinos e cenários, com alguns apontamentos de doirado e vermelho a elevar Snoke enquanto figura todo-poderosa na hierarquia da Primeira Ordem. Os heróis, pelo contrário não seguem nenhum grande código, com os líderes a vestirem grandes mantos cor de vinho, ou vestidos lavanda, fatos de linho castanho, uniformes modestos e outras variações.

Os heróis são indivíduos com moralidades que não se limitam a preto-e-branco ou vontade dogmática. Kylo, por muito que fale de abandonar o passado, deixa-se reger pelos ideais de poder acima de tudo dos Sith, por isso ele ainda se veste como os vilões de outrora. Rey, Finn e Poe já muito se distanciaram visualmente do trio dos primeiros filmes e quem resta desse trio já não é tão facilmente estereotipado como figura heroica em termos de traje. Depois de todo o classicismo do bem contra o mal nos primeiros três filmes, ao que se seguiu os Jedi contra os Sith nas prequelas, esta nova era de Star Wars é definida pelo conflito entre forças ditatoriais e rebeldes em defesa da liberdade. Nessa liberdade inclui-se uma ideia de desordem visual, algo traduzido nos figurinos com a sua ideia subjacente de caos controlado nas forças da Resistência.

star wars os ultimos jedi figurinos

Com tudo isto dito, os figurinos da saga Star Wars continuam a ser icónicos e memoráveis. Desde que George Lucas e o figurinista John Mollo usaram iconografia nazi e inspiração samurai para conceber um mundo fantasioso entre as estrelas, que o traje das personagens deste universo tem sido um dos seus mais poderosos elementos visuais. Se Johnson e Kaplan conseguem encarar a história destas aventuras como uma mitologia espacial, é porque a aparência dos seus protagonistas e o estilo dos seus mundos foi espetacularmente definido por imagens potentes, cujo impacto ainda se sente várias décadas depois da sua génese. “Star Wars: Os Últimos Jedi” não desaponta no que diz respeito aos seus figurinos, honrando todo o legado sobre o qual o novo capítulo foi construído.

Este é o primeiro de uma série de artigos, onde exploraremos os figurinos do novo filme Star Wars. Nos próximos textos, iremos dissecar a narrativa visual intrínseca aos figurinos de Rey, os segredos escondidos na aparência de Luke Skywalker e todo o glamour amoral do casino mais exclusivo da galáxia.

Se te interessas pelo universo Star Wars, explora o site da Magazine HD, onde, há anos, escrevemos e celebramos esta maravilhosa fantasia cinematográfica com curiosidades, críticas e explorações sobre os seus mais variados aspetos.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *