Street Food

Street Food | Uma viagem deliciosa pelas ruas do mundo

Num mundo globalizado, onde o homem tende a preferir o McDonald’s à comida tradicional quando viaja, “Street Food” mostra o poder social e económico dos pequenos negócios de rua.

“Street Food” explora as particularidades de várias cidades e países da Ásia, na procura de tradições culinárias através de pratos típicos mas também de reinvenções dos mesmos, que passam frequentemente de geração em geração. Apesar de ainda não haver a confirmação de mais temporadas, será de esperar que venham mais com destinos continentais diferentes, pois mesmo descrição da série refere sempre os sabores do mundo e não exclusivamente da Ásia.

Para nós, ocidentais, este documentário é delicioso (e peço desculpa pela óbvia escolha de palavras). Para além da parte culinária interessante (que pode ajudar quem está na área a retirar boas ideias), este documentário tem um papel pedagógico muito importante. Não só nos ajuda a descobrir os “cantinhos do mundo” como nos mostra os costumes tão diferentes dos nossos. A Ásia tem realmente esta tradição muito forte da comida de rua, que cá pela Europa vai crescendo especialmente com negócios importados de lá ou inspirados neles. Em Portugal encontram-se alguns kebabs e pequenas lojas de noodles (e não falo nas roulottes por não serem, na maioria, negócios fixos) e, ao viajar, apercebi-me que realmente temos um grande défice dessa tradição. Apesar de enchermos frequentemente as esplanadas do país, é engraçado comparar e perceber que só recentemente começámos a ter, por exemplo, os típicos mercados de Natal com as barracas de comida, que foi algo que sempre encontrei (sim, viajei sempre muito pelo Natal!) nos vários países europeus que visitei.

mapa
Mapa com os locais retratados na série (elaborado pela autora)

Quem gosta dos programas de competição culinária ou dos famosos programas da Netflix como o “Chef’s Table” (cujos criadores são os mesmos), este documentário será certamente interessante, mas para aqueles que adoram viajar e conhecer as particularidades dos diferentes sítios do mundo, “Street Food” é um must. Este documentário é uma autêntica viagem geográfica e também no tempo, pois estes negócios de comida de rua acompanham frequentemente gerações e gerações de famílias. “Street Food” é mais do que um documentário sobre tradições culinárias, é um testemunho de idosos quase centenários que dedicaram (e continuam a dedicar) a sua vida à comida, é um testemunho da vida social daqueles países, é um testemunho do império das tradições e costumes num mundo onde os gigantes reinam.

Posto isto, se ainda não vos convenci a ver a série, que tal uma pequena viagem (sem “spoilers”!) pelas cidades e países retratados na série? Vamos a isso!




BANGUECOQUE, TAILÂNDIA

Street Food
Omelete de caranguejo, de Jav Fai

A viagem de “Street Food” começa com Banguecoque, uma das cidades com mais comércio de comida de rua, apesar de o governo ter vindo a  tentar afastar os vendedores que ocupam os passeios. Mas existem nomes que continuam a vingar neste negócio, como Jay Fai, conhecida por reinventar pratos clássicos. A sua omelete de caranguejo, os seus “noodles bêbedos” e a sua sopa tom yum deram-lhe uma estrela Michelin. Khun Suthep também é um outro nome conhecido neste meio, bem como Jek Pui, que já vende a sua comida exatamente no mesmo passeio há mais de 70 anos.




OSACA, JAPÃO

Street Food
Bochecha de atum grelhada, de Toyo

O Japão é um país muito conhecido pela sua organização e regras, e a própria realidade do comércio de comida de rua em Osaca reflete esse rigor. Num beco escondido da cidade, está Toyo, um energético vendedor cujos clientes adoram, o que faz com que eles voltem sempre à sua barraca, mas que, tal como a maioria das pessoas retratadas nesta série, passou por grandes dificuldades até chegar onde está. A senhora Kita é um outro caso castiço de Osaca, uma das mais velhas vendedora de comida tradicional. Goshi e o seu pai são também conhecidos em Osaca pelo seu famoso prato okonomiyaki, conhecido como a “comida da alma” da cidade.




DELI, ÍNDIA

Street Food
O famoso chaat de batata, acompanhado por aloo tikki

Em Deli, as várias pessoas que abraçaram esta cidade como a sua nova casa trouxeram com elas a sua cultura e os seus hábitos culinários, influenciando vários pratos atuais. Aqui, destacam-se quatro nomes: Dalchand Kashyap​, que tentou reunir a sua família através da comida, nomeadamente através do seu famoso chaat, conhecido por ser uma verdadeira explosão de sabores; Mohamed Rehan, que continua a fazer o nihari, um prato que era servido aos soldados de Mughal no século XIX e que as pessoas continuam a adorar, chegando ao ponto de esperar horas na fila; Karim, com os seus kebabs que têm vindo a ser servidos desde há cinco gerações e Dharmender Makkan, com a sua receita especial de chole bhature, que mantém a tradição do seu avô.




JOGJACARTA, INDONÉSIA

Street Food
O famoso jajan pasar, de Mbah Satinem

Jogjacarta é um caso especial de uma cidade onde a comida tradicional não foi alterada pela globalização. Um dos snacks mais conhecidos da cidade é o jajan pasar, que já conta atualmente com 200 tipos de diferentes sabores. Mbah Satinem é uma das vendedoras deste típico doce e é tão famosa que se os clientes chegarem depois das 9 da manhã irão ficar desiludidos… Porque já se vendeu tudo! Ainda no que toca ao jajan pasar, Leonarda Tjahjono tem vindo a aplicar uma versão mais moderna da receita, criando diferentes tipos para todas as ocasiões.

Mbah Lindu, uma das mais velhas vendedoras de comida de rua, conta já com 100 anos e tem estado a cozinhar regularmente há mais de 86 anos. Costuma-se dizer que a idade é só um número, e Mbah é a prova disso, uma vez que diz que vai continuar a cozinhar até morrer!




CHIAYI, TAIWAN

Street Food
Cabeça de peixe, dos Hui Lin

Chiayi é um dos casos onde existe muita vida no comércio noturno, com mais de 300 barracas, mas as receitas ancestrais estão sob ameaça. As gerações mais novas vêem-se obrigadas a tentar inovar para manterem os seus negócios ativos. Grace Chia Hui Lin e os seus pais são um caso que demonstra este conflito entre gerações: quando os pais estão fora, Grace faz algumas alterações ao negócio dos pais, tentando torná-lo mais moderno. Aos poucos, os seus pais vêem os resultados e começam também a mudar, pois só graças à persistência da filha é que a sua cabeça de peixe se tornou famosa.

Existe ainda uma receita tradicional de estufado de cabra, famoso por curar muitas doenças, mas que tem um senão: exige que o cozinhado esteja numa panela, enterrado três dias e três noites, num sítio extremamente quente. Apesar dos benefícios deste prato, cozinhá-lo é um grande desafio e, ironicamente, diminui drasticamente a saúde de quem o cozinha.

Um dos casos mais antigos da cidade é Liu, que trabalha com muita determinação e humor e Tsui-Eh, que cozinha o famoso douhua (pudim de tofu) há mais de 60 anos. O douhua é uma sobremesa conhecida de Taiwan, que Tsui-Eh deseja manter exatamente como tem vindo a fazer ao longo dos anos.




SEUL, COREIA DO SUL

Street Food
Kalguksu (receita de noodles cortados à mão), de Cho Yonsoon

Apesar da inovação constante que se verifica na cidade de Seul, que se espelha também na comida, pode-se encontrar os pratos tradicionais da Coreia do Sul no Mercado Gwangjang. Nele existem casos como o de Cho Yonsoon, que abriu uma barraca de kalguksu para pagar as dívidas da família, cuja versão da receita leva os clientes ao encontro de verdadeiros sabores tradicionalis. Gunsook Jung é outro destaque de Seul, conhecido pelo seu caranguejo marinado em soja, vendido na mesma barraca que a sua avó abriu há 86 anos atrás, quando ainda não havia sistemas de refrigeração.

Gumsoon Park e a sua filha Sangmi Chu são a dupla que vende o pakgane mais popular do Mercado de Gwangjang e Jo Jungja criou a sua receita famosa, o baffle, por acaso, num dia em que não podia sair do seu local de trabalho. Aproveitou arroz que tinha sobrado e fritou-o numa máquina de fazer waffles e… Eureka!




HO CHI MINH, VIETNAME

Caracóis
Caracóis, cozinhados por Truoc

A cidade de Ho Chi Minh acabou por emergir depois de tempos conturbados, tendo agora uma grande cultura de comida de rua que demonstra a resiliência da sua população. Exemplos de pessoas que dão vida às ruas são Truoc, que conseguiu preservar uma receita de caracóis que aprendeu através do seu pai e Anh Manh, que mantém a famosa receita de sopa pho, criada pelos seus pais.

Dois dos conhecidos pratos de Ho Chin Minh são o com tam, feito através dos grãos de arroz que são desperdiçados durante a colheita e a sanduíche banh mi, uma recreação da típica baguette francesa que se tornou um ícone da cultura vietnamita.




SINGAPURA

Putu piring
Putu piring, cozinhado por Aisha Hashim

A cultura da comida de rua é única em Singapura, uma cidade-Estado hipermoderna composta por uma enorme diversidade de grupos étnicos. Desta cidade, destaca-se o putu piring, um bolo húmido de arroz com recheio de açúcar de palma, e os famosos noodles wanton, que Tang aprendeu a fazer enquanto órfão, após a 2ª Guerra Mundial. Com 85 anos, continua fiel ao seu prato. O arroz de frango é a comida de conforto predilecta da cidade.




CEBU, FILIPINAS

Nilarang
Nilarang bakasi, de Florencio “Entoy” Escabas

O último destino de “Street Food” é a cidade de Cebu, que tem disponível uma grande variedade de marisco e, graças à influência do comércio antigo de peixe, a rua Filipino está atualmente repleta de receitas únicas. No entanto, nem tudo são boas notícias: 1/4 da população de Cebu vive abaixo da linha de pobreza. Para combater isto, a população tenta explorar o melhor que a cidade oferece através do comércio de rua.

O prato lechon cebu é um dos mais famosos em Cebu, e a família de Leslie Enjambre tem dado continuidade ao negócio aberto pela sua avó em 1940. O nilarang bakasi é um estufado de enguias, famoso pela sua qualidade afrodisíaca capaz de aumentar a libido. Mas, para quem não tinha dinheiro para comprar peixe nem carne, o tuslob-buwa era a solução: um molho rico em gordura, aproveitando o cérebro de porco, cebola e alho. Por último, Rubilyn Diko Manayon tem um negócio que reflete a influência da cozinha chinesa na cidade. Com mais de 18 pratos diferentes, o mais famoso é o lumpia, uma espécie de crepes chineses.

Qual o teu episódio preferido de “Street Food”? E qual o prato que comias sem pensar duas vezes? Partilha connosco!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.