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Sundance 2022 | PIGGY, em análise

“PIGGY” contém uma excelente prestação de Laura Galán, abordando bullying, fat-shaming e auto-aceitação de forma chocante.

Como um dos últimos filmes da edição deste ano do Sundance Film Festival, “PIGGY” prometia ser um filme impactante logo a partir da sua premissa carregada de vingança e a sua imagem de destaque visualmente chocante. Num festival onde temas subjacentes e significados filosóficos e subtis envolvem a maior parte do conteúdo, Carlota Pereda segue o lema “show, don’t tell” sem qualquer restrição.

Uma história agressiva, violenta, sangrenta e traumática com bullying e fat-shaming no seu centro, algo que pode facilmente servir de “trigger” aos espetadores mais sensíveis, por isso, considerem este um aviso leve.

PIGGY
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Com um tempo de execução a bater na marca da hora e meia, o primeiro ato estabelece rapidamente as relações necessários e salta diretamente para uma cena de bullying verdadeiramente horrível numa piscina pública. Sara (Laura Galán) tenta evitar ser vista por outras pessoas devido ao seu excesso de peso, por isso, opta por ir à piscina quando supostamente não há mais ninguém. Assim, Sara sente-se confortável o suficiente para tirar a roupa e nadar de biquíni sem ter que ser ridicularizada ou julgada condescendentemente. Quando outras raparigas aparecem, para além de gozarem com Sara, esta fica apenas com o seu biquíni e sapatos para correr para casa no meio da rua, onde é novamente intimidada por um grupo de rapazes.

No meio destas sequências vergonhosas, um homem desconhecido que também se encontrava na piscina acaba por ser igualmente gozado e testemunha o comportamento das meninas em relação a Sara. O que Sara e este estranho fazem para lidar com o bullying incessante define as duas posições extremas de todos que sofrem com estas situações. Por um lado, Sara representa as pessoas assustadas e traumatizadas que se escondem e se retraem da sociedade, fugindo dos seus problemas em vez de os enfrentar ou procurar ajuda, muitas vezes descarregando todas as suas frustrações nos familiares. Por outro lado, o homem responde de maneira ainda mais violenta e insana, seguindo o provérbio “cada um colhe o que semeia” de forma exagerada.

PIGGY
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“PIGGY” joga com os conceitos morais de vingança e também de perdão. Ajudariam alguém que vos maltrata todos os dias? Bullying constante, comportamento desrespeitoso, interações condescendentes, tudo com somente o propósito de vos magoar fisicamente e emocionalmente ao ponto de traumatizar-vos para toda a vida… seriam gentis com tal pessoa? A abordagem ao arco de Sara parece assustadoramente fundamentada e realista, mas o enredo “romântico” entre a mesma e o homem é mais distrativo do que interessante, afetando o equilíbrio geral da narrativa durante alguns momentos. Obviamente, a auto-aceitação também é um tema significativo ao longo do filme, mas surpreendentemente fica em segundo plano nesta história.

A atmosfera em volta de “PIGGY” podia ter sido mais envolvente. Tecnicamente, a cinematografia possui pontos claros de melhoria que poderiam ter oferecido ao filme um ambiente mais cativante em vez de simplesmente parecer uma novela quando está longe de o ser. Além disso, Pereda opta por não usar muito diálogo, o que não prejudica particularmente o filme, mas fica a sensação clara de que algumas falas poderosas, bem redigidas e importantes sobre os assuntos principais teriam transmitido uma mensagem ainda mais impactante. Apesar destes problemas menores, Laura Galán entrega uma prestação tão inesquecível, crua, corajosa e dedicada que faz muitos atores de Hollywood parecerem amadores.

Sundance 2022 | PIGGY, em análise
Sundance Film Festival

Movie title: PIGGY

Movie description: With the summer sun beating down on her rural Spanish town, Sara (Laura Galán) hides away in her parent’s butcher shop. A teenager whose excess weight makes her the target of incessant bullying, she flees a clique of capricious girls who torment her at the town pool, only to stumble upon them being brutally kidnapped by a stranger, who drives off with them in his van. When the police begin asking questions, Sara keeps quiet. Intrigued by the stranger - an interest that’s mutual - she’s torn between revealing the truth and protecting the man who saved her.

Date published: 25 de January de 2022

Country: Espanha

Duration: 90'

Director(s): Carlota Pereda

Actor(s): Laura Galán

Genre: Drama, Horror

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  • Manuel São Bento - 75
75

CONCLUSÃO

“PIGGY” é o tipo de obra acertado para ser um dos últimos filmes num evento como o Sundance Film Festival. Carlota Pereda aproveita a excelente prestação de Laura Galán e apresenta uma história chocante, violenta e assustadoramente próxima de muito realismo sobre bullying, fat-shaming e auto-aceitação. Apesar de adotar uma abordagem mais vingativa, a cineasta desenvolve lindamente os conceitos morais em questão. No entanto, o enredo “romântico” não funciona e o filme teria beneficiado de uma atmosfera mais forte. Além disso, um par de diálogos impactantes em torno dos temas principais teriam melhorado drasticamente a obra geral. Ainda assim, é uma recomendação sem dúvidas.

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Manuel São Bento

Um jovem engenheiro de 28 anos com uma paixão tremenda por cinema, televisão e a arte de filmmaking. Opiniões baseadas numa perspetiva imparcial de quem não vê trailers desde 2016. Membro de associações de críticos internacionais como GFCA, IFSC e OFTA. Aprovado no Banana Meter. Redes sociais através de @msbreviews.

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