"Supernova" | © NOS Audiovisuais

Supernova, em análise

Colin Firth e Stanley Tucci protagonizam “Supernova”, um delicado drama LGBT+ sobre um casal inglês a defrontar-se com a dor da demência precoce.

O tempo é o maior tesouro do mundo, mas é também impossível de conter, de deter ou preservar. Chegará a todos uma altura, em que não há mais tempo a desfrutar. Lidar com a verdade incontestável da mortalidade humana está no cerne de alguns dos maiores textos dramáticos de todos os tempos, desde a Antiguidade Clássica até aos dias de hoje. No panorama específico do cinema europeu, tem havido uma recente tendência para tecer contos de dolorosa autorreflexão centrados em casais envelhecidos, uniões postas à prova pelo flagelo que é o corpo que se degrada, da mente que dá de si, do coração assombrado pelos ressentimentos de uma longa vida.

“Amor”, “Radiador” e “45 Anos” são alguns dos exemplos. A eles se junta “Supernova”, a segunda longa-metragem assinada pelo ator tornado realizador Harry Macqueen. O filme foca-se nas férias de autocaravana de Sam e Tusker, um casal gay cuja união nos parece forte e antiga, quiçá deteriorada pela angústia da sua presente situação. Pouco a pouco, através de detalhes incidentais, o argumento de Macqueen vai-nos revelando os paradigmas do drama. Acontece que Tusker está a começar a sofrer dos primeiros sintomas de demência e, apesar de a enfermidade estar presentemente controlada, o prognóstico não é muito esperançoso.

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Sobre os dois homens vive uma sombra tenebrosa, a ideia de que esta poderá ser a sua última viagem antes de Tusker já nem sequer reconhecer quem Sam é. Durante a o breve período dramatizado em “Supernova”, a doença ainda não se desenvolveu tanto assim, mas já há lapsos preocupantes. Se o homem cuja mente se deteriora parece determinado a desfrutar destes últimos tempos de lucidez, o seu esposo não consegue abstrair-se do fado penoso para qual os dois caminham. Quando o fim está tão próximo que conseguimos vê-lo no limiar do horizonte, torna-se difícil não deixar o medo consumir a alma, manchando os momentos que antecedem a conclusão.

Se a exposição do argumento é-nos dada em pequenas doses, ponderadamente e com gentilidade, os conceitos basilares da simbologia são quase gritados. “Supernova” é um filme que adora criar ligações possantes entre a história humana de Sam e Tusker e o cosmos, daí seu título. Além do mais, Tusker é um escritor e Sam um pianista reformado cuja carreira pode estar prestes a renascer devido à insistência do marido. O papel da arte na articulação da vida acaba por vir à conversa e é impossível ignorar quanto a natureza de Tusker enquanto contador de histórias afeta o modo como o seu diálogo raciocina a tempestade interior do espírito.

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Não é que o texto não seja poderoso, mas é um pouco óbvio nas suas observações. Quando há tantos filmes com objetivos semelhantes, recair sobre lugares-comuns torna-se especialmente penalizante. Ainda por cima, a componente formalista do filme é extramente displicente, ou até dececionante. A fotografia é eficaz na sua evocação de imagens sepulcrais, tableaux pintados por luz fria e paisagens serenas. É um bonito postal, mas confere pouco interesse visual à fita e os interiores são uniformemente mal iluminados. Contudo, é a montagem que mais detrai da qualidade do projeto, seus ritmos letárgicos um constante dreno de energia e fulgor. Para um retrato da paixão a saborear seu período outonal, todo o exercício padece de urgência.

Um argumento rico em sentimento complexo e execução pueril, uma forma bela, mas medíocre, são ingredientes para a geral fragilidade de “Supernova”. Felizmente, há um elemento que consegue elevar o filme acima da pachorrenta apatia. Referimo-nos aos atores, que usam todo o candor sussurrado da história para tecer caracterizações definidas por tudo aquilo que não dizem, pelos silêncios perdidos entre chavões simbólicos. Só é pena que até os atores sejam vítimas da frieza desafetada da direção, vivendo uma relação unicamente despida de desejo. Qualquer valor que exista no contar desta história através de uma perspetiva queer, é meio perdido pelo vigor com que “Supernova” dessexualiza os protagonistas.

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Enfim, deixemo-nos de negativismos. Stanley Tucci como Tusker e Colin Firth como Sam fazem um trabalho admirável, traçando retratos complexos, sinfonias apelativas apesar das poucas notas que o argumento os deixa tocar. Tucci tem o papel mais vistoso, mas jamais se deixa levar pelo dramatismo inerente à personagem demente. Há uma sombra de desespero na sua casualidade jovial, a necessidade suada de sentir a vida antes que o tempo a leve consigo. Firth trabalha num registo mais preso a reações engolidas a seco, pequenos apontamentos de preocupação, toques de devoção, que nos esboçam os anos que Sam e Tusker passaram juntos, muito além da moldura limitada da narrativa. Nas suas interações dolorosas, “Supernova” constrói um precioso sentido de intimidade matrimonial. Os atores são a principal razão para se ver o filme.

Supernova, em análise
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Movie title: Supernova

Date published: 21 de June de 2021

Director(s): Harry Macqueen

Actor(s): Stanley Tucci, Colin Firth, Pippa Haywood, Peter MacQueen, Nina Marlin, Ian Drysdale, Sarah Woodward, James Dreyfus, Julie Hannan

Genre: Drama, Romance, 2020, 93 min

  • Cláudio Alves - 45
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CONCLUSÃO:

Interpretado com elegância pelo elenco de veteranos do cinema, “Supernova” é um esforço nobre, mas superficial. O realizador Harry Mcqueen tem boas ideias, mas problemas de ritmo e diálogos demasiado comuns descarrilam os seus melhores esforços.

O MELHOR: Tucci e Firth, especialmente nas cenas mais íntimas e emocionais, quando a membrana apática que cobre a história se desvanece.

O PIOR: O ritmo letárgico que é obtido pelo argumento repetitivo e uma montagem que está sempre a voltar às mesmas estratégias, uma e outra vez, sem variação ou sentido de urgência. Para um filme sobre pessoas a lidar com o pouco tempo que ainda têm para viver como um casal funcional, “Supernova” desperdiça muitos dos seus 93 minutos com desesperante indiferença.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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