Tão Só o Fim do Mundo, em análise

Tão Só o Fim do Mundo é a obra mais controversa na carreira de Xavier Dolan, mas será que este drama familiar merece toda o vitriole e polémica que tem gerado?

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Depois de ter recebido as piores críticas da sua carreira, aquando da estreia do seu mais recente filme Tão Só o Fim do Mundo em Cannes, Xavier Dolan decidiu atacar os mesmos críticos que, em tempos, foram responsáveis pelo estatuto de wunderkind do cinema canadiano e lhe concederam a importância global que ele agora desfruta. O cineasta chegou mesmo a dizer que estava a pensar em desistir da sua carreira quando, por entre muitas lágrimas e um discurso interminável, surpreendeu a crítica ao ganhar o Grand Prix do Júri de Cannes, assim como o galardão do Júri Ecuménico. De jovem prodígio a enfant terrible e finalmente vítima vingada, a imagem pública deste realizador raramente sofreu tantas reviravoltas radicais em tão curto espaço de tempo. Tudo isso tem vindo a acompanhar o filme que despoletou toda esta montanha-russa mas, no meio de tudo isto, emerge uma clara pergunta. Será que Tão Só o Fim do Mundo foi merecedor de todo o vitriole que recebeu em Cannes?

Uma coisa é certa, apesar de todo o cinema de Dolan ser marcado por uma relativa sensação de imaturidade estilística, este é certamente o projeto em que essa faceta mais se evidenciou como uma fragilidade. Se, em Mamã, Dolan havia finalmente tomado controlo dos seus impulsos estilísticos e os havia empregado com formidável precisão, em Tão Só o Fim do Mundo esse mesmo domínio escapou-lhe por entre os dedos como um farrapo de fumo. Talvez por estar a adaptar um texto pré-existente do dramaturgo Jean-Luc Lagarce, para o qual a obra tinha uma carga fortemente autobiográfica, o cineasta tentou depurar alguns dos seus mais excessivos mecanismos estilísticos e produzir uma experiência mais contida. No entanto, tal contenção apenas acabou por limitar a paleta de Dolan de modo catastrófico e a sua habitual imaturidade continuou a mostrar a sua inflexível presença, especialmente no que diz respeito à histérica direção de atores.

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Antes de nos adiantarmos em análises formais, convém falar um pouco da história desta obra. O filme abre num avião, onde conhecemos Louis, um dramaturgo francês que há mais de uma década não vê a sua família por escolha própria. Em voz-off descobrimos que ele está a morrer – na peça original ele é seropositivo – e que, por isso, decidiu voltar a casa para informar a família e, talvez, usar esta tragédia para se apresentar como um mártir a seus olhos e não como o traidor que os abandonou. Os seus planos rapidamente caem por terra quando chega a casa e é confrontado com a tempestade de histeria e ressentimentos partilhada por todos os seus familiares. Susanne, sua irmã mais nova, está desejosa de conhecer o irmão que quase não viu durante o seu crescimento, enquanto Antoine, irmão mais velho de Louis, é uma bola de raiva pronta a explodir a qualquer momento e com a mínima provocação. Pela sua parte, Catherine, a esposa de Antoine, parece ser a mais percetiva do grupo mas a sua atitude tímida não lhe permite ser tão cortante na confrontação com Louis como a mãe deste, cujo apelo por compaixão para com a sua família é entrecortada por uma amarga certeza que está a falar para ouvidos moucos.

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Escusado será dizer que, por muito que se fale, grite e chore, Louis vai sempre perdendo a oportunidade de revelar o seu grande segredo e, pela sua parte, Dolan não parece estar interessado em tais jogos de suspense pueris. Na verdade, a grande contribuição estilística de Dolan é a criação de uma atmosfera opressiva e claustrofóbica. O seu estilo típico, cheio de música melancólica mesclada com hits da pop, cores saturadas, iluminação dramática, ritmos inspirados em videoclips e uso constante de grandes planos, sugere um fruto em tempos suculento que, neste particular filme, apodreceu e se tornou demasiado maduro e açucarado para consumo. Presos nos closeups insistentes e invariáveis da belíssima fotografia de André Turpin e embalados pelas sinfonias melosas de Gabriel Yared, os espetadores de Tão Só o Fim do Mundo são mergulhados numa experiência sensorial de confusão e desconforto, como que numa inteligente, mas insuportável, mimese do estado mental do protagonista.

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Esta abordagem, que sacrifica o maravilhoso uso de planos gerais que Dolan havia começado a desenvolver em Laurence Para Sempre, tem os seus benefícios. Um deles vem da simples maneira como o uso dos closeups ajuda a descontextualizar e distanciar as pessoas umas das outras, o que faz sentido dramatúrgico. Apesar disso, é nos momentos em que não existe nenhuma interação humana ou diálogo que o filme realmente brilha, ou seja, nas passagens puramente audiovisuais. Em cenas como uma viagem de automóvel ao som de “Home is where it hurts” – uma escolha diabolicamente descarada – ou as lembranças de um primeiro amor carregadas de poderoso erotismo adolescente, este jovem cineasta cria rasgos de rarefeito êxtase cinematográfico que, não obstante a sua qualidade, não são o suficiente para redimir a totalidade de Tão Só o Fim do Mundo.

De longe, a mais significativa fragilidade do filme é a incapacidade de Dolan adaptar o texto da sua matriz teatral para o grande ecrã. Fora do artifício inerente ao espaço de apresentação teatral, o texto de Lagarce tende a desmanchar-se em imensos blocos de texto que, ao invés de diluir ou modular, Dolan apresenta em toda a sua gigantesca verbosidade. Como tal, o meio do filme é estruturado à volta de quatro conversas, quase monólogos, em que Louis é confrontado por cada um dos membros da família, até que chegamos a uma final explosão de histeria aquando da partida abrupta do filho pródigo. Perdidos entre o realismo histérico implícito pela câmara invasiva de Dolan e o texto que pede uma distanciação articulada e crítica do material, o elenco faz o seu melhor mas mesmo esta luminosa coleção de atores franceses tem os seus problemas, a começar pelo modo como nenhum deles parece estar a coexistir no mesmo registo.

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Como Susanne, Léa Seydoux é mais desamparada e o seu longo monólogo é aquele que mais transpira do esforço de uma atriz que não sabe transpor o discurso teatral para um novo contexto. Nathalie Baye, como a matriarca, mostra-se mais à vontade, mas o seu retrato apenas consegue mostrar alguma complexidade quando o texto lha oferece de bandeja e não a reduz a uma caricatura periférica. Apesar da sua unidimensionalidade, Vincent Cassel traz a Antoine uma energia eletrizante e imprevisível que, pode não insinuar grande nuance mas sempre consegue telegrafar a genuína dor que Louis traz a toda a sua família. Os melhores atores deste quinteto são, sem dúvida, Marion Cotillard como Catherine e Gaspard Ulliel no papel principal. Nas mãos da atriz, a subjugada cunhada de Louis é uma figura de superficial insegurança, capaz de sombrear as suas perguntas e afirmações com uma multiplicidade de significados que assombram o espetador. Pela sua parte, Ulliel é capaz de pintar Louis como a figura trágica e egoísta que ele é, sem lhe limar as arestas ou o vilificar em demasia. Oxalá, Dolan tivesse mostrado tanta sagacidade interpretativa como o seu ator.

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No final, é precisamente a barreira que se erige entre o cineasta e o seu texto que tornam Tão Só o Fim do Mundo na pior obra de Dolan. Longe de tentar entender o contexto histórico e pessoal da peça original, o canadiano tentou subjugar o material textual ao seu jogo estilístico sem considerar o modo como isso acabou por esvaziar suas personagens e dinâmicas familiares de necessária complexidade. O resultado consequente de tudo isto é uma obra que vibra de histeria mas que, para além da superfície vistosa, é emocional e concetualmente oca. Ainda se vislumbra aqui o génio do realizador que nos maravilhou com Matei a Minha Mãe, Laurence para Sempre e Mamã, mas, para a próxima, talvez seja melhor que Dolan se limite a criações originais e não volte a tentar apropriar-se de um trabalho que está fora dos limites da sua linguagem cinematográfica.

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O MELHOR: As inebriantes sequências de memórias, cuja tatilidade abstrata é do mais belo que Dolan alguma vez conjurou enquanto cineasta.

O PIOR: Os monólogos individuais e sua cansativa estruturação repetitiva, cíclica e cliché.



Título Original:
 Juste la fin du monde
Realizador: Xavier Dolan
Elenco:
 
Gaspard Ulliel, Nathalie Baye, Léa Seydoux, Vincent Cassel, Marion Cotillard
Alambique | Drama | 2016 | 97 min

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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One thought on “Tão Só o Fim do Mundo, em análise

  • É repetido várias vezes “Histeria” esse digamos é o diagnóstico redutor, dado ao António. Gostaria de saber realmente o problema psicológico dele? É Um Psicótico? é um neurótico, porque reage a qualquer palavra dita, mesmo não provocadora, com agressividade exacerbada.

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