10ª Festa do Cinema Italiano | I tempi felici verranno presto, em análise

I tempi felici verranno presto traz uma inebriante sensualidade formalista á secção Altre Visioni da 10ª Festa do Cinema Italiano.

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Muito se fala de híbridos entre documentário e ficção no panorama da crítica de cinema. Usualmente, tais descrições são feitas no contexto de admiração pelo engenho e criatividade de um particular cineasta que supostamente estará a ser incrivelmente inovador com tal fusão de abordagens. Mas a verdade efetiva é que o documentário e a ficção quase sempre se mesclaram numa relação incestuosa e que a diferenciação restrita dos dois termos apenas começou a existir quando se delineou o conceito de documentário. Filmes como o célebre Nanook, o Esquimó (1922) de Robert J. Flaherty ou Häxan (1922) de Benjamin Christensen já são em si híbridos que, ao documentar factos, também encontram espaço para a dramatização da realidade em função de um interesse narrativo. Visto desse ponto de vista, talvez a conversa sobre a fusão de documentário e ficção como uma novidade seja um pouco errónea e enganosa. Na verdade, poderíamos caracterizar a proliferação destas experiências como um retorno a uma liberdade cinematográfica passada ou poderíamos mesmo dizer que tais distinções se começam a provar um pouco fúteis, imprecisas e desnecessárias.

Colocamos aqui estas questões sobre a distinção e coexistência da ficção e do documentário em cinema, pois I tempi felici verranno presto foi principalmente divulgado e promovido como a estreia do realizador Alessandro Comodin, depois do sucesso do documentário L’estate di Giacomo. Para sermos francos, tais categorizações, no caso da breve carreira de Comodin, são incomensuravelmente estúpidas. L’estate di Giacomo já tinha perfurado a membrana concetual que separa a ficção do documentário sem qualquer preocupação e, se possível, este novo filme ainda faz isso com mais obstinação. Na sua forma final, I tempi felici verranno presto é algo mais próximo do cinema abstrato inspirado em noções de folclore e no ato dissecado de contar histórias.

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De facto, o início do filme pouco ou nada tem de narrativo, mas também está longe de ser um documentário. Nesta primeira parte de I tempi felici verranno presto observamos dois homens a fugir de algo ou de algum lado. Seus corpos em movimento contínuo dentro de planos longos e vagarosos que capturam a luz azulada de uma densa floresta mergulhada na escuridão da noite. Mesmo depois de a noite ser rompida pelos raios de sol matinais, continuamos a nossa observação do par, testemunhamos seus ritmos conjuntos, a sensualidade dos seus corpos jovens e rubros de potencial erótico que se torna evidente quando os dois se tocam, quando se despem, quando se olham. As suas roupas sugerem o passado, mas a paisagem rouba-nos de outras referências que nenhum diálogo está disposto a oferecer, perdendo-se assim os dois homens num espaço indefinido, fora do tempo e da história, fora da humanidade como num sonho paradisíaco na sua inebriante beleza.

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Mas então ocorre um rasgo de violência, tiros, a morte e um enterro rude que dilacera qualquer tipo de sugestão narrativa que pudesse estar a emergir do simples ato de observar dois corpos em movimento na floresta. Dado por encerrado esse capítulo da sua obra, Comodin passa para um registo declarativamente documental e contemporâneo em que vários aldeões falam de uma história do folclore local. Trata-se do conto de um lobo que amava uma corça branca mas que, no final, acabou por sucumbir à sua natureza e a matou. Já uma audiência cinéfila está a sonhar com a voz de Jeanne Moreau a cantar “Each man kills the thing he loves” para Fassbinder, quando Comodin volta a mudar o registo e o foco da sua obra.

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Depois de um poema lírico sobre a observação de dois corpos em fuga e de uma investigação jornalística sobre mitologias da província, I tempi felici verranno presto mostra-nos uma jovem que vai para a floresta. Lá, ela passa por um buraco escuro e a sua passagem parece demarcar uma entrada num novo patamar da narrativa e da realidade representada pois, no meio dessa catedral de vegetação, ela encontra um dos jovens que vimos morrer no início do filme. Ou, pelo menos, vemos o mesmo ator, pois a disposição da sua figura é completamente diferente da gentileza soturna do fugitivo anterior. Agora, ele é quase feral, como o lobo do conto a confrontar a sua corça amada, aqui personificada pela nossa nova protagonista.

Nesta secção, o edifico fílmico desdobra-se em momentos de puro prazer sensorial, mostrando-nos imagens de uma beleza estonteante, tanto pelo seu sujeito como pela sua execução formal. O diretor de fotografia Tristan Bordmann filma a floresta no formato 4:3 e em película de 35mm cujas cores foram intencionalmente levadas a níveis inaturais de contraste. O verde das folhas quase parece arder e a humidade densa no ar torna a atmosfera numa névoa azul. Os corpos humanos, muitas vezes despidos, tornam-se em píncaros de luz refletida na sua pele quente, e as sombras que definem os seus volumes não são bem negras, mas vermelhas, rubras de vitalidade. A sonoplastia, e o ocasional uso de estranhíssimas e incoerentes passagens musicais apenas salientam a qualidade hipnotizante da experiência, na mesma forma que a montagem se recusa a dar forma à sedutora amorfia temporal da sua observação.

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Como um projeto singularmente focado em questões estéticas e formais, I tempi felici verranno presto é assim um triunfo jubilante. Infelizmente, o seu realizador parece ter ambições que transcendem o formalismo e é aí que o movimento triunfal do filme embate com um obstáculo imobilizável. Falamos da incoerência que trespassa todo o projeto e que poderá bem ser uma escolha deliberada do cineasta mas que, no final, apenas torna a obra numa espécie de tese mal estruturada cujo seu único argumento é a sua própria falta de ideias coesas. Talvez Comodin estivesse a tentar testar os limites do ato de contar uma história usando um modelo tradicional e subvertendo-o à indefinição deliberada.

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No entanto, se tal era o propósito, qual a razão do prólogo na prisão? Mais urgente ainda, qual á a justificação da descarada referência ao Pickpocket de Robert Bresson? Despida de um contexto mínimo, o momento é apenas uma cópia vácua, um piscar de olho que trai a ambivalência abstrata do resto do filme e parece invalidar a sua proposta concetual. Sejamos claros, I tempi felici verranno presto é um filme belo e portador de uma admirável efemeridade onírica, mas é também uma obra frustrante, tanto pelos seus ritmos soporíferos como pela sua base concetual mal definida ou expressa. Alessandro Comodin está longe de ser um mau realizador, mas talvez o seu estilo estivesse mais confortável dentro dos limites herméticos de uma curta-metragem. Uma coisa é certa, o seu segundo filme, que não é documentário, ficção ou mesmo cinema abstrato, tem momentos puramente geniais, mas ainda não é nenhuma obra-prima.

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O MELHOR: A deslumbrante fotografia de Tristan Bordmann.

O PIOR: O modo como o filme, apesar dos seus muitos elementos de valor, parece tão perniciosamente incompleto.



Título Original:
I tempi felici verranno presto
Realizador:
Alessandro Comodin
Elenco:
Sabrina Seyvecou, Erikas Sizonovas, Luca Bernardi,  Marco Giordana
Drama, Documentário | 2016 | 102 min

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