Tesouro, em análise

Corneliu Porumboiu escava por entre o passado da Roménia em busca de algo de valor em Tesouro, a sua mais recente comédia de absurdos e inanidades burocráticas.

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É perigosamente fácil para uma pessoa do presente ignorar o modo como a sua vida, existência e pensamento são condicionados e influenciados pela História do passado. Basta passearmos pelos corredores de qualquer escola para ouvirmos petulantes adolescentes queixarem-se da inutilidade de aprenderem História, mas, felizmente, algumas pessoas parecem perceber a importância de tal estudo e também a importância de se tentar compreender os modos precisos como o peso dessa dita História se manifesta nas nossas vidas contemporâneas. Se há um cinema nacional na Europa que se dedica a tais pesquisas, então será certamente o Novo Cinema Romeno, cuja obra tende a primar por um realismo pintado em toques de sátira, miserabilismo e absurdo que germinam como ervas daninhas das cicatrizes deixadas pelo atribulado da nação ex-comunista. Afinal, não seria muito erróneo dizer que todos os caminhos do cinema romeno vão dar à ditadura de Ceaușescu.

Em Tesouro, o mais recente filme de Corneliu Porumboiu , essa lembrança da ditadura não é uma presença singular, sendo que toda a História romena do século XX parece ser um fantasma a atormentar as figuras humanas da narrativa. Neste projeto, que começou como um documentário antes de se tornar numa comédia tão seca como o Sahara, a comunhão entre o presente e o passado ganha uma materialidade que transcende a mera metáfora ou subtexto. Dizemos isto pois, na sua mais depurada natureza, esta é uma história sobre três homens que passam um dia a escavar o quintal de uma antiga casa, vítima de inúmeras mudanças e reviravoltas ao longo da recente História romena, em busca de um tesouro que, segundo rumor, estará algures enterrado na propriedade. Ou seja, os homens da Roménia atual, que lutam diariamente com a miséria da crise económica pós-2008, desesperadamente escavam o solo da Roménia, em busca de algo de valor por entre a confusão de miséria que lhes foi deixada pelos seus antepassados.

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Atentem que, apesar de toda esta sóbria descrição, estamos perante uma comédia. Sim, o humor é, como já dissemos, caracterizado por uma imensa secura, mas Tesouro segue a honrosa tradição da Europa de Leste em que a comédia nasce da miséria e onde não há nada mais engraçado que as inconveniências e absurdos da existência banal. Por conseguinte, esta narrativa começa como um drama de puro e duro realismo social, em que vamos acompanhando Costi, um homem que está a ter graves dificuldades em sustentar a sua família quando, um dia, lhe aparece um dos seus vizinhos, Adrian, a pedir 800 euros emprestados. Inicialmente, o protagonista recusa, mas Adrian rapidamente reformula o seu pedido numa proposta de colaboração.

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Segundo histórias antigas que têm passado de geração em geração, há uma propriedade rural da família de Adrian onde estará enterrado um tesouro. Ao longo das décadas, o sítio tem sido apropriado por vários governos e regimes, tendo sido uma escola, uma casa, um clube noturno e muito mais antes de acabar como uma ruína esquecida e deixada ao abandono. Para se encontrar as hipotéticas riquezas, é necessário contratar-se a ajuda de um profissional com um detetor de metais e, se Costi o ajudar, eles os dois dividirão o lucro a meias. Com o cheiro de ouro nas narinas e seus sonhos, Costi lá consegue arranjar a soma, depois de uma insólita confrontação com o seu patrão que julga que ele está a ter um caso extramatrimonial, e o filme depressa passa de um retrato da mesquinhez e corrupção burocrática na Roménia atual para se converter numa absurda comédia sisífia em que vemos três homens mal-humorados a comportarem-se como crianças e a escavar um triste quintal.

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Fotografado por Tudor Mircea como auxílio de câmaras digitais, este interlúdio de tédio e rabugice masculina acaba por se tornar na mais bela passagem na filmografia de Corneliu Porumboiu, pelo menos em termos exclusivamente estéticos.  Na manhã, o quintal é um tableau de neblina fria que sugere uma história do folclore, ao entardecer, a câmara move-se na horizontal e o sol baixo pinta a paisagem com tons de dourado que remetem para o tão desejado tesouro. À noite, quando apenas existe uma singela lanterna, a imagem ganha a carga dramática de um noir e a paranoia começa rapidamente a crescer. Tudo isto remete para as histórias de Robin dos Bosques com que Costi entretém o seu precoce e inocente filho, só que, nesta história, é o próprio patriarca o protagonista da aventura.

Uma aventura que, verdade seja dita, dificilmente seria mais distante das emocionantes peripécias do ladrão que roubava aos ricos para dar aos pobres na Inglaterra Medieval. De facto, a paranoia sugerida pela fotografia de chiaroscuro profundo nas cenas de escavação noturna, acaba por se provar justificada quando a polícia aparece aos nossos insuspeitos caça-tesouros. Sem revelar muito sobre os desenvolvimentos mais tardios do enredo, basta dizer que Porumboiu podia autodenominar-se como o Kafka comediante do cinema romeno, conseguindo tecer uma tapeçaria de absurdos jurídicos e institucionais que satirizam os esquemas de poder e autoridade de forma tão mordaz como hilariante. Nunca as minúcias do processamento de património nacional foram retratadas de forma tão detalhada ou frustrante, originando uma apoplexia de indignação risória pela parte da audiência.

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Para tudo isto funcionar, é necessário que, para além de um espetacular guião e de um eficaz trabalho fotográfico, o filme tenha um elenco capaz de domar as dinâmicas tonais requeridas pala insólita narrativa. Felizmente, Tesouro, como a maioria das grandes obras romenas, tem um formidável elenco de atores e não-atores capaz de encontrar as nuances cómicas no mais puro e duro dos registos minimalistas e realistas. No papel de Costi, Toma Cuzin é merecedor de particular lisonja. Com um corpo de imponente masculinidade coberto por camadas e camadas de camisolas de lã e casacos desenxabidos, Cuzin tem a constante presença de uma figura de ação presa a um sufocante estado de inércia que o reduz a uma bola de contida frustração e banal conformismo à injustiça da autoridade institucional.

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Graças a esse preciso trabalho de Cuzin, as derradeiras decisões de Costi não nos parecem um acesso de loucura, mas sim uma orgânica resolução da sua história que é sempre sombreada pela palpável afeição e admiração que ele tem pelo seu filho. Depois de tanta dissecação miserabilista do seu país, Porumboiu parece estar finalmente disposto a ver algum valor e beleza na capacidade humana para o bem e para a generosidade, permitindo que esta sinfonia tragicómica termine numa nota de esperança. Talvez o passado traumático seja finalmente deixado para trás e a geração futura possa encontrar uma vida melhor, mesmo que tenha de a construir sobre os escombros de um país que nada deu aos seus pais a não ser miséria, injustiça, ditadura, pobreza e insana inanidade burocrática.

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O MELHOR: O guião e seu característico humor seco à moda típica do Novo Cinema Romeno. Quando um ladrão é chamado pela polícia para arrombar um cofre é particularmente difícil conter os risos e a admiração pela sagacidade satírica de Porumboiu.

O PIOR: Apesar de ser um excelente filme, comparado com outras obras na filmografia do seu realizador, Tesouro tem a infeliz tendência de parecer uma obra relativamente menor. Isto é especialmente verdade quando o pomos lado a lado com uma obra-prima como A Este de Bucareste.


 

Título Original: Comoara
Realizador: Corneliu Porumboiu
Elenco:
 
Toma Cuzin, Adrian Purcarescu, Corneliu Cozmei, Radu Banzaru
Leopardo Filmes | Comédia, Drama | 2015 | 89 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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