Anton Yelchin protagoniza Green Room, um novo filme de terror assinado por Jeremy Saulnier, em que uma banda punk é caçada por neonazis e skinheads enfurecidos.

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Green Room, a terceira longa-metragem assinada por Jeremy Saulnier depois de Blue Ruin e Murder Party, é uma explosão de sanguinário niilismo sob a forma de um sufocante thriller de terror a transbordar de referências narrativas, estéticas e mecânicas a filmes de série B dos anos 70 e 80 que conta ainda com uma generosa quantidade de referências punk, tanto a nível musical como filosófico, que remetem para esse elusivo animal que é o filme punk. No entanto, pouco isso irá importar para grande parte da audiência pois, acima de tudo, aquando da sua estreia em salas nacionais, Green Room é um dos vários filmes protagonizados por Anton Yelchin a serem distribuídos a seguir à sua horripilante morte acidental. É uma injustiça para com o trabalho dos restantes cineastas e criativos, reduzir este filme somente a um artefacto elegíaco ao seu ator principal, pelo que tentemos já despachar a análise do trabalho e presença do jovem americano de origem russa.

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Tal como era seu método de eleição, Yelchin está aqui a interpretar um jovem com leves traços de ineptidão social e uma personalidade cabisbaixa e servil com tendência a se desdobrar em neuróticas passagens de diarreia verbal cheia de nervosismo contagiante. Ou seja, mais uma vez, Yelchin está a interpretar alguém que é, basicamente, uma versão modulada da sua persona, mas aqui há uma boa quantidade de fisicalidade visceral a sombrear toda a caracterização. E, neste papel, pouco mais é necessário, sendo que nunca antes o ator mostrou tal domínio sobre a sua postura e movimento, criando um retrato desconcertante de um ser humano sujeito a inimagináveis quantidades de dor e stress e que tem de arranjar maneira de contrariar a degradação do seu corpo aleijado para sobreviver.

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Esse foco na lancinante maneira como o ator retrata a dor física da sua personagem deve-se, não só ao virtuosismo técnico do ator, mas também ao facto de que, tirando a sua posição na estrutura do filme como carne para matança e corpos capazes de mostrar sofrimento, os “heróis” do filme possuem pouco a que se chame de caráter ou personalidade. Yelchin é Pat, o baixista de uma banda punk chamada Ain’t Right que, quando os conhecemos, se encontram a travessar o interior dos EUA à procura de audiências e espaços para atuar. Como rapidamente vemos, a sua procura tem sido relativamente infrutífera e a sua situação económica está tão precária que a banda não demora muito a aceitar tocar num bar numa localização remoto e cuja clientela é maioritariamente composta por skinheads e violentos neonazis.

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Até à entrada dos Ain’t Right no bar que se tornará a sua prisão durante o resto do filme, Green Room tinha-se estado a mostrar como um sucessor orgânico de Blue Ruin do mesmo realizador. Também aqui, Saulnier filma as estradas dos EUA com um olho capaz de encontrar beleza lírica na miséria árida e as cores verdejantes e amareladas da paisagem são tão visualmente agradáveis como agoirentas de algo doentio que se encontra no horizonte para as personagens. Esse “algo” é o já referido bar, uma monstruosidade de escuridão peganhenta, corredores sinuosos e limitados por paredes de repugnantes texturas, luzes débeis e cirrosas e um ambiente sonoro que marca o ponto médio entre um inferno de amorfia sónica e uma omnipresente sinfonia de violentos gritos.

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Acima de tudo, Saulnier é um realizador formalista e aqui os seus talentos estão novamente em destaque, especialmente quando, depois de uma performance surpreendentemente bem-sucedida, os Ain’t Right se veem sequestrados no green room titular depois de Pat testemunhar a morte de uma rapariga que os patronos do estabelecimento estão perfeitamente dispostos a encobrir. Culpados do pecado de terem visto mais do que deviam, os jovens músicos e a misteriosa amiga da assassinada tornam-se nos ratos num jogo de caça em que as forças organizadas dos skinheads e nazis se tornam no feroz felino pronto a trucidar a sua vítima. Com uma porta robusta a separá-los da urbe de potenciais assassinos, os nossos “heróis” vão tentar sobreviver através de uma série de repetitivas sequências em que diferentes agressores os tentam ceifar.

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Não revelaremos mais do enredo, mas é necessário esclarecer que, como um thriller, Green Room é uma maravilha mecânica, onde cada cena funciona como mais uma roldana num mecanismo de crescente tensão, que se vai tornando cada vez mais sufocante e insuportável. A atenuação deste esquema de suspense vem na forma de píncaros de carnificina executados com todo o macabro brio que Saulnier consegue conjurar com efeitos de maquilhagem práticos e uma coleção de efeitos sonoros capazes de testar os estômagos das mais estoicas audiências. Pelo menos é assim até ao último ato da história, onde o filme descarrila e perde o gás que o tinha, até então, propulsionado energeticamente.

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A fragilizar ainda mais o projeto está a já referida falta de complexidade humana. Os “heróis” não são capazes de suscitar grande investimento emocional e os vilões parecem uma pueril tentativa de Saulnier realizar um comentário social e político sem nenhuma nuance. Se há alguma complexidade humana em tudo isto, deve-se exclusivamente ao trabalho do elenco que, para além de Yelchin, conta com excelentes prestações de Imogen Poots, Alia Shawkat, Macon Blair e Patrick Stewart, Este último nome é de particular destaque, com Stewart a revelar um lado venenoso e cruel que raramente pode expor no seu trabalho no pequeno e grande ecrã. Ele é o chefe dos agressores e a sua postura, longe de ser a de um mestre do crime de bigode torcido e sorriso malicioso, é um velhote cansado e mal-humorado que apenas quer ver se resolve o imbróglio em que os seus subalternos o colocaram.

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Esta falta de elemento humano é justificável quando pensamos no filme como uma obra de cinema niilista, mas, ao mesmo tempo, há o problema de que a história escolhida por Saulnier para este espetáculo de misantropia violenta, depende de um investimento no futuro e segurança de um grupo de pessoas face a uma ameaça. Para além do mais, o estilo primoroso e relativamente polido de Saulnier é um péssimo veículo para qualquer ideologia punk que pede um maior desrespeito por regras cinemáticas e uma abordagem mais grosseira e primitiva. No final, Green Room é uma obra de admirável virtuosismo técnico que, infelizmente, vale mais pelos seus elementos individuais, como Yelchin e a execução técnica, do que pela sua cansativa totalidade.

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O MELHOR: A violência cacofónica da sonoplastia.

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O PIOR: O guião é uma coleção de más decisões atrás de más decisões, mas o seu maior crime é certamente um risível momento final de carinho animal que nunca se evidencia bem como uma fracassada tentativa de mostrar algum rasgo de esperança para a raça humana ou uma piada de mau gosto a contrariar isso mesmo.


 

Título Original: Green Room
Realizador: Jeremy Saulnier
Elenco:
 
Anton Yelchin, Patrick Stewart, Imogen Poots, Alia Shawkat
Films4You | Terror, Thriller, Música, Drama, Crime | 2015 | 95 min

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One thought on “Green Room, em análise

  • Green Room: 1*

    É demasiado confuso e desinteressante, fujam dele a sete pés.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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