Os melhores guarda-roupas da TV | 2. The Crown

O esplendor dos primeiros anos do reinado de Isabel II chegam ao pequeno ecrã em The Crown, uma das séries mais bem-vestidas e luxuosas do ano passado.

 


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the crown michele clapton

Depois de cinco gloriosos anos preenchidos com alguns dos melhores e mais celebrados figurinos da televisão atual, Michele Clapton deixou de ser a figurinista principal de Game of Thrones. A razão desta alteração deve-se principalmente a um novo projeto de Clapton, uma produção televisiva de uma riqueza orçamental e dimensão épica, se possível, ainda maior e mais monumental que os da fantasia de George R. R. Martin. Referimo-nos, pois claro, a The Crown, a megaprodução da Netflix sobre o reinado da rainha Isabel II do Reino Unido e da Commonwealth que, na sua primeira temporada, se foca na sua subida ao poder e os primeiros anos enquanto monarca.

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Fortemente inspirada e influenciada, mas não escravizada, por verdadeiras montanhas de referências históricas – afinal, os Windsor tratam-se da família mais fotografada de sempre – Clapton teve ao seu dispor uma abundância de recursos quase inéditos na televisão mundial. Os resultados estão à vista e cada episódio deste drama histórico trespassa tanta riqueza que quase conseguimos cheirar o dinheiro gasto na sua requintada confeção. Cenas faustosas como a recriação do casamento real ou da coroação, manifestam um luxo particularmente difícil de ignorar, mas, subjacente a toda a espetacularidade do ritual real, está um discurso visual cuidadosamente tecido por entre a fidelidade factual aos registos que temos de tais ocasiões.

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Por muitos que sejam os seus rasgos de ocasional melodrama familiar – maravilhosamente ilustrado através de figurinos espelhados, contrastes cromáticos, acessórios codificados e jogos de padrões incoerentes – The Crown é uma série apoiada na dinâmica entre o individuo humano e a coroa, o título, o dever e o símbolo de poder e privilégio divino. De um certo ponto de vista, poderíamos mesmo afirmar que, neste primeiro arco narrativo, a série criada por Peter Morgan é uma tragédia sobre a aniquilação da mulher em prol do nascimento e domínio da manifestação em forma humana do poder real. Com efeito, os trajes oficiais e numerosos conjuntos cerimoniais da família real são admitidos figurinos dentro do próprio mundo da série. Mas, ao contrário de atores trajados para um papel, o figurino não está aqui para disfarçar e ocultar a pessoa por detrás da personagem, mas sim para ser, em si, a personagem e a pessoa conflagrados numa imagem do domínio público.

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Como já apontámos, The Crown é um programa multifacetado com mais preocupações e linhas ideológicas que a sua tese principal e, por consequência, os figurinos demonstram também essas outras facetas. Acima referimos o melodrama familiar ilustrado pelas roupas, mas temos de salientar como, apesar da sua tecelagem de contrastes teatrais e linhas de conflito psicológico entre, por exemplo, as duas filhas de Jorge VI, Michele Clapton nunca se deixa desviar em demasiado da História. Efetivamente, temos aqui um guarda-roupa histórico que demonstra, com mestria absoluta, esse difícil balanço entre licença dramática e reconstrução arqueológica que tantos figurinistas são incapazes de executar – mesmo alguns dos designers celebrados noutras páginas desta lista.

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Para além de tudo isso, as criações de Clapton estão sempre em perfeita harmonia com toda a restante construção visual, desde os cenários opulentos e saturados de detalhes, até aos estilos severos da caracterização, passando pela enfumada fotografia que dá a toda a série o aspeto de uma solene pintura oitocentista encoberta em verniz tornado opaco pelo tempo. Cor, material e silhueta são sempre escolhidas com o olho de um pintor pela parte da figurinista e, independentemente dos numeroso problemas políticos e estruturais da série, The Crown é uma produção de soberba exatidão e coerência formal. Em nenhum segundo se percebe uma falha ou se denota uma leve imperfeição na sua construção. Tudo está exatamente apresentado como os seus criadores cuidadosamente planearam sem deixar nenhum detalhe por definir, por muito ínfima que seja a sua presença no ecrã.

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No final do seu primeiro ano como a figurinista principal de The Crown, Michele Clapton criou e supervisionou a confeção de cerca de 350 figurinos diferentes, sem contar com a quantidade incomensurável de peças que foram reaproveitados e repensados de arquivos de roupa vintage e outras produções. Cada personagem e figura é eximiamente definida, cada estatuto sociopolítico é delineado com a exatidão de um arqueólogo e, se fossemos falar de figuras individuais, poderíamos estar páginas incontáveis a tecer elogios e proclamações de deleite aos guarda-roupas de Wallis Simpson, Margaret Windsor, os Churchill, a Rainha-mãe ou mesmo as vestimentas dos muitos figurantes que povoam os backgrounds. Deixamos, no entanto, um apontamento final referente à imagem derradeira desta primeira temporada. Vestida em todo o seu esplendor oficial, Elizabeth Windsor é lembrada por um fotógrafo que não é essa a identidade pretendida para o retrato da monarca. Ela há que se apresentar como Gloriana, como uma deusa, como Isabel Regina. Ao som de tais palavras, Isabel muda de postura, seu vestido bordado deixa de dominar o seu corpo com o peso do seu esplendor, e, decorada com as joias e restantes símbolos do seu título, vemos a coroa vencer. Na sua imagem final, The Crown mostra-nos o figurino como arma de suicídio, a imagem como suplantador da humanidade do indivíduo. É um espetáculo assombroso, tão desconcertante como portador de uma beleza que nos deixa de boca aberta em estarrecida admiração.

 

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Na próxima página, coroamos a série que, segundo os nossos critérios, apresentou o melhor guarda-roupa televisivo de 2016. Consegues adivinhar qual a produção agraciada com tal honra?

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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