"The Mauritanian" | © STX Entertainment

The Mauritanian, em análise | Made in USA

The Mauritanian” reconta algumas das maiores injustiças na História recente dos EUA e dramatiza seus horrores, a luta pela liberdade e pela razão. Tahar Rahim e Jodie Foster foram nomeados para os Globos de Ouro pelos seus desempenhos.

A história do cidadão mauritano Mohamedou Ould Salahi é um perturbador conto que deveria envergonhar todo o Americano que consentiu com as loucuras anti-islâmicas pós-11 de Setembro. Sob o pretexto de lutar contra o terrorismo, os EUA violaram leis internacionais e cometeram inúmeros crimes de guerra imperdoáveis. Em Guantánamo, uma prisão foi montada para albergar as maiores vítimas do fervor americano. Muitos prisioneiros eram pessoas só vagamente associadas a indivíduos de organizações terroristas. Em alguns casos, o único crime era ter um primo amigo de um potencial criminoso.

Não obstante a imprecisão das acusações e a falta de provas, os prisioneiros foram torturados até falarem, até concordarem com o que quer que os seus interrogadores diziam. Pouca ou nenhuma informação surgiu destas práticas. Só dor e infâmia. A perpétua existência da base em Guantánamo é uma ignomínia para a qual não há palavras. Foi nesse inferno que Salahi passou 14 anos da sua vida, até mesmo depois dos seus advogados ganharem um caso contra o governo americano durante o mandato de Obama. Não há desculpa que possa atenuar o seu sofrimento e cristalizar o fado do homem em cinema é uma ambição meritosa, mesmo que só a nível moral.

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Afinal, contar uma história ajuda à sua imortalidade, ajuda ao alerta e ao entendimento do populus. Pelo menos, essa parece ser a intenção. Infelizmente, confiar em Hollywood para detalhar narrativas intrinsecamente políticas é um jogo em que a audiência está sempre do lado perdedor. O realizador de “The Mauritanian” Kevin Macdonald e sua equipa de argumentistas decidiram dividir a narrativa pela perspetiva de três protagonistas, analisando o caso judicial e ético ao mesmo tempo que inadvertidamente diluem o potencial dramático de seu filme. Esta é uma fita sobre Slahi, mas também sobre a advogada Nancy Hollander que o defendeu e o procurador americano Stuart Couch.

Uma das primeiras vítimas desta abordagem é a noção da cronologia. Um dos grandes horrores do que aconteceu a Slahi foi o seu prolongado aprisionamento, a duração da cadeia sem fundamento. Tanto tempo ele passou atrás das grades que nem conseguiu voltar a ver a mãe antes desta morrer. Em “The Mauritanian” é difícil perceber quanto tempo passa entre cenas e a inclusão de flashbacks estilizados só complica mais a situação. Ao invés de sentirmos o peso do tempo, parece que toda a ação poderia ter ocorrido no espaço de alguns meses. Quando é necessário um tsunami de diálogo expositivo para manter tais detalhes percetíveis para o espetador, houve uma grave falha na narrativa audiovisual.

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Também nos deparamos com um problema muito comum em filmes políticos made in Hollywood. Ao invés de confrontar a perspetiva de Slahi e suas particulares tragédias, os cineastas roubam-lhe autonomia enquanto protagonista e concedem imensa atenção aos poderios que lhe ditaram o destino. Enquanto se aprecia o foco dado à crítica do regime americano e à admissão que isto são problemas sistemáticos, fica mal dar tanta ênfase ao procurador que tentou manter o mauritano atrás das grades. A situação só piora quando se constata a disparidade de qualidade textual. Enquanto que as cenas dentro de Guantánamo têm alguma elegância dramática e complexidade psicológica, tudo o que ocorre fora das suas cercas sabe a cinema inspirador fora de prazo.

No final, o que salva “The Mauritanian” e faz com que seja visionamento obrigatório são os seus atores. Benedict Cumberbatch é o elo mais fraco no papel de Stuart Couch, mas os seus colegas são bem capazes de compensar o deslize do inglês. Jodie Foster traz a sua intensidade do costume a Nancy Hollander, delineando o ultraje da advogada, sua persistência e a sombra negra da dúvida. Talvez ela exagere o choque de algumas revelações, mas sua face é um bom barómetro para a audiência seguir, um guia pelas vicissitudes judiciais desta complicada história verídica. Shailene Woodley, enquanto uma colega de Hollander, partilha muitas cenas com Foster e traz necessária candura a uma porção do filme dominada por palavreado legal.

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Tudo isso dito, a estrela do filme é Tahar Rahim como o mauritano do título. Mesmo quando as cenas que ele protagoniza tombam para o mau gosto, para o sofrimento gratuito, Rahim é uma âncora emocional para o filme. Há uma claridade de sentimento na sua performance, a qualidade de trazer o conflito interior para a flor da pele, tornando o inefável em material, o invisível em visível. As primeiras trocas de palavras com Jodie Foster são especialmente tensas, mas o melhor deste desempenho é uma coleção de interações com outro prisioneiro. Nem ele nem a audiência veem o outro homem, mas Rahim constrói toda uma dinâmica interpessoal, uma amizade tingida pela dor e o desespero daquele a quem a liberdade foi roubada. É um trabalho brilhante e é a principal razão para ver “The Mauritanian”.

The Mauritanian, em análise
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Movie title: The Mauritanian

Date published: 27 de February de 2021

Director(s): Kevin Macdonald

Actor(s): Tahar Rahim, Jodie Foster, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Zachary Levi, Stevel Marc

Genre: Drama, Thriller, 2021, 129 min

  • Cláudio Alves - 45
  • José Vieira Mendes - 65
55

CONCLUSÃO:

Um elenco de luxo e um argumento incompetente unem forças em “The Mauritanian”. Trata-se filme com muito boas intenções, mas pouca qualidade formalista ou sofisticação narrativa. Alguns elementos elevam a obra acima da mediocridade, nomeadamente o trabalho do seu ator principal. Para quem ainda não conhece o horror que aconteceu a Mohamedou Ould Salahi, há melhores formas de descobrir a sua experiência enquanto prisioneiro de Guantánamo.

O MELHOR: A prestação de Tahar Rahim. O ator raramente trabalha em cinema de Hollywood, mas este trabalho devia ajudá-lo a conquistar mais fama internacional. Quem gosta dele em “The Mauritanian” devia procurar os muitos filmes franceses protagonizados por esta estrela europeia.

O PIOR: A estrutura tripartida da narrativa, o diálogo desajeitado, a falta de coragem para confrontar a história de Mohamedou Ould Salahi sem floreados desnecessários.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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