The Walking Dead | Quinta temporada em análise

 

Em geral, a quinta temporada de The Walking Dead correspondeu às altas expectativas nutridas pela maioria dos seus entusiásticos fãs. Não se pode dizer que tenha sido uma temporada perfeita, tendo sido recheada com altos e baixos, mas foi uma temporada sólida que nos deu alguns dos melhores episódios da série até à data.

O começo desta temporada só pode ser comparado, em termos de qualidade narrativa e emoção, com o começo da primeira temporada da série apocalíptica, que já é apenas uma lembrança distante, cinco anos depois da sua estréia.

A quarta temporada da série havia usado a metade dos seus episódios para ligar a história do governador com uma nova narrativa, associada a um local misterioso chamado Terminus. Este novo lugar era supostamente a grande esperança de uma vida melhor (e mais longa) para os nossos heróis. Um lugar seguro no seio de um mundo negro, impiedoso e fatal, recheado de zombies famintos e de homens sem escrúpulos.

No entanto, infelizmente para Rick e companhia, logo após chegar ao cobiçado Terminus, dão-se conta que as coisas talvez não sejam assim tão simples e agradáveis. Afinal de contas, estamos a falar de The Walking Dead, em que ninguém está seguro e onde os finais felizes são miragens no deserto.

A quarta temporada tinha terminado num glorioso cliffhanger, deixando antever as dificuldades iminentes que os nossos heróis se veriam obrigados a enfrentar. Na verdade, o final da temporada passada foi sem dúvida um dos seus melhore momentos, principalmente graças aos apelidos atribuídos ao grupo principal pelos habitantes sombrios de Terminus: Rick, o líder, Michonne, a samurai, Daryl, o arqueiro e Carl, o miúdo.

Passado no sul dos Estados Unidos, The Walking Dead não consegue evitar ter um certo sabor a western, particularmente forte no que diz respeito a dois personagens, Rick, essencialmente um xerife num mundo sem lei, e o seu filho Carl, herdeiro aparente e miúdo duro, armado de revólver e chapéu à cowboy. O arqueiro Daryl adiciona os elementos redneck e até mesmo medieval (Daryl transformou-se praticamente num Legolas hillbilly graças às suas proezas com a besta e às suas habilidades como “homem-do-mato”), e Michonne acrescenta um sabor oriental (assim como muito estilo) ao grupo, sendo uma espécie de Beatrix Kiddo afro-americana.

Normalmente não sou grande fã de cliffhangers, mas quando Rick, o líder, faz o seu pequeno discurso no final da quarta temporada, afirmando que são os outros que devem ter medo deles e não o contrário, não pude deixar de ceder ao meu nerd interior e aplaudir entusiasticamente! Principalmente depois de ter derrotado o governador (um dos melhores vilões da história tanto da banda desenhada como da televisão), o grupo de Rick tornou-se numa força da natureza, um grupo unido de sobreviventes extremamente letais e inteligentes capazes de trabalhar juntos para vencer praticamente qualquer inimigo. Por isso, quando Rick faz o seu discurso no final da quarta temporada, é difícil não concordar com ele. Já não estamos a falar de um grupo de pessoas assustadas a tentar sobreviver num mundo cruel e desconhecido. O mundo de The Walking Dead está mais cruel do que nunca é certo, mas já não é desconhecido, é um mundo ao qual os protagonistas da série foram capazes de se adaptar através de meses (talvez mesmo anos) de desventuras. Após uma boa dose de mortes e sofrimento, a verdade é que o produto final ao qual chegamos no final da quarta temporada foi um grupo de guerreiros temíveis liderados por um Rick corajoso, letal, carismático e inteligente em partes iguais. No princípio desta temporada, é esse o grupo que encontramos.

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The Walking Dead Grupo Quinta Temporada

Os três primeiros episódios da quinta temporada giram portanto em volta de Terminus e dos seus habitantes. Três episódios são poucos para um arco que levou tanto tempo a ser preparado (metade da quarta temporada), mas, pelo menos, cada minuto desses três primeiros episódios é brilhante. Em três episódios são-nos dados a conhecer alguns personagens igualmente fantásticos e monstruosos, e algumas das cenas do começo da temporada são simplesmente perfeitas. A intensidade do começo desta nova temporada eleva realmente a série ao olimpo da ficção atual, constituindo possivelmente a melhor abertura de uma série de televisão nos últimos anos.

Prefiro não entrar em grandes detalhes para não estragar a temporada para os leitores que ainda não tiveram a oportunidade de ver a última temporada (do que é que estão à espera?), mas revelarei ainda assim que o suposto paraíso Terminus acaba por ser um covil de canibais! Isso não é uma grande surpresa para os fãs da banda desenhada que certamente já estavam à espera de algo assim. A adaptação do arco The Hunters dos comics tinha que aparecer antes ou depois, e Terminus parecia o local certo para isso. Isso acaba por se comprovar e o resultado acaba por ser uma adaptação livre dos acontecimentos dos comics, logrando de forma brilhante o objetivo perene da série, que é adaptar de forma fiel o material original mas ao mesmo tempo surpreender de vez em quando os leitores do mesmo. Não é fácil, mas os criadores de The Walking Dead costumam acertar mais vezes do que erram neste apartado. O certo é que o arco narrativo dos canibais acaba por se converter um dos melhores momentos da série, como jà havia acontecido na BD.

Infelizmente, o resto da temporada não é tão espetacular como o começo mas, tratando-se de The Walking Dead, a série nunca chega a ser pior do que bastante boa, e em alguns episódios alcança verdadeiramente momentos de excelência como nos tem habituados.

Na quinta temporada a série repetiu o formato de duas metades, cada uma dividida em oito episódios. Este é, em traços gerais, um bom formato, principalmente porque no fundo nos dá, essencialmente, duas curtas temporadas separadas por um curto período de tempo.

A maior crítica que se pode fazer a esta quinta temporada é que o arco dos canibais, um dos melhores da série, é também um dos mais curtos, durando apenas três episódios. Por outro lado, o resto da primeira parte da temporada é preenchido por um arco original cujo foco é a irmã de Maggie, Beth, que até então tinha sido utilizada apenas de forma muito esporádica. Agradece-se o cuidado da equipa de produção em tentar desenvolver todos os personagens, mas a verdade é que alguns personagens, como a pobre Beth, simplesmente não são tão interessantes como outras. Adicionalmente, os episódios focados na Beth acabaram por ser prejudicados por algumas decisões criativas “estranhas”, que acabaram por transformar esses episódios numa das partes mais fracas da série até agora.

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A segunda metade da temporada foi bastante mais consistente, introduzindo uma nova localização, Alexandria, e sendo bem mais fiel ao comic. O maior problema da segunda metade da temporada é que, tal como essa parte dos comics, é uma fase de transição entre umas e outras desventuras. Em outras palavras, o começo da estadia do grupo em Alexandria é a calma antes da tempestade, que só chega realmente no último episódio da temporada que por certo, acaba uma vez mais em um cliffhanger.

Apesar de ser um período bem mais calmo do que aquilo que é costume nesta saga, ainda assim temos a oportunidade de ver algumas mortes grotescas e igualmente trágicas, por isso nem tudo é calmo e pacífico. Em geral, porém, a segunda metade desta temporada é essencialmente uma preparação para o que vem a seguir que, como os fãs da banda desenhada bem sabem, é provavelmente uma das melhores e mais emocionantes partes da história até agora. Como tal, alguns dos episódios da segunda parte da temporada foram algo mais lentos do que o normal e, até mesmo, do que seria desejável.

TWD

Conclusão

De modo geral, a quinta temporada de The Walking Dead é como o resto da série até o momento, ou seja,  muito boa. Não é por acaso que esta série se transformou num dos maiores fenómenos da cultura popular dos últimos anos. Apesar de pecar de uma certa inconsistência, esta temporada foi capaz de adaptar de maneira satisfatória o material de base, mantendo assim mesmo o suspense inclusivamente para os fãs da BD.

A saga de zombies da AMC é daquelas poucas séries que conseguem ser realmente divertidas e inteligentes ao mesmo tempo, provendo um espetáculo visual constante ao mesmo tempo que explora ideias extremamente interessantes, nomeadamente sobre a psique humana. Quem diria que a melhor obra sobre zombies seria, na verdade, sobre os humanos sobreviventes? Como o próprio Rick disse nesta temporada: We Are the Walking Dead”, ou seja, os verdadeiros mortos que caminham no mundo pós-apocalíptico de Kirkman não são aqueles que se encontram em decomposição física, mas sim aqueles que se encontram em decomposição mental. Despidos da civilização, os homens transformam-se em bestas cruéis, como já dizia Hobbes. O grande desafio para o homem num mundo sem leis não é sequer sobreviver aos perigos tangíveis, mas sim conservar aqueles traços sutis da nossa personalidade que nos diferenciam dos animais. 

Concluindo, realmente o maior problema desta temporada é que terminou! Felizmente, desta vez não teremos que esperar quase um ano pela próxima, já que o spin-off Fear The Walking Dead preencherá boa parte do temido período de espera.

 

Aspetos Positivos:

  • Canibais!

  • Especialistas em sobrevivência

  • Estudo psicológico das personagens

 

Aspetos Negativos:

  • Inconsistência

  • Arco narrativo do hospital

  • Segunda metade um pouco lenta

 

NOTA: 8.5/10

 

Bruno Vargas

 

Bruno Vargas

Cidadão do mundo, amante do cinema, da televisão, da banda desenhada, dos videojogos, da literatura, da história, da filosofia e da política. Acredito que o Fight Club é o melhor filme alguma vez feito, e que o Tarantino é o melhor realizador dos tempos modernos. O meu super-herói favorito é o Batman embora, se tivesse de escolher, preferisse sem dúvida ser o Super-Homem.

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