Toni Erdmann, em análise

Tem sido declarado por muitos como “o melhor filme de 2016” e celebrado como um milagre cinematográfico, mas será que Toni Erdmann é assim tão perfeito?

toni erdmann maren ade

Recentemente, foi feita uma sondagem a vários críticos de cinema com o intuito de se formular uma lista dos 100 melhores filmes do século XXI. Tendo em conta a sua frescura na mente dos inquiridos e consequente falta do prestigiante peso do tempo, ninguém pensava que um filme deste ano conseguisse entrar na lista, mas houve um título que o fez. Aclamado quase universalmente desde a sua estreia em Cannes e recente campeão supremo dos European Film Awards, Toni Erdmann é, pela sua reputação, algo próximo de um milagre religioso em forma de filme. Mas será que, de facto, esta obra merece tais celebrações hiperbólicas de indiscutível perfeição? A resposta simples é, inesperadamente, que sim.

Seguindo essa linha de pensamento há que confessar que, a uma primeira e muito superficial análise, Toni Erdmann é um filme de peculiar simplicidade, apesar de ser igualmente portador de uma duração digna de um épico (162 minutos). Este é um retrato da relação de um pai e filha, Winfried e Ines Conradi. Ele é um velho professor de música divorciado que tem uma irritante tendência para exigir a atenção de todos os que o rodeiam, através de constantes partidas e piadas, muitas delas envolvendo uma dentadura cómica e a criação de personagens fictícias. Por seu lado, ela é uma mulher de negócios que não tem tempo para humor e que considera o conceito de felicidade como uma nebulosa indefinição de natureza hostil. Ao longo de uma série de imprevistas visitas de Winfried a Bucareste, onde Ines trabalha, Toni Erdmann vai retratando o modo como este brincalhão irreverente vai infernizando a rígida existência da sua filha e, pelo caminho, a vai abrindo à possibilidade de um estilo de vida mais relaxado, risonho e mágico. Ou seja, o tipo de clichés paternalistas que esperaríamos de um “feel-good movie” de Hollywood.

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Só que Toni Erdmann não foi escrito por James L. Brooks, mas sim pela genial cineasta alemã Maren Ade e o seu resultado final está longe de ser tão facilmente categorizável como uma amistosa comédia de Hollywood. Para começar, há o já mencionado retrato da dinâmica entre um pai e filha que, no entanto, o filme nunca deixa cair no simplismo de apresentar uma filosofia de vida como inquestionavelmente superior e positiva. Pelo contrário, certos momentos parecem ativamente atacar o humor desavergonhado com que Winfried encara o mundo, especialmente quando esse humor colide com outra importante faceta do filme: a exploração da vida numa sociedade capitalista e as disparidades socioeconómicas a ela inerentes. Acrescentemos a este cocktail uma sátira do mundo empresarial europeu e sua bolha de privilégio hermético, uma dissecação do sexismo em profissões dominadas por homens e um retrato psicológico de dois indivíduos deprimidos e temos um argumento de monstruosa complexidade.

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A contrabalançar isso, está o modo como Ade edifica uma construção complexa sem nunca chamar atenção para o seu esforço. Em termos textuais, veja-se como o guião rejeita a ideia de um convencional enredo dramático ao mesmo tempo que é apoiado numa estrutura clássica de três atos e uma coda. De um ponto de vista formal, a sua fotografia, dominada por planos médias e uma estética realista, é quase televisual, o que salienta ainda mais o absurdo surreal e serve de perfeita matéria-prima à montagem que demorou a Ade e Heike Parplies um ano a completar. O trabalho valeu a pena, pois, apesar da sua duração, Toni Edmann nunca aborrece e voa com impressionante rapidez. Para além disso, em precisos cortes, Ade usa uma economia soberba para sugerir a impulsividade de Winfried ou o nervosismo de Ines, apagando certas passagens e movimentos transitórios que normalmente seriam telegrafados em nome do raccord.

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Apesar dessa mestria, Toni Erdmann está muito longe de ser um vistoso espetáculo formalista. O filme trata-se, na verdade, de um épico de observação humana e humanista, onde o trabalho dos dois atores principais acaba por ser tão importante como texto e a direção de Ade. Como Winfried e sua panóplia de diferentes personagens (Toni Erdmann, o embaixador alemão na Roménia, um empresário ou life coach, é a sua mais recorrente) Peter Simonischek é absolutamente brilhante, imbuindo o seu palhaço com uma melancolia que o eleva de Batatoon a Pagliacci. Consequentemente, apesar da natureza anárquica de Winfried, existe um constante peso dramático na sua presença que vai revelando que o seu humor pode assumir a forma de um mecanismo de defesa.

Mas, por muito exemplar que seja o trabalho de Simonschek, a verdadeira estrela do filme é Sandra Hüller. Desde a sua primeira cena, onde um comentário seco a respeito da aparência de Winfried nos resume as décadas anteriores da sua relação, até ao uso mais comovente de uma dentadura na história do cinema, Hüller é magistral, empregando microscópicas variações expressivas e um controlo absoluto da linguagem corporal para sugerir uma mulher que está sempre a considerar o modo como os outros a veem. Um exemplo deste sucesso é o modo como, através do seu trabalho, as mais ácidas observações socioeconómicas de Ade, ganham impacto humano. Veja-se os momentos amargos em que Ines se apercebe que, apesar da insanidade grotesca do seu pai, ela é mais facilmente levada a sério num ambiente profissional quando tem ao lado uma presença masculina, ou uma hilariante cena de role-playing sexual onde podemos ver como o seu gosto familiar por improvisação se manifesta num jogo de subversiva dominação feminina.

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É no terceiro ato da narrativa, contudo, que Hüller realmente eletrifica o ecrã com a sua majestade, a começar por uma performance de “The Greatest Love of All” onde a câmara praticamente vibra com a sinceridade desconfortável que a atriz conjura. “Desconfortável” é a palavra de ordem aqui pois, ao longo de Toni Erdmann, Maren Ade mostra como, para si, o desconforto não é meramente um veículo para o humor mas a sua mais pura essência e como a humilhação, para além de ser parte cruel e intrínseca a um sistema capitalista, pode ter uma natureza libertadora. Ainda dentro do surpreendente terceiro ato da estrutura narrativa, essa celebração do desconforto atinge o seu píncaro numa sequência de festa em que uma crescente acumulação de absurdez resulta numa farsa reminiscente do surrealismo cómico de Buñuel, ao mesmo tempo que Ines parece estar a meio de uma experiência entre a epifania espiritual e um esgotamento nervoso.

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Até aos seus silenciosos momentos de encerramento, Toni Erdmann nunca deixa de surpreender (aos espetadores e às personagens que se parecem surpreender constantemente com a sua própria loucura). No final, o filme acaba por se revelar uma bizarra, insólita, belíssima e comovente obra-prima, sob a forma de um jogo, onde Ade vai atirando situações cada vez mais insanas às suas personagens para ver a sua reação espontânea, ao mesmo tempo que mantém um olho focado na periferia, onde um mundo exterior existe fora da bolha familiar e económica. Para concluir, parece apropositado referir como Toni Erdmann, por muito hilariante que seja, é também um filme marcado pela tristeza que muitas vezes se esconde por detrás de um sorriso rasgado. Não é por acaso que a sua narrativa principal está enquadrada por duas mortes, uma canina e outra humana, ambas representadas com o mesmo candor anti sentimental que não deixa por isso de ser emocionalmente lacerante.

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O MELHOR: O comovente (e muito cabeludo) abraço que constitui o clímax do terceiro ato.

O PIOR: Será difícil olhar para raladores de queijo e queques verdes com a mesma casualidade indiferente que tínhamos antes de ver o filme e isso nem sempre se revelará com algo positivo.



Título Original:
 Toni Erdmann
Realizador: Maren Ade
Elenco:
Peter Simonischek, Sandra Hüller, Trystan Pütter, Thomas Loibl

Alambique, O Som e a Fúria | Comédia, Drama | 2016 | 146 min

Toni Erdmann - Novas Datas

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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