TOP 10 Woody Allen | 7. Crimes e Escapadelas

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Ancorado por uma sublime prestação de Martin Landau, Crimes e Escapadelas (1989) é um dos filmes mais ideologicamente complexos de Woody Allen.

Durante grande parte da sua carreira, Woody Allen tentou repetidamente emular o trabalho de um dos seus grandes ídolos, o incomparável Ingmar Bergman. Em Intimidade, por exemplo, esta homenagem do aprendiz para o seu mestre, tomou a forma de algo que quase se poderia caracterizar como pastiche, apagando as marcas estilísticas usuais de Allen em prol da direta cópia reverencial ao legado do sueco. Mais de uma década depois, Allen retornou ao cinema à la Bergman, mas já sem o facilitismo da imitação. Crimes e Escapadelas é uma obra de Allen desde o início ao fim, não havendo movimento, pose ou corte que traiam o seu discurso autoral único, no entanto, é também o filme onde o aprendiz finalmente equiparou e superou o seu mestre.

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Inspirando-se em Crime e Castigo de Dostoievski. mas implementando uma matriz moral judaica em lugar de uma cristã, Allen concebeu uma narrativa em volta de três homens e seus conflitos existenciais. Judah é um oftalmologista judeu que assassina a sua amante numa tentativa de manter a ordem na sua vida. Cliff é um realizador em crise matrimonial e profissional que tem como sua maior ambição a finalização de um documentário sobre o filósofo Louis Levy. O sujeito desse documentário é o final ponto neste triângulo, sendo ele um homem que perdeu a fé e a certeza no propósito da existência humana depois de ter experienciado em primeira mão os horrores do Holocausto.

O que Bergman alcançou com a sua célebre trilogia da Fé, Allen alcança com um só filme, explorando múltiplas facetas da relação do Homem com Deus e com a Fé. Judah renuncia e desobedece, Cliff acredita, mesmo que confuso, e tenta racionalizar Deus como uma conflagração dos códigos morais que regem a sociedade humana, e Levy, a figura mais trágica na filmografia de Allen, é um homem perdido que olha Deus e vê ora vazio, uma mentira ou um patriarca negligente. Na sua inconclusiva conclusão, que renuncia a convencionais estruturações dramáticas, Crimes e Escapadelas parece anunciar uma só possível resolução. Longe de ser uma benesse, o livre arbítrio, que supostamente Deus concedeu aos humanos, é um cruel sinal de indiferença divina, senão uma lacerante ficção.

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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