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LEFFEST ’18 | Touch Me Not, em análise

“Touch Me Not” foi o polémico vencedor do Urso de Ouro na Berlinale de 2018 e constitui uma experimental e audaz pesquisa sobre temas de sexualidade e os limites da intimidade. O filme chega a audiências portuguesas como parte da programação do Lisbon & Sintra Film Festival.

A membrana porosa entre narrativa fictícia e facto documentado é particularmente fina e quase imaterial no contexto de “Touch Me Not”, o filme que valeu à jovem cineasta romena Adina Pintilie uma inesperada vitória na Berlinale. Talvez essa afirmação seja um exagero, é claro, sendo que tais indefinições entre o que é real e o que é simulado tendem a focar-se mais na estética do filme do que na sua estrutura ou construção enquanto proposta dramática. Basicamente, esta é uma ficção filmada com mecanismos rigorosos do cinema documental sobre temas de sexo, intimidade e imagem própria.

De facto, os protagonistas do filme são atores mais ou menos reconhecíveis, assim como os indivíduos mais convencionalmente atraentes do principal elenco de figuras. Primeiro, temos Laura, verdadeira âncora humana deste projeto, cujas inseguranças e barreiras emocionais a levam a rejeitar não só o toque como também a proximidade física e psicológica com outras pessoas. Sendo Laura Benson e sua personagem homónima mulheres de meia-idade, há algo de subversivo e justamente admirável na exploração franca das suas sexualidades. Afinal, não é nada controverso afirmar que o cinema e a nossa cultura raramente ponderam ou aceitam a existência de sexualidade em pessoas de uma certa idade, especialmente mulheres.

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O filme seria melhor se Christian Bayerlein fosse um dos seus protagonistas.

“Touch Me Not” começa por nos apresentar a um dos rituais de intimidade circum-navegada que Laura pratica na sua rotina. Aí, um jovem prostituto chega à casa da protagonista, despe-se, toma um duche e depois masturba-se na cama da sua anfitriã. Tudo isto é-nos mostrado de modo gráfico e com clínica desafetação nos ambientes de ofuscante brancura que a cineasta selecionou para servirem de universo asséptico de “Touch Me Not”. Laura nunca toca no corpo do seu companheiro de cena, somente observa e depois interage com os lençóis sujos como que numa tentativa de ter intimidade com o espectro do êxtase sexual de outra pessoa. Em certas passagens, é-nos sugerido que tais problemas possam ter surgido de uma relação difícil com um pai que agora está às portas da morte.

O outro protagonista do filme é Tomas, interpretado pelo ator norueguês Tómas Lemarquis, um homem com alopecia que está, de momento, a participar numa espécie de terapia de grupo com o intuito de explorar os limites pessoais da intimidade. Verdade seja dita, com seus fundos brancos e figurino a condizer, todo o aparato destas cenas remete mais para a performance art do que para qualquer proposta terapêutica. Talvez esta seja uma escolha estética em nome da honestidade, pois há algo de muito moralmente dúbio e dramaticamente inepto nesta pseudo documentação de sessões de terapia que, na verdade, não passam de desempenhos sugeridos por um argumento. Mais vale admitir que estamos no campo da performance e não no da psicologia.

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Enfim, a história de Tomas não se foca somente nestas sessões. Seu ímpeto narrativo encontra-se mais concentrado na perseguição que ele faz da sua ex-namorada. Tal obsessão, que o filme jamais questiona ou critica, leva-o até ao mundo do bondage e BDSM, onde a sua ex-companheira toma refúgio e encontra dinâmicas de intimidade e libertação pessoal que Tomas parece incapaz de sequer entender. Atente-se como a primeira incursão pelas profundezas de um clube de sexo representa uma das passagens mais cinematograficamente subjeticas de “Touch Me Not”, com movimentos de câmara irrequietos, uma paleta cromática repentinamente dominada por pretos e vermelhos e uma desorientadora paisagem sónica a sugerirem uma inquietude e terror que é sublinhado pelos planos de reação de Tomas.

Se esta linguagem fílmica fosse replicada noutra qualquer cena de “Touch Me Not” em que personagens se confrontam com realidades de intimidade muito além dos seus limites pessoais, não haveria qualquer problema. Contudo, nenhum dos outros instantes em que esta dinâmica se regista ao longo do filme são encarados com o tipo de espetacularidade reacionária destes instantes. Tal desequilíbrio confere uma pátina de desaprovação e julgamento às cenas que vai contra o positivismo sexual que o texto tão ardentemente defende. Infelizmente, essa está longe de ser a única manifestação de incoerências concetuais dentro da estrutura deste vencedor do Urso de Ouro.

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O final representa um espetacular momento de jubilo e liberdade.

Acima de qualquer outra fragilidade que o filme possa ter, as injustiças de representação proporcionadas pela mistura de ficção e documentário são o seu elo mais fraco. Laura e Tomas são construções fictícias e suas interações com a realizadora e terapeutas em cena trespassa a articulação desajeitada de um guião anglófono escrito por alguém cuja língua materna não é o inglês. Em contraste, as figuras secundárias cujos corpos mais se afastam das noções de beleza e saúde do mainstream são quem menos se esconde por detrás do artificio da ficção, em parte porque os seus corpos espelham de tal modo sua identidade que escondê-la é impossível.

Referimo-nos principalmente às duas figuras mais interessantes de “Touch Me Not”, uma trabalhadora do sexo de meia-idade transsexual chamada Hanna e um jovem afetado por severa atrofia espinal e muscular que dá pelo nome de Christian. Mais do que os protagonistas, esta parelha que nunca cruza caminho ao longo da narrativa constitui os heróis de “Touch Me Not” e ouvi-los e observar o conforto que sentem com os seus corpos é o ponto alto de toda a experiência. De facto, tanto um como outro trazem ao filme uma leveza quase cómica, meio sardónica, que contrapõem a seriedade crónica que afeta o resto deste ensaio cinematográfico que parece empenhado em falar de prazer e conforto como um direito de todos, mas se recusa a proporcionar essa mesma benesse ao espectador.

Tal recusa tem mérito, no sentido em que espicaça as opiniões da audiência e proporciona um jogo de confrontação que tem como objetivo uma celebração igualitária do corpo, do desejo e da sexualidade. Se formos honestos, todo o projeto, não obstante suas muitas fragilidades estéticas, potenciais hipocrisias ideológicas e monotonia tonal, merece muita admiração pela audácia com que se defronta com temas que a maioria das pessoas nunca ousaria dissecar de modo tão público. Os diálogos e discussões que está destinado a proporcionar são o máximo legado de “Touch Me Not”. Só é pena que, ao fim do dia, essas mesmas discussões pós-visionamento possam ser bem mais esclarecedoras, coerentes e cândidas que o filme em si.

Touch Me Not, em análise
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Movie title: Touch Me Not

Date published: 2018-11-25

Director(s): Adina Pintilie

Actor(s): Laura Benson, Tómas Lemarquis, Christian Bayerlein, Grit Uhlemann, Adina Pintilie, Hanna Hofmann, Seani Love, Irmena Chichikova, Rainer Steffen, Georgi Naldzhiev, Dirk Lange, Annett Sawallisch

Genre: Drama, 2018, 123 min

  • Cláudio Alves - 60
  • José Vieira Mendes - 80
70

CONCLUSÃO

Adina Pintilie assina em “Touch Me Not” uma obstinada exploração de tabus sobre o corpo, sobre o sexo e sobre a intimidade humana. Sem um argumento sólido a estruturar o filme e uma panóplia de escolhas estéticas muito questionáveis, o projeto está longe da perfeição, mas nada disso invalida totalmente o seu valor e bravura.

O MELHOR: A jubilante cena final ao som dos Einstürzende Neubauten apresenta-nos o positivismo do corpo e do sexo em linguagem cinematográfica e é simplesmente espetacular. Oxalá o filme tivesse espaço para mais momentos assim.

O PIOR: A estética clínica em nada beneficia o filme e só confere à experiência uma geral pátina de anti sinceridade que em nada reflete o discurso concetual de Pintilie.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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