68ª Berlinale | Dia 9 “Touch Me Not”

Filme-sensação, filme-escândalo, filme controverso, que fez sair pelo menos metade da sala na sessão de imprensa, “Touch Me Not”, da romena Adina Pintilie é o filme com letras bem grandes desta competição, pela seu direito à diferença e por ser uma extraordinária abordagem sobre a intimidade e a sexualidade levadas aos limites.

“Touch Me Not”, (“Não me Toques”) é um filme único dos até agora dezassete filmes apresentados na competição da Berlinale 68. Fez sair mais de metade da sala onde estavam igualmente os jurados da competição. Quem ficou até ao fim, não saiu desapontado — como tem sido uma constante até aqui — e pode dizer à vontade que viu o melhor filme a concurso. É um filme raro, estranho, sem género, sobretudo pela sua diferença e radicalismo. Mas igualmente pelo forte olhar da romena Adina Pintilie — a sua media-metragem de 50’, intitulada “Don’t Get  Me Wrong”, passou há uns anos no Festival do Estoril — construído num processo de trabalho colectivo,— um casting com a maioria de não actores — que explora com minúcia os mistérios da intimidade e da sexualidade, do conhecimento do corpo, da solidão. Isto, como se fosse um documentário de pesquisa, um reality show ou um filme-ensaio. Diz como me amas, então entenderei como te amar, é a frase-chave de “Touch Me Not”, um filme que está na fluida fronteira entre realidade e ficção, construído através um misto de experiências pessoais, relações autênticas e representação, dos actores e da realizadora. Estão a ver a experiência dos artistas unidos?

"Touch Me Not"
Adina Pintilie, a realizadora participa mas não é interveniente na narrativa de “Touch Me Not”.

A história difícil de se descrever, porque parece quase uma experiência laboratorial, é uma viagem emocional sobre três personagens, e as suas questões relacionadas com a intimidade, que nos oferece ao mesmo tempo uma visão profundamente empática sobre suas vidas. Contudo, a narrativa não muito linear, centra-se mais na enigmática Laura (Laura Benson), uma mulher de 50 anos — uma espécie de Madame Bovary, dos tempos modernos — que observa avidamente todos à sua volta para compensar as suas frustrações e bloqueios, na sua vida pessoal: trabalhou muitos anos na mesma fábrica, o seu marido está acamado e incapacitado. Laura sente-se só incapaz de se relacionar na sua intimidade e por isso contrata prostitutos na internet, na tentativa de conseguir tocar e ser tocada; o jovem e pálido Tomas (Tómas Lemarquis), um ator-bailarino que trabalha como terapeuta e que sonha com um relacionamento com uma mulher que o rejeita, compensando-se em tocar os objectos por ela usados; e Christian (Christian Bayerlein), um jovem com uma doença degenerativa, que não lhe impede de ter a sua sexualidade e de se relacionar; e por último a realizadora Adina Pintilie, que narra — com uma curiosa pronúncia em inglês — e participa na direcção deste aparente filme-investigação, com base em entrevistas, testemunhos e experiências.

"Touch Me Not"
“Touch Me Not” procura um caminho para uma maior intimidade e prazer.

Pintilie não desempenha um papel como interveniente na narrativa, limita-se a questionar de fora, mas olhando directamente, — através de uma câmara que está num outro estúdio em duplex, como na televisão — e explorando num misto de verdade e ficção, sentimentos e situações de uma forma caótica e sem colocar limites aos actores. Como ela própria diz no início, sem saber exactamente o que vai sair dali, como filme. E “Touch Me Not” vai explorando zonas mais vulneráveis da natureza humana, procurando ultrapassar preconceitos sobre a intimidade, sempre numa aparente contradição: os personagens parecem estar divididos entre a necessidade de apego e conforto como é o caso de Tomas ou Laura, ou os que vivem na dependência como é o caso do deformado, mas inteligente Christian, que contracena com a sua própria companheira (Grit Uhlemann).

"Touch Me Not"
A narrativa não muito linear, de “Touch Me Not”, centra-se mais na enigmática Laura (Laura Benson).

“Touch Me Not” procura esse caminho para uma maior intimidade e prazer, a um ritmo lento, quase sempre em tons de branco asséptico, onde a pureza da música clássica de Brahms, desempenha um papel fundamental. Mas é também um filme que se torna bastante cinzento — como o lado mais obscuro da nossa mente — e agitado, ao ritmo do ‘rock industrial’ dos Einstürzende Neubauten. A cave vermelha das fantasias e bondage, representa uma forma de todos os personagens, superarem os seus medos, velhos padrões, mecanismos de defesa e tabus. E não apenas um sonho de Laura, para cortar com as suas amarras, e finalmente, ser ver livre dos seus fantasmas e sombras. “Touch Me Not” é ainda uma viagem emocional onde sobressaem as emoções, preconceitos, percepções distorcidas da intimidade, comportamento irracionais. Os seres humanos  funcionam todos assim dependendo dos seus diferentes momentos e fases da vida.

"Touch Me Not"
“Touch Me Not”, um filme que está na fluida fronteira entre realidade e ficção.

“Touch Me Not” funciona como se fosse um espelho fragmentado, de histórias mais ou menos reais e possíveis, todas muito bem interligadas e interpretadas pelos actores que usam os seus nomes próprios: Laura Benson — vimo-la em “Ligações Perigosas” de Stephen Frears e foi uma das actrizes-fetiche de Patrice Chereau, — é notável, mas a sequência final da dança ao som de “Melancholia”, dos Einstürzende Neubauten é única, e inesquecível; mas são igualmente brilhantes as interpretações — ou as representações de eles próprios — de Christian Bayerlein ou Tómas Lemarquis, e de alguns secundários como por exemplo o transexual Hanna Hofmann, numa extraordinária performance e principalmente num strip-tease em casa de Laura. A realizadora é igualmente muito expressiva na sua relação com a câmara, e quase sempre presente num filme terapêutico e de auto-conhecimento, para todos, incluindo actores e os próprios espectadores. É um filme que tem igualmente o seu lado luminoso, talvez mais subtil, porque é uma exaltação ao tacto — liberta-nos ou trava-nos — que é o principio de como podemos encontrar a intimidade da forma mais inesperada e diversa, e amar sem rodeios, nem bloqueios. “Touch Me Not” é um filme polémico, que vai dividir opiniões, mas é até agora, é uma lufada de ar fresco de originalidade nesta competição da Berlinale 68. E tocou-me mesmo!

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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