"O Traidor" | © Alambique Filmes

European Film Challenge | O Traidor, em análise

“O Traidor” de Marco Bellocchio é um épico histórico que esteve em competição no Festival de Cannes e agora chega aos cinemas portugueses. O filme é também o candidato italiano na corrida para o Óscar de Melhor Filme Internacional.

Tommaso Buscetta é uma das figuras mais importantes na História do Crime Organizado. Ele foi um importante mafioso e parte da construção de um império traçado entre Itália e o Brasil, fazendo do tráfico de droga uma fonte de fortunas feitas em igual medida de ouro e sangue derramado. Na década de 80, depois de se ter mudado para o Brasil, Buscetta foi preso e veio a tornar-se no mais famoso informador da máfia italiana desde que há memória. As informações que ele deu foram o centro do maior julgamento anti máfia de sempre, ruindo as fundações da Cosa Nostra de modo irreversível.

É este o homem que terá fascinado o realizador Marco Bellocchio, célebre autor de portentosos dramas sobre intrigas domésticas e a História de Itália. De facto, o cineasta dedica a Buscetta um dos seus mais épicos esforços, assinando uma cinebiografia que é parte estudo de personagem parte circo judicial. Tantas são as informações que se desdobram perante o espectador que, mesmo com cerca de duas horas e meio, “O Traidor” parece demasiado breve para a envergadura da narrativa. Algo é certo, este é daqueles filmes que praticamente exige uma sessão de pesquisa antes de se entrar na sala de cinema.

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Bellocchio bem tenta descodificar e explicar a tapeçaria de História criminosa que deu azo a tal conto de traição e justiça, mas é difícil não nos perdermos por entre a litania de infindáveis nomes e acusações. A abordagem estilística de Bellocchio não ajuda, sendo que o realizador parece estar em modo Auto piloto a não ser quando, de repente, se deixa levar por uma qualquer inspiração formalista. Por entre muitos diálogos filmados num registo quase televisual, encontramos píncaros de explosiva criatividade como um chocante acidente automobilístico que nos faz quase saltar na cadeira de cinema.

Esta variação entre tédio e inesperada excitação contribui para uma experiência meio desequilibrada. Ao mesmo tempo, estas variações produzem algo semelhante a uma penosa sinfonia de culpa e redenção. É como se, por entre uma procissão funérea, fôssemos ouvindo explosões de gritos angustiados. A calma da maior parte do filme assim se transfigura no suspense que antecede cada choque. Conversas com procuradores ambiciosos em salas poeirentas assinalam-se como o prelúdio do caos de um julgamento que parece o cruzamento inglório entre um jardim-zoológico e um espetáculo de grand guinol.

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A cenografia do tribunal certamente contribui para tais sensacionalismos. A testemunha aparece numa caixa de vidro à prova de bala perante um painel de júris e atrás de si se dispõe uma sala de advogados furiosos e testemunhas curiosas. No fundo de todo o aparato estão os acusados, por trás das grades imbuídas no próprio edifício, autênticas jaulas que também servem de montra para a urbe criminosa. Muito alarido vem dessas pessoas enjauladas, incluindo epítetos de nudez e blasfémia que contrastam com a sobriedade dos juízes de modo tão chocante que é cómico.

As cenas em tribunal são mesmo o melhor deste filme, cuja estrutura pode parecer dispersa, mas é de grande exatidão. Tudo começa com uma festa que nos introduz aos principais atores na tragédia siciliana. Depois temos o primeiro ato, aquele em que nos vamos tornando companheiros íntimos de um mafioso que vê o seu ofício ilícito como uma posição de honra e forte moralidade. Este nobre mafioso é então catapultado para o palco da justiça e dos media no explosivo segundo ato, que começa com uma série de homicídios em série e se prolonga pelo já muito falado julgamento.

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Costuma-se dizer que depois da tempestade vem a bonança. Em “O Traidor”, contudo, depois da tempestade vem mais tédio e mais angústias morais de um quotidiano sem graça. O rescaldo do circo judicial é feito de identidades falsas e inação, é feito do retrato de um homem que confronta a sua culpa e sua obsolescência. Buscetta é o nobre mafioso e, em certa medida, é um herói que fez da delação um gesto de pesado sacrifício. No entanto, Buscetta é também alguém que aniquilou o único contexto em que a sua existência parecia justificada. Sem a máfia, onde é que um mafioso pode encontrar o seu lugar?

A cinebiografia que Bellocchio elabora vai assim oscilando entre aborrecimento mortal, densidade informativa e píncaros de glória cinematográfica. O tédio é o que mais fica na cabeça do espectador quando sai da sala de cinema, no entanto. Isso e a âncora humana que se eleva acima das fragilidades do projeto e quase consegue elevar o resto do filme com sua grandiosidade. Entre italiano da Sicília e português quebrado, Pierfrancesco Favino dá vida a Tommaso Buscetta como se de uma grande figura da literatura ele se tratasse. Há sempre uma complicada interioridade a brilhar no seu olhar carrancudo, sempre uma corrente emocional que contraria e complementa as ações declaradas da personagem. Trata-se do tipo de desempenho que quase vale por todo um filme e, mesmo que fiquemos aquém dos aplausos, temos de mostrar admiração a Marco Bellocchio por nos ter proporcionado tal feito interpretativo.

O Traidor, em análise
o traidor

Movie title: Il traditore

Date published: 2019-11-02

Director(s): Marco Bellocchio

Actor(s): Pierfrancesco Favino, Maria Fernanda Cândido, Luigi Lo Cascio, Fausto Russo Alesi, Fabrizio Ferracane, Bruno Cariello

Genre: Biografia, Crime, Drama, 2019, 145 min

  • Cláudio Alves - 65
  • José Vieira Mendes - 70
68

CONCLUSÃO:

“O Traidor” é uma cinebiografia com a ambição de um épico, mas a dimensão dramática de um íntimo estudo de personagem. Ancorado por uma grande performance, o filme de Marco Bellocchio tanto fascina como aborrece, tendo alguns picos de glória formal metidos pelo meio.

O MELHOR: Pierfrancesco Favino e o acidente de carro.

O PIOR: A conceção visualmente anódina dos muitos diálogos. “O Traidor” brilha mais quando deixa que o maximalismo da sua premissa informe as escolhas formais. Quando o excesso é substituído por contenção sóbria, o resultado desinspira e aborrece.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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