Três Recordações da Minha Juventude, em análise

 

Três Recordações da minha Juventude é um maravilhoso projeto sobre essa etapa da vida, e que serve de prequela ao filme Comment je me suis disputé, do mesmo realizador, o francês Artaud Desplechin. 

A primeira coisa que lhe vem à cabeça quando vê que um filme com este título, tão revelador e tão banal, é que à partida não lhe trará nada de novo. Contudo e, muito surpreendentemente, Três Recordações da minha Juventude revela-se uma lufada de ar fresco made in Europe, em contraciclo com mainstream à la Hollywood. Realizado pelo cineasta francês Artaud Desplechin, reconhecido internacionalmente pelo seu Jimmy P: Realidade e Sonho (protagonizado por Benicio del Toro), este projeto, além dum exercício sobre a importância do flashback, desenvolve um retrato intimista e profundo das suas personagens.

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Paul Dedalus (interpretado por Mathieu Amalric quando adulto) é um antropólogo que decide regressar à França, o seu país natal, depois de uma demorada investigação para o seu governo na Rússia. De imediato e enquanto conversa com um agente dos serviços secretos franceses, Paul relembra os momentos marcantes da sua vida, três recordações que não são mais do que três episódios que o tornaram naquilo que é hoje, um homem um quanto depressivo e a caminho da meia-idade.

Três Recordações da minha juventude

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O primeiro episódio, o mais curto, remete para a sua ‘Infância’, para os dias em que tentava lidar com a ausência do pai e com os delírios mentais da sua mãe. Percebemos portanto que Paul foi obrigado a crescer à força, sendo também o mais velho de três irmãos (o filme recorre muitas vezes ao “trio”). Ora, este episódio desenrola-se sem demora pois é aquele de que o protagonista menos gosta de falar, apenas com algum enfoque sobre uma tia-avó (Francoise Lebrun), que leva uma vida à frente do seu tempo. Já o segundo, ‘Rússia’, somos colocados num thriller de espiões, ao estilo do mais recente filme de Steven Spielberg. Nele descobrimos que Paul tem um irmão gémeo, duplo da mesma idade, alguém a quem entregou o seu passaporte para ajudar a fugir da zona. Estamos, nem mais nem menos, que em pleno período da Guerra Fria e a tensão é também sentida por quem está do lado de cá.

Três Recordações da Minha Juventude

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Em relação ao terceiro, o mais longo, ‘Esther’, que é também o nome da rapariga com quem descobre o primeiro amor. A linda Esther (Lou Roy-Lecollinet, que tem os mesmos traços que Léa Seydoux), é uma jovem de 16 anos, a miúda mais popular da turma, que ainda não descobriu o seu príncipe encantado. Apesar disso, é também frágil e ambígua. De facto, é no relacionamento entre Paul e Esther que o enredo se foca maioritariamente. Foi ela que o tornou no homem que é hoje, foi nas atitudes para com ela que Paul tornou-se mais maduro, decidindo deixar para trás a sua terra, em busca da realização dos seus sonhos na grande cidade, mesmo assim, ainda não conseguiu superar os seus traumas.

A certo ponto, a narrativa readapta-se, sem mudar o rumo da história porque o seu desfecho é claramente inevitável, mas ocorre uma mudança na estética cinematográfica. Por exemplo, aquando da troca de correspondência entre os amantes, estes olham diretamente para a câmara (rompem a quarta parede), logo fazendo questionar o espetador. Tudo isso não seria possível sem o trabalho de fotografia de Irina Lubtchansky, nomeada ao César na mesma categoria e do realizador, vencedor desse troféu. A câmara está em pleno movimento, tal como a vida da personagem principal e a de todos nós.

Três Recordações da Minha Juventude

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Em tom lírico, percebemos as intenções do cineasta, que preocupa-se com que as interpretações de Quentin Dolmaire e Lou Roy-Lecollinet sejam mais dinâmicas e pouco inseguras. Pesa uma procura por um trabalho de construção/desconstrução da memória e do eu interior, algo que perpassa ao mencionar pontualmente os dramas da juventude rebelde dos anos 80 (assistimos à queda do Muro de Berlim, expoente do rompimento com a infância), justificados pelo erros do passado, pelas angústias de uma outra juventude, a dos anos 60, que reflete a dos seus pais. É um trabalho constante de voltar atrás no tempo e perceber que tudo tem um porquê.

Enfim, Três Recordações da Minha Juventude é um excelente filme dentro do panorama europeu e que merece ser descoberto, invocando uma vez mais um passado que desliza entre os nossos dedos, sem nunca abandonar verdadeiramente o presente.

O MELHOR – As interpretações densas dos estreantes Quentin Dolmaire (de 22 anos) e  Lou Roy-Lecollinet (de 19 anos), novas estrelas a prestar atenção.

O PIOR – Queremos sempre mais das personagens, mas para isso temos o anterior Comment je me suis disputé (1996), também dirigido por Desplechin.

 


Título Original: Trois souvenirs de ma jeunesse
Realizador:  Artaud Desplechin
Elenco: Quentin Dolmaire, Lou Roy-Lecollinet e Mathieu Amalric 
NOS | Drama | 2015 | 123 min

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VJ

 

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