Uma Mulher Não Chora

Uma Mulher Não Chora, em análise

Em “Uma Mulher Não Chora”, Diane Kruger dá tudo o que vale e Fatih Akin leva um discurso anti xenófobo a epítetos de emoção e sensacionalismo que ainda lhe poderão valer um Óscar da Academia.

uma mulher nao chora in the fade critica

Na conjetura política atual, onde movimentos nacionalistas estão a ganhar cada vez mais popularidade e onde os nazis são novamente uma ameaça palpável, o mais recente filme do cineasta alemão Fatih Akin não podia ser mais relevante ou os seus temas mais urgentes. “Uma Mulher Não Chora” é a história de Katja, uma mulher alemã que perde o marido e filho num atentado perpetrado por neonazis e motivado pela etnia turca do pai e esposo em questão. Essa, pelo menos, é a primeira parte do filme, sendo esta uma história tripartida. Primeiro, temos um retrato da dor imediata da perda. De seguida, o capítulo do meio toma a forma de um drama judicial onde os assassinos são julgados. Finalmente, a terceira e última parte da narrativa toma a forma de um thriller de vingança.

Akin, por muito que seja um nome habitual do circuito dos festivais, nunca foi um realizador cujo estilo se distancia de modo considerável do mainstream e esta obra é a manifestação máxima de tal dinâmica. Há, na sua abordagem, uma clara vontade de se render, quase celebrar, as convenções de três géneros diferentes o que simultaneamente torna esta obra numa mostra de formalidade um tanto ou quanto perfuntória, como numa experiência com o seu quê de divertido. Tal divertimento é somente presente a nível de construção técnica, permitindo a cinéfilos apreciar os códigos visuais que regem, por exemplo, como um ator é filmado de um modo quando é o herói de um thriller em comparação ao seu tratamento formalista quando é o centro de um drama humano sobre perda e trauma.

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Somente os prólogos de cada uma das secções, executados num estilo que referencia vídeos domésticos, mostram algum tipo de criatividade e palpável investimento estilístico da parte de Akin. Aí, atores, texto e ritmo de câmara e montagem oferecem ao espetador uma maravilhosa síntese de felicidade familiar, como que rasgos de memória, tão confortantes como dolorosos para quem tem de a sentir em parelha com a certeza que tais epítetos de contentamento doméstico foram roubados por terroristas xenófobos. A construção destes momentos, só por si, galvaniza a emoção do espetador sem recorrer em demasia ao sensacionalismo desavergonhado do texto que, não obstante a sua relevância política e claras mostras de indignação social, podia sofrer algumas edições e uma boa dose de acrescida nuance e subtileza.

Com tudo isso dito, é deveras impossível negar o impacto emocional desta obra. Tal dever-se-á parcialmente à entendível proximidade que Akin, um homem de origem turca que se tem vindo a tornar uma das principais vozes do cinema alemão atual, para com o material da sua tragédia germânica. No entanto, ainda mais responsável pelo sucesso do filme é Diane Kruger que dá vida a Katja e faz com que todas as partes do mecanismo fílmico de “Uma Mulher Não Chora” funcionem com muito mais coerência e efetividade do que os esforços formais e textuais de Akin sugerem. A atriz é muito conhecida pelos seus trabalhos em Hollywood, mas, infelizmente, é rara a produção americana capaz de usar os seus talentos dramáticos para o que quer que seja.

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Por isso mesmo, Kruger continua a surpreender sempre que alguém lhe dá oportunidade de fincar os dentes num bom papel como Katja. Nesta rendição de corpo e alma às exigências do filme, Kruger como que vai trespassando não só a ferocidade emocional da personagem como também a sede de uma atriz, muitas vezes associada a prestações medíocres, provar às audiências a existência da sua própria titânica capacidade interpretativa. Tal é o feito da atriz que Katja acaba por ser uma criação bem mais complexa do que a sua génese textual, havendo sempre algo incerto e perigoso a arder nos seus olhos, mesmo quando a protagonista de “Uma Mulher Não Chora” está caída no chão aos gritos, o seu mundo em estilhaços e a dor demasiado grande para o seu ser aguentar.

O realizador certamente se apercebeu disto pois é raro o plano do filme que não inclui a presença da sua protagonista, quer seja em grande plano ou como uma distante figura em tensão no fundo das cenas de tribunal. No terceiro capítulo do filme, quando, mesmo dentro do seu modelo convencional, Akin parece começar a perder controlo do projeto e da direção temática da história a desenrolar-se, Kruger faz com que tudo funcione. O mais interessante de tudo, é que ela não alcança tal milagre salvador através de vistosas explosões telegrafadas na postura ou expressão de Katja, mas sim no ato de se conter. O vazio no olhar desta mãe enlutada em busca de vingança é a imagem mais potente do filme, a sua mais complexa e aquela que mais dá dimensão humana à crítica social e política que a obra tenta realizar.

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Enfim, é fácil entender a reação do júri oficial do Festival de Cannes que deu a Diane Kruger o seu prémio para Melhor Interpretação Feminina. Menos fácil de entender é a adoração popular generalizada que tem vindo a posicionar “Uma Mulher Não Chora” como o grande favorito na corrida ao Óscar de Melhor Filme Numa Língua Estrangeira, especialmente depois da sua vitória nos Globos de Ouro. Enquanto é justo celebrar-se o feito de Kruger e as intenções panfletárias de Akin e companhia, quando comparado com feitos cinematográficos como “Corpo e Alma” ou “Uma Mulher Fantástica”, esta tragédia tripartida da Alemanha deixa muito a desejar.

Já tiveste oportunidade de ver este filme?

Uma Mulher Não Chora, em análise
Uma Mulher Não Chora

Movie title: Aus dem Nichts

Date published: 2018-01-21

Director(s): Fatih Akin

Actor(s): Diane Kruger, Denis Moschitto, Numan Acar, Samia Muriel Chancrin, Johannes Krisch, Ulrich Tukur, Ulrich Brandhoff, Hanna Hilsdorf, Rafael Santana

Genre: Crime , Drama, Thriller, 2017, 106 min

  • Cláudio Alves - 65
  • José Vieira Mendes - 75
  • Daniel Rodrigues - 68
69

CONCLUSÃO

Diane Kruger dá o corpo e alma ao manifesto, injetando vida e calcinante emoção nesta mistura de tragédia, drama judicial e thriller vingativo. A realização de Fatih Akin é por vezes perfuntória, mas nunca é possível duvidar-se das boas intenções do cineasta a tentar produzir um grito fílmico contra a xenofobia no seu país.

O MELHOR: A prestação explosiva de Diane Kruger.

O PIOR: A natureza esquemática do encadeamento dramático da narrativa. Este é um filme onde é possível prever-se todos os desenvolvimentos da história e isso raramente beneficia a obra em análise.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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