10ª Festa do Cinema Italiano | Veloce come il vento, em análise

O mundo dos ralis torna-se no palco para um choroso melodrama familiar em Veloce come il vento, um dos filmes na secção Panorama da 10ª Festa do Cinema Italiano.

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Por muito que certas histórias sejam efetivamente verídicas, isso não quer dizer que a sua transposição para uma narrativa cinematográfica não resulte num filme formuláico. Afinal, até a maioria dos clichés e lugares comuns tem a sua origem num pouco de realidade. Veloce come il vento é outro desses filmes que tem por base uma história verdadeira que foi adaptada ao cinema mainstream e que, pelo caminho, se transformou num melodrama familiar previsível tanto no desenvolvimento do seu enredo como na desenvergonhada manipulação emocional do seu tom. Pelo menos, os cineastas por detrás deste filme inspirado na vida do piloto de rali Carlo Capone não têm grandes pretensões de estarem a apresentar um sério docudrama biográfico.

De facto, apenas quem conheça a história de Capone ou se tenha familiarizado com a origem deste projeto específico, poderá perceber, com alguma certeza, as ligações entre a ficção e a realidade desta história. Como apresentada em Veloce como il vento, esta a trama de uma família de pilotos de rali que há muito foi fraturada por negligências e vícios. Quando conhecemos as personagens, Giulia De Martino é uma automobilista adolescente cujo pai tudo investiu no seu sucesso desportivo. Infelizmente, na abertura do filme, testemunhamos a morte do patriarca e a jovem depara-se com uma situação desesperante. Com uma mãe ausente que há mais de uma década não mostra a cara, um irmão mais novo aos seus cuidados e uma casa em perigo de ser penhorada, ela vê os seus piores pesadelos tornarem-se realidade quando Loris, o seu irmão mais velho toxicodependente, aparece para o funeral.

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A presença do drogado acaba por ser uma mistura de bênção e catástrofe, sendo que a sua presença como guardião do irmão mais novo, que ele nunca conheceu, acaba por prevenir que a criança seja levada pelo Estado. Assim, Giulia acolhe Loris e a sua namorada, ao mesmo tempo que tenta continuar com a sua carreira automobilística. O seu empenho não é mera ambição ou hubris, mas sim uma desesperada tentativa de assegurar estabilidade financeira para a sua família e assim manter a casa. Como não podia deixar de ser, Loris, que em tempos foi um piloto de impor respeito, acaba por se imiscuir nas proezas da irmã e concorda em ser seu treinador. Infelizmente para Giulia, o seu irmão mais velho não prima pela estabilidade e os seus comportamentos depressa põem em risco a salvação da família.

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Depois desta descrição, seria desculpável que qualquer pessoa supusesse que Veloce come il vento é a história de Giulia, mas a verdade é bem diferente. Superficialmente, o enredo parece privilegiar o conflito da jovem como seu principal elemento dramático, mas, pelo meio do filme de duas horas, torna-se bem claro que a sua função narrativa é meramente a de possibilitar a história de redenção do seu irmão. Loris é quem realmente detém o interesse dos cineastas e, pela sua parte, o realizador e argumentista Matteo Rovere está disposto a sacrificar tudo e todos em nome do seu vistoso retrato de personagem.

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Não há outra explicação possível para o desempenho híper vistoso de Stefano Accorsi. Se isto se tratasse de um filme americano com atores anglófonos, muitos já o teriam acusado de estar à caça do Óscar, tal é a sua monumental montanha de tiques e trejeitos, sua fisicalidade frenética impossível de ignorar ou a sua grotesca transformação física em que o ator, relativamente famoso no seu país, apaga qualquer traço do seu usual charme de estrela de matiné e se converte numa gárgula de toxicodependência caricaturada. O empenho de Accorsi é admirável e seria uma mentira afirmar que não existe prazer na observação do seu espetáculo interpretativo, mas a sua intensidade é opressiva. Quando ele está em cena, é como se sugasse todo o ar da sala, asfixiando-nos com a sua magnitude e deixando os seus colegas de cena sem espaço de manobra.

Como Giulia, a jovem Matilda De Angelis tem o desafio de ser a coprotagonista capaz de partilhar o filme com Accorsi e falha redondamente. Não é que o seu desempenho seja terrível mas, ao lado do ator que interpreta seu irmão, é quase impossível prestar atenção ao seu trabalho e, como consequência, a personagem que deveria ser a âncora emocional do filme perde quase todo o seu poder e passa a ser pouco mais que um mecanismo para o melodrama. Pelo menos não lhe acontece o mesmo que a Roberta Mattei como a namorada de Loris. Essa sim é uma atriz que o filme trata como pouco mais que um adereço para motivar o desenvolvimento do seu adorado anti-herói, cujos monstruosos atos de egoísmo são raramente examinados com a seriedade que merecem.

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Apesar de tudo isto, Veloce come il vento não é um filme sem méritos e é justo dizer que, como uma peça de puro entretenimento populista, há muito prazer a ser tirado da experiência. O melhor de tudo é, sem dúvida, as cenas dominadas pelos ralis que foram aqui concretizados sem o auxílio de ilusórios efeitos especiais. Há uma potente fisicalidade nestes momentos de ação e a toda a formalidade envolvente sublinha a energia sensorial em questão. A sonoplastia e a montagem, em particular, são soberbas na sua apresentação do cocktail de adrenalina que estas corridas são, tanto para o espetador passivo como para os condutores que arriscam as suas vidas.

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No final, este é um filme de prazeres simples mas potentes que é melhor apreciado com o cérebro parcialmente desligado. Mesmo quando podemos querer revirar os olhos às tentativas descaradas do realizador espremer algumas lágrimas dos olhos do seu público, há algo de charmoso na sinceridade emocional do projeto, no seu melodrama familiar que, como tinha de ser, tem um final feliz e catártico depois de todos os obstáculos. Veloce come il vento, apesar de uma certa pátina de pseudo realismo italiano é um conto-de-fadas moralista sobre amor fraternal que consegue romper barreiras e subverter as expetativas de todo o mundo.

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O MELHOR: Os ribombantes efeitos sonoros nas cenas de rali.

O PIOR: Os desequilíbrios textuais no que diz respeito ao desenvolvimento de todas as personagens que não Loris.



Título Original:
Veloce come il vento
Realizador:
Matteo Rovere
Elenco:
Stefano Accorsi, Matilda De Angelis, Lorenzo Gioielli, Paolo Graziosi
Drama, Desporto| 2016 | 118 min

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CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

3 thoughts on “10ª Festa do Cinema Italiano | Veloce come il vento, em análise

  • Acho que a crítica tem muitas contradições em si mesma. Tanto arrasa e ridiculariza a prestação do actor principal como logo depois a enaltece. O mesmo sucede com o filme por inteiro que tanto é menosprezado pelas suas “falhas” como é simultaneamente elogiado pelas suas virtudes. Ademais uma observação como a que foi feita, a de que o filme “é melhor apreciado com o cérebro parcialmente desligado”, é injusta e adequa-se melhor a um filme como Velocidade Furiosa 8 (e todos os outros da saga) do que a este.

  • Primeiramente, muito obrigado pelo feedback.
    Em relação às aparentes contradições da análise, peço desculpa pela confusão. No entanto, na tentativa de uma análise justa não costumo referir-me somente aos aspetos, ora positivos, ora negativos de um certo filme. Daí que simultaneamente elogie as virtudes de uma obra e a menospreze pelas suas fragilidades.
    O mesmo se aplica à prestação do ator principal. Neste caso, temos um espetáculo vistoso, talvez um pouco exagerado, de virtuosismos técnicos, um desempenho transformativo que tem considerável valor quando visto num vácuo. No entanto, como tentei esclarecer na análise, dentro do contexto do filme, as suas escolhas interpretativas prejudicam a experiência geral, criando desequilíbrios tonais e de foco narrativo, entre outros problemas. Assim, o seu trabalho pode ser admirável mas, simultaneamente, uma fragilidade do seu filme.
    No final, todas as críticas são uma opinião individual que, idealmente, estará argumentada e defendida, pelo que a injustiça da minha afirmação sobre o cérebro desligado dependerá do modo como cada um apreciar o filme em questão. Para mim, não é injusta.
    Volto a agradecer o comentário e peço desculpa se ficou descontente com a análise.

  • Muito obrigada pela atenção que deu ao meu comentário. Compreendo a sua explicação. Eu estive presente na visualização do filme no Festival e confesso que o apreciei bastante. Acho que o argumentista deu uma tónica muito forte no carácter cómico da personagem do Loris e por isso talvez lhe dê a sensação de que o transformaram em algo próximo de uma caricatura. Para mim acabou por ser um trunfo. Penso que o filme complementa bem a arte com o entretenimento. Mas claro que todas as opiniões e percepções de um trabalho artístico são muito subjectivas por isso é importante podermos cultivar um debate, acima de tudo saudável e enriquecedor. Cumprimentos.

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