Vencer a Qualquer Preço, em análise

Em Vencer A Qualquer Preço, Ben Foster tem uma das melhores prestações da sua carreira no papel de Lance Armstrong, a mais controversa figura no mundo do ciclismo.

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Desde a formação do que hoje conhecemos como Hollywood, que o docudrama biográfico tem sido uma constante presença nas salas de cinema. Com o advento dos Óscares, que tanto adoram honrar trabalhos de mímica vistosa, essa presença ainda se veio a tornar mais opressiva e, chegados aos dias de hoje, esse subgénero cinematográfico é um poço de falta de originalidade e desinspiração. Isso não implica que não haja grandes filmes biográficos, mas, afinal, é a exceção que confirma a regra e, infelizmente para nós, a mediocridade banal é muito mais comum entre produções biográficas que qualquer tipo de valor ou mérito artístico.

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Vencer a Qualquer Preço é mais uma vítima da doença do docudrama biográfico, e padece de uma das vertentes mais atuais dessa virulenta maladia. Se durante décadas uma abordagem direta, linear e singularmente focada era a norma, recentemente parece que Hollywood decidiu que a melhor maneira de energizar um tradicional docudrama é pegar na sua narrativa e reformulá-la de tal modo que o resultado final é uma colagem ensandecida de momentos chave, muitas vezes fora de ordem cronológica. Na ausência de verdadeira inspiração, mais vale fazer uma cópia superficial do que, nas mãos de verdadeiros artistas, teve real sucesso, certo? Pelo menos é o que os grandes produtores deste tipo de cinema devem pensar.

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Resumidamente, Vencer a Qualquer Preço conta duas histórias paralelas, a de Lance Armstrong, sua meteórica ascensão no panorama do ciclismo competitivo internacional e sua eventual queda em desgraça devido à descoberta de um enorme esquema de doping; e a de David Walsh, um jornalista que, durante anos, investigou Armstrong, apesar do escárnio e desaprovação dos seus colegas no mundo jornalístico. Cada uma destas linhas narrativas é apresentada maioritariamente numa sucessão de momentos historicamente importantes, sem grande espaço para respirar entre as explosões de informação e os saltos temporais, ou grande margem de manobra para se ponderar as complexidades dos eventos em questão.

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O resultado desta abordagem é que o filme é uma experiência fortemente superficial, que nunca tenta explorar a psicologia do seu sujeito ou as reais repercussões das suas ações no mundo em seu redor. Facilmente teríamos um efeito semelhante se víssemos uma compilação de filmagens de arquivo e entrevistas, mas, como já apontámos, vácua superficialidade é a norma do cinema biográfico. É mais fácil apenas retratar o que as pessoas conhecem, é mais fácil estruturar um filme como uma coleção dos “best hits” na vida de uma pessoa do que tentar construir uma estrutura dramática eficiente, é mais fácil confirmar o que as audiências já pensam do que as desafiar com uma nova perspetiva ou com desconfortável dissecação ou introspeção das personalidades envolvidas numa história deste calibre. Basicamente, este é um filme de facilitismos, mas isso não quer dizer que não tenha os seus pontos fortes.

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No entanto, quando se fala dos pontos fortes de Vencer A Qualquer Preço, fala-se apenas de um elemento: Ben Foster. A prestação do ator no papel de Armstrong é uma maravilha de proporções cataclísmicas, que rasga a mediocridade do restante filme com uma fúria devastadora. Foster pode estar encurralado pelos limites impostos pela abordagem banal que o texto faz do seu principal sujeito, mas o ator pega na superficialidade do projeto e constrói a partir dela um retrato assustador de um homem que, mais do que um ser humano com quem podemos empatizar, é uma montanha de barreiras e arrogantes fachadas. Como o seu filme se recusa a realmente perguntar quem foi esta pessoa, Foster recusa-se a responder. Ele faz dessa recusa a principal força motriz por detrás do seu trabalho e, efetivamente, por detrás de todo o filme.

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Tirando o trabalho de Foster, pouco há que se aproveite em Vencer A Qualquer Preço, mas o trabalho do protagonista é justificação total para o preço do bilhete de cinema. Ver o filme, é observar a luta entre um ator, mais conhecido por papéis secundários, a fincar os seus dentes num dos papéis mais carnudos da sua carreira, sem se deixar esmagar pelo resto do projeto. A montagem e a estrutura textual são um pesadelo de saltos temporais que roubam a Foster a hipótese de realmente criar um desenvolvimento orgânico da sua personagem, mas ele compensa essa fragilidade. A fotografia é desinspirada ou então, completamente desastrosa quando tenta injetar um toque de realismo documental, mas Foster consegue exorcizar essas mágoas com a sua intensidade. A direção de Frears parece ser o produto de um robot ou alien que aprendeu a fazer filmes a partir do visionamento exclusivo de biografias nomeadas a Óscares, mas Foster consegue subverter o desinteresse ou displicência do seu realizador.

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Para fãs de Foster este é, basicamente, o Santo Graal, para pessoas que procurem uma concisa e reveladora examinação da figura de Lance Armstrong e o seu triste legado no mundo das competições desportivas internacionais, é melhor procurarem um documentário como Stop at Nothing, The Armstrong Lie ou The Road Ahead. Para fãs de cinema em si, não como simples distribuidor de informação factual ou gravação do trabalho genial de um ator, então Vencer a Qualquer Preço é um filme que apenas poderá trazer frustração, desilusão e indignação. Talvez apenas nisso, o filme tenha, em parte, capturado o modo como a figura de Lance Armstrong, suas mentiras e falsidades se têm evidenciado e influenciado a esfera da opinião pública contemporânea face ao doping no mundo do desporto.

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O MELHOR: Ben Foster!

O PIOR: Tudo o que não é Ben Foster ou, se formos particularmente generosos, tudo o que não é o elenco principal. Chris O’Dowd e Jesse Plemons podem não ser particularmente reveladores, mas os seus esforços, nos papéis de David Walsh e Floyd Landis, não merecem o escárnio reservado à execução formal e textual de Vencer a Qualquer Preço.


 

Título Original: The Program
Realizador:  Stephen Frears
Elenco: Ben Foster, Chris O’Dowd, Guillaume Canet, Jesse Plemons
NOS | Drama, Biografia, Desporto | 2015 | 103 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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