"Em Bruges" | © Focus Features

Veneza em Casa | Em Bruges

“The Banshees of Inisherin” marca o regresso de Colin Farrell e Brendan Gleeson ao cinema de Martin McDonagh. O cineasta irlandês volta este ano ao Festival de Veneza com o novo filme. Outrora, esta mesma equipa trabalhou numa belíssima comédia negra sobre culpa católica em terras belgas. “Em Bruges” foi nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original e venceu o Globo de Ouro para Melhor Ator – Comédia.

Martin McDonagh começou a carreira nos palcos londrinos, trazendo dramas irlandesas à capital inglesa. O trabalho que o tornou famoso é composto por duas trilogias teatrais, ambas passadas em torno do Condado de Galway onde o jovem McDonagh passou a infância. Sua escrita caracterizava-se por rasgos de comédia negra e episódios violentos, histórias cheias de brutalidade e um jeito cínico. Tais características perduram na obra do dramaturgo, tendo transcendido os limites do teatro para chegar ao grande ecrã. De facto, segundo o próprio autor, por muito que ele respeite essa arte dos palcos, o cinema é sua máxima paixão.

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A transição de um meio para o outro deu-se em 2004, quando McDonagh escreveu e realizou uma curta-metragem intitulada “Six Shooter,” sobre o pior dia na vida de um homem irlandês de meia-idade. Tão hilariante quanto perturbador, esse primeiro esforço cinematográfico valeu-lhe uma nomeação para os Óscares e, eventualmente, uma vitória. Estavam os dados lançados para uma invejável carreira enquanto cineasta, mesmo com ocasionais regressos ao teatro. De forma geral, o maior sucesso fílmico de McDonagh será o “Três Cartazes à Beira da Estrada,” vencedor de inúmeros prémios inclusive galardões para Melhor Atriz e Melhor Ator Secundário.

No entanto, diríamos que há um título superior a esse na filmografia do realizador. “Em Bruges” marcou a estreia de McDonagh no panorama da longa-metragem e é, verdade seja dita, o seu trabalho mais completo e perfeito até hoje. A história, como sempre, é violenta e manchada por muito sangue, ideias de justiça num paradigma católico, culpa e retribuição, castigo também. Não que tais dimensões sejam aparentes desde início. “Em Bruges” começa como uma espécie de postal sardónico, divagando pelas ruas da cidade belga em apreciação da sua beleza. Uma apreciação muito irónica, considerando quanto a tensão entre o cenário e os protagonistas não podia ser maior.

Interpretados por Colin Farrell e Brendan Gleason, Ray e Ken são dois gangsters irlandeses que passam os dias em Bruges sob ordens superiores. Enquanto o homem mais velho cai na indolência do turismo, insistindo em gozar a estadia num tom de teimosa alegria, o jovem é um poço sem fim de queixas e palavrões. Há uma qualidade cómica neste duo, algo que faz lembrar outras parelhas icónicas do cinema e seus estudos de contrastes. Contudo, as disposições antagónicas dos homens não escondem a camaradagem, nem ofuscam o afeto paternalista de Ken para com Ray. Também a raiva do miúdo se revela multifacetada, uma permutação do remorso mais do que má educação.

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Acontece que, num dos seus primeiros trabalhos no mundo do crime, Ray foi contratado como hitman para assassinar um padre. Em flashback, vemos o sucedido, como a missão correu mal e, por puro acidente, uma das balas acabou por atingir um menino inocente. Mesmo os maiores carniceiros do crime organizado têm regras e códigos morais, sendo que o homicídio de crianças é estritamente proibido. Não obstante a intenção do assassino, seu transtorno perante o acidente, as leis basilares dos gangsters têm que ser obedecidas. Numa chamada para com Harry, o patrão dos exilados irlandeses, Ken é informado que tem de executar o amigo.

Inicialmente, parece que o hitman veterano vai cumprir a ordem. Só que, quando se prepara para puxar o gatilho, confrontamo-nos com uma ironia cruel – o próprio Ray tem uma arma e prepara-se para pôr fim à vida. Num píncaro de humanidade, faz-se a partilha de perdão, uma mostra de generosidade e simpatia que parecem um oásis neste deserto de degredo humano. É evidente, contudo, que “Em Bruges” não é um conto assim tão simples, pronto a terminar numa conclusão tão unilateralmente positiva, até sentimental. Ao invés, a segunda metade do filme torna-se numa perseguição de gato e rato, com Harry pronto a fazer vingar a sua justiça sangrenta.

O filme assim vai ganhando foco à medida que avança, uma estrutura de afunilamento que também vai transfigurando as tonalidades de género. Da comédia à tragédia, “Em Bruges” é assim um triunfo tragicómico sustentado pelo argumento ardiloso e um elenco superlativo. Farrell tem aqui um dos grandes desempenhos da carreira, navegando os muitos registos do filme em forma magistral. Em atos primeiros, todo ele é um ícone de descontentamento, profanando a torto e a direito e caindo em interlúdios cheios de drogas, sexo, e anões racistas. Mas então, as profundezas psicológicas entram em jogo.

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Se Farrell é toda uma explosão emotiva, Brendan Gleeson é o seu contraposto constante, dando leveza a esta intriga homicida e o peso da idade, da sabedoria ganha ao longo de muitas desgraças e inimaginável sofrimento. O fado de Ken acaba por ser a grande motivação dos movimentos derradeiros da fita, um toque de devastação que pinta uma sombra escura sobre qualquer semblante de um final feliz. Ralph Fiennes completa o trio principal como Harry, levando a personagem aos extremos da estilização dentro do estilo interpretativo preferido por McDonagh. Ou seja, ele arrisca a caricatura, mas constrói suficiente suporte psicológico para que as decisões de Harry façam tenebroso sentido. Enquanto um anjo da vingança, Fiennes é o Satã que julga a alma de Ray enquanto Ken é um Deus paternal pronto a perdoar o penitente. Como sempre no trabalho deste cineasta, o catolicismo e suas ansiedades particulares regem a realidade em cena, os suplícios, os milagres.

“Em Bruges” pode ser um pouco mais difícil de ver que os outros filmes nesta série. De momento, não se encontra disponível para streaming em território português, mas sempre há o DVD.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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  • Passa com alguma regularidade no canal AMC: hoje, dia 6, e no próximo domingo, dia 11.

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