Queer Lisboa ’20 | Vento Seco, em análise

Entre fantasias coloridas e crises melancólicas, “Vento Seco” é um belíssimo exemplo de cinema erótico a resvalar na pornografia. Esta obra do brasileiro Daniel Nolasco está na Competição de Longas-Metragens Narrativas do Queer Lisboa 24.

Pode a pornografia ser arte? Quais são os limites? São esses limites impostos pelo bom gosto, pela moralidade da sociedade ou pelo academismo das Artes? Tais questões são sempre difíceis de responder, mas é importante que sejam levantadas. Com sua rica programação, o 24º Queer Lisboa tem confrontado os espetadores com tais indagações. Já anteriormente falámos do documentário “Ask Any Buddy” e sua colagem caleidoscópica de pornografia antiga.

Agora, é altura de encarar outra proposta provocadora do festival. Referimo-nos à oeuvre de Daniel Nolasco que, este ano, tem mais do que um filme em exibição no Queer Lisboa. A primeira obra do realizador brasileiro a ser sujeita à nossa análise é uma narrativa sobre desejo com muito sexo explícito metido pelo meio. Chama-se “Vento Seco” e representa uma nova fase na carreira de Nolasco. Depois de muitas curtas e algum documentário, esta é sua inaugural longa-metragem de ficção.

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© Queer Lisboa

A ação decorre na pequena cidade de Goiás, localidade perdida numa das zonas mais áridas do Brasil. Aí, durante um verão seco sem humidade no ar, Sandro passa os dias num transe de desejos por explorar. Ele trabalha numa empresa que produz fertilizantes e perde tempo na piscina local, tentando a todo o custo oferecer refresco a um corpo a derreter com o calor. Entre a piscina e o emprego, lá se jogam partidas de futebol e se vai a uma festa ou duas.

Uma constante mantem-se em todas as facetas do dia-a-dia de Sandro- Seus olhos buscam o corpo masculino, deliciam-se com as paisagens de pele despida na piscina e os genitais escondidos por calções de nylon no campo de futebol. A fome do sexo vai sendo saciada por Ricardo, um colega de trabalho com quem o protagonista mantém uma relação que parece viver mais à base da carne do que da emoção. Em todo o caso, não obstante a excitação acumulada, trata-se de uma existência pacata. É um verão corriqueiro.

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Pelo menos, assim é antes da aparição de um misterioso homem na vida de Sandro. Ele é Maicon e parece a encarnação viva de uma ilustração fetichista de Tom of Finland. Os apetrechos de cabedal não estão lá (ainda), mas a fisionomia masculina, os pelos e o perfil, até a atitude, tudo isso existe nesse ser que é Maicon. Pouco ou nada se sabe sobre ele e, ao longo da narrativa, não somos elucidados sobre suas origens. O que sabemos é que sua presença desperta novas fantasias em Santos e é dessa tensão sexual que “Vento Seco” é feito.

Qual porno gay filtrado pelo surrealismo cinematográfico de David Lynch, este sonho de Daniel Nolasco precipitasse em devaneios eróticos que tanto seduzem como confundem. Há sexo filmado sem pudor e sem simulação, um labirinto orgiástico que tanto resvala no espetáculo carnal como para uma tonalidade mais soturna e introspetiva. Pode parecer meio doido dizer tal coisa, mas, pelo meio da pornografia, Nolasco delineia um astuto estudo de personagem sobre um homem à procura de algo que não tem, mas cuja falta é bem sentida.

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© Queer Lisboa

Se esse algo é Maicon, a ação política ou um propósito espiritual maior fica ao critério do espetador. Uma coisa é certa, o ciúme nunca resolve nada e a agressão muito menos – a não ser, é claro, quando existe em teatro consentido de domínio e submissão. No fim, nada melhor que escolher o amor e o prazer a qualquer drama da psique, terminando esta odisseia com uma ménage à trois no chão e na poeira, onde pele suada se torna em bronze e o ato sexual se torna em estatuária viva. Em tons néones e um ritmo ponderado, “Vento Seco” é daqueles filmes que funciona mais como hipnose do que como drama, um sussurro maroto no ouvido da audiência que prefere a rendição hedonista ao esforço intelectual.

Vento Seco, em análise
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Movie title: Vento Seco

Date published: 23 de September de 2020

Director(s): Daniel Nolasco

Actor(s): Leandro Faria Lelo, Allan Jacinto Santana, Renata Carvalho, Rafael Teóphilo, Del Neto, Larissa Sisterolli, Marcello D'Avilla, Leo Moreira Sá, Mel Gonçalves, Conrado Helt

Genre: Drama, 2020, 110 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Ereções pintadas com luz escarlate e ejaculações tornadas em ritual alucinatório – essas são algumas das visões cinematográficas que “Vento Seco” oferece. Este drama existencial de Daniel Nolasco questiona o que separa o cinema prestigioso dos festivais e a experiência visceral do porno.

O MELHOR: A fotografia de Larry Machado é sublime. Mesmo quem considere este filme como uma pornografia sem mérito artístico terá que reconhecer a beleza pictórica das luzes coloridas e composições estudadas.

O PIOR: “Vento Seco” é catastroficamente longo. Tudo o que o filme diz podia ser dito numa hora ou menos. Infelizmente, a obra final tem 110 minutos de duração.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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