New Order no Vodafone Paredes de Coura 2019 (foto de Margarida Ribeiro)

Vodafone Paredes de Coura 2019 | Com os New Order reuniu-se o festival

Se os New Order ultrapassaram qualquer expectativa e reinaram na segunda noite, os Car Seat Headrest foram responsáveis pelo melhor crowd surfing que passou pelo festival. 

O segundo dia do Vodafone Paredes de Coura começou calmo, foi preciso chegar à noite para que os Car Seat Headrest e os New Order nos proporcionassem dois concertos daqueles que ficarão para a vida.

O SEGUNDO DIA DE FESTIVAL COMEÇOU NO PALCO VODAFONE.FM

Cave Story no Vodafone Paredes de Coura, 15 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD)

O segundo dia de festival prometia obrigar a uma maior deslocação e aproveitamento do tempo, com os dois palcos agora em pleno funcionamento. Começámos com os Cave Story no palco Vodafone fm. Éramos poucos e dispersos, mas a banda nem pareceu notar. O baterista embrenhado num ritmo frenético, não nos encarava. Entre pujantes malhas de guitarra, a voz de Gonçalo Formiga quase se perdia. Com as sobrancelhas sempre fletidas e olhar longínquo, o vocalista nem reparou na gradual quantidade de pessoas que se ia reunindo para saborear um pouco daquele rock feroz. Era ainda o início do dia de festival, o som dos Cave Story já se apoderava de uma boa parte do recinto, atraindo, assim, público que encarou a atuação como um bom aperitivo para o dia que tinha pela frente.

Stella Donnelly no Vodafone Paredes de Coura, 15 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD)

A banda das Caldas da Rainha entregou o palco Vodafone.fm a Stella Donnelly, que se juntou ao cartaz deste ano, em cima da hora, para substituir Julien Baker. Nem toda a plateia que esperava a artista australiana no palco secundário a conhecia bem, mas a verdade é que ainda estávamos no teste de som e já Stella Donnely suscitara grande estima na plateia. Pequenina e esguia, a presença em palco de Stella era descontraída e despretensiosa. Agradecia as palmas com que a felicitavam, contáva-nos histórias que contextualizavam e completavam as suas canções e fazia um público bastante néscio da maior parte do seu trabalho aderir às danças que propunha. Mesmo cantando sem a ajuda da plateia, era sempre brindada com um aplauso efusivo.

Na primeira parte do concerto, Stella confrontou a plateia sozinha, cantando os temas mais antigos. Quando a banda entrou, o concerto animou-se com a chegada das faixas de Beware Of The Dogs. Apesar de crescente, a simpatia que o público ia nutrindo pela artista não foi suficiente para fazer do concerto um dos melhores. Com a excepção de uma rapariga na fila da frente que lhe berrava de volta algumas das canções, Stella Donnelly estava perante uma plateia ignorante, bastante estática, apesar do esforço que fazia para a acompanhar. Não faltando embora boa vontade de ambas as partes, a verdade é que o concerto nunca atingiu aquele ponto de união e natural consonância entre artista e plateia. Mesmo assim, não deixou de ser reconfortante associar as irónicas letras das suas canções àquela jovem e divertida artista. Ficamos à espera de mais, não da cantora mas do público. Quem sabe talvez a voltemos a ver num futuro próximo, com uma audiência mais a par do seu trabalho.

O FINAL DA TARDE FOI PASSADO COM UM SOM DE OUTRO MUNDO

Khruangbin no Vodafone Paredes de Coura, 15 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD)

Entretanto o palco principal emitia uma sonoridade que percorria os campos esverdeados, chegava até nós e quase nos arrastava até lá. Eram os KHRUANGBIN. No palco, a baixista Laura Lee, o guitarrista Mark Speer e o baterista Donald Ray “DJ” Johnson JR eram os autores deste som tão cativante, uma mistura de rock e soul, maioritariamente instrumental, tão apelativa quanto exótica. A própria banda tinha também o seu quê de excentricidade. Lá atrás o baterista vestia um poncho, cá à frente o guitarrista, com uma correia de guitarra de padrões tailandeses, ostentava uma franja que lhe cobria os olhos. Já a baixista, sempre sorridente, empregava um colorido vestido que ondulava à passagem da aragem de final de tarde. Hipnotizadas por aquela sonoridade exótica e vibrante, as pessoas estendiam-se na relva, subiam aos montes laterais para avistar o cenário completo e havia também um grupo que, absorvido, se colava às grades numa dança ininterrupta.

OS ALVVAYS DERAM-NOS BASTANTE, MAS NÓS QUERÍAMOS MAIS

Agora já no Vodafone, chegava a vez dos Alvvays. Com apenas dois álbuns a banda originária do Canadá já conquistou uma plateia de fãs suficientemente grande para formar uma pequena multidão em pé, que os esperava entusiasticamente. Não havia dúvidas de que a figura principal era Molly Rankin. Pequena, com um tom de pele naturalmente branco, envergava calças e T-shirt também brancas, sobressaindo apenas os óculos de sol de lentes amarelas, através das quais avultavam os seus olhos com uma expressão autoritária. Mal entraram em palco os restantes membros da banda, deu-se início a “Hey”. Ao longo do concerto surgiram vários temas do álbum homónimo mas foram as faixas de Antisocialites que nos fizeram dançar efusivamente, enquanto acompanhávamos a voz de Molly em “Dreams Tonite” ou “Forget about Life”.

Para aqueles que dominam bem as várias canções que os Alvvays foram discorrendo não deixou de ser um momento divertido, de dança constante. Mas nem para esses mesmos fãs atingiu o concerto as expectativas. Talvez por se tratar do último da digressão, os Alvvays deixaram-se levar pelo cansaço. Molly soou fria ao microfone, com os seus gritados “obrigada!”. A única interação com o público foi constrangedora porque o pouco que se percebia do que estava a dizer levou-a a duvidar de se nós a entendíamos. Abandonaram o palco como tinham entrado, ténues. Quanto a nós, tocaram todas as faixas que poderíamos desejar, não nos podemos queixar. Cá em baixo, dançando e cantando, aproveitámos o melhor possível. Pela parte deles, cumprindo o calendário, terminaram a digressão. Dando-nos os Alvvys o que têm de melhor, ainda assim ficou a faltar qualquer coisa. Talvez as expectativas estivessem demasiado elevadas, mas não há dúvida de que ficaram aquém delas. E que mais se quer de uma banda senão que cumpra as expectativas irrealistas que suscita, superando-as?

A MELHOR PLATEIA FORMOU-SE COM OS CAR SEAT HEADREST

Car Seat Headrest no Vodafone Paredes de Coura, 15 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD)

No palco Vodafone, à frente, abundava o entusiasmo para o concerto dos Car Seat Headrest e foi dolorosa a espera que o concerto começasse, especialmente com Will Toledo a entrar e sair do palco constantemente. Quando finalmente chegou a hora, o palco escureceu e foi assim, na penumbra, que a banda apareceu. Foram uns bons minutos iniciais, com Toledo a dominar o sintetizador, enquanto a restante banda puxava pela guitarra e pela bateria, formando-se um ambiente totalmente absorvente.

Mas só quando surgiu a “Bodys”, logo em segundo lugar, explodiu a plateia. O aglomerado humano, impenetrável a quaisquer exímios furadores de multidões, tornou-se ainda mais denso. Eram saltos de dança, eram saltos de excitação, não se respirava. Reconheçamos que alguns saltos se transformaram em empurrões, que certos braços no ar acabavam por embater e entrelaçar-se uns nos outros. Mas naquele momento ninguém sentia nada. Bom, quem lá estava a guardar lugar para os Capitão Fausto não partilhava da mesma imunidade.

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A música de Toledo é um retrato da sua adolescência, grito de libertação daquele mundo real que começamos a descobrir nesse período da vida. E, em “Drunk Drivers/Killer Whales” e “Beach Life-In-Death”, unimo-nos a este grito. A calma (apetece dizer sobriedade, mas o trocadilho seria de mau gosto) só regressou com a “Sober to Death”, quando, num gesto de união, a vasta plateia ergueu os braços com as várias lanternas ligadas criando um dos pontos altos do espetáculo. Esta plateia, que, maciça, acompanhava de perto cada malha de guitarra e cantava em coro com Will Toledo, foi um dos melhores frutos do concerto dos Car Seat Headrest e, seguramente, uma das melhores do festival até à data.

PAREDES DE COURA REUNIU-SE COM OS NEW ORDER

Foi tamanha a intensidade do concerto dos Car Seat Headrest que houve algumas baixas na plateia, que acabaram por abandonar o sonho de permanecer à frente no concerto dos New Order. Por muita discussão que haja em volta dos temas que a banda escolheu tocar, não há dúvidas de que foi até agora o melhor concerto do festival. Os cabeça-de-cartaz reuniram todos os que estavam no recinto do festival àquela hora, tocando perante uma multidão que cantou e dançou com eles, estivessem à frente ou lá bem longe no topo do monte.

New Order no Vodafone Paredes de Coura, 15 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD

O que os New Order ofereceram de melhor não foi terem tocado faixas do Unknown Pleasures, numa homenagem a Ian Curtis, ou os seus clássicos “Blue Monday” e “True Faith”, entre outros. Mas sim a criação de uma incomensurável multidão que se constituiu como um todo, juntando as várias gerações numa plateia exultante à qual a própria banda se uniu. Não houve dúvidas de que a audiência do concerto era toda ela fã da banda. Tanto os temas que correspondem à vertente mais disco que os New Order têm vindo desde sempre a explorar, como os clássicos dos Joy Divison foram entoados ininterruptamente.

Bernard Sumner, homem de alma grande mesmo se vocalista de pouca glória, foi um dos impulsionadores da adesão da multidão. Interagindo com a fila da frente, fazia o público gritar de entusiasmo sempre que se aproximava da beira do palco ou de todas as vezes que, largando simplesmente a guitarra, executava alguns passos de dança. Este foi um concerto que ficará para a história do festival e para a história de cada um dos presentes.

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