Valérie Lemercier conquistou o César para Melhor Atriz com “A Voz do Amor,” uma cinebiografia bizarra sobre a vida de Céline Dion. Intitulado “Aline” no original francês, esta obra cambaleia entre paródia e sinceridade, sendo um dos projetos mais peculiares em exibição na Festa do Cinema Francês. No festival, a fita integra a programação Segunda Chance, onde filmes já estreados nas salas portuguesas são novamente exibidos num gesto que promove a reapreciação e redescoberta.
O cinema mainstream sempre teve uma predileção especial pela biografia feita entretenimento de massas. Assim é desde o princípio de Hollywood, mas, nos últimos anos, parece que este tipo de filme tem vindo a tornar-se cada vez mais comum. O mercado está saturado, tanto de cinebiografias como de mediocridade atroz, sendo que só alguns artistas parecem dispostos a desvendar as possibilidades aventurosas deste subgénero. Enfim, enquanto associações como os Óscares continuarem a premiar atores pelo jeito de imitação e os bilhetes forem vendidos, nada vai mudar.
É nesta conjetura popular, onde a falência criativa reina suprema, que Valérie Lemercier emerge enquanto uma das mais estranhas vozes no frenesim do biopic. Se não fosse o tom de embevecida sinceridade que engloba todo o projeto, diríamos mesmo que “A Voz do Amor” era uma paródia acídica cujo objetivo é evidenciar a falsidade deste cinema, seu vício do cliché e da vida comercializada. Certamente, o primeiro ato do filme remete para o surrealismo mais vil que se pode imaginar, uma banalidade retorcida pelo casting até se afigurar em forma de pesadelo.
Admitimos que chamar a isto surreal pode ser exagero, mas é essa a palavra que nos vem à cabeça quando ponderamos a atriz-realizadora na casa dos quarenta a interpretar uma versão de Aline na escola primária. Trata-se da inspiração sonhadora do esforço naïf, algo que poderia saber a incompetência não fosse a sua versão final tão deliberadamente grotesca. Mas, antes de avançarmos na descrição, quiçá seja necessário algum esclarecimento. “A Voz do Amor” retrata a vida de uma cantora chamada Aline Dieu que, em tudo menos no nome, é uma cópia exata de Céline Dion.
A biografia não autorizada é estranhamente fiel aos detalhes reais, usando a licença criativa para reforçar o absurdo estilístico mais que a insanidade narrativa. Nos seus melhores momentos, o exercício alcança uma tonalidade reminiscente do cinema de Verhoeven em Hollywood. Ou seja, transforma-se numa espécie de tratado contra a cinebiografia, uma anti-biopic que evidencia, em toda a escolha prática, uma capacidade para descobrir a pior maneira de filmar qualquer cena, desde a paixoneta adolescente à performance nos Óscares.
Assim seria porventura se Lemerciar demonstrasse qualquer capacidade para a ironia. Ao invés, ela aborda o projeto com uma veia lamechas e a atitude de um miúdo teatreiro, insuflado de entusiasmo e pouco bom-senso. Parte do problema devém de um desequilíbrio de impulsos e vontades, a tentativa de aparente sátira de mãos dadas com uma afetuosa carta de amor por parte de uma fã ao seu ídolo. Quiçá esta natureza em balanço precário e execução disfuncional pudessem resultar se a tela da artista fosse menor, se a longa fosse curta-metragem.
Uma duração decrescida poderia ajudar, por exemplo, a evitar a exaustão do espetador que, ao fim de duas horas, já pode estar cansado de ver a mesma estratégia repetida ad nauseam. Não há profundidade textual que sustente o ciclo vertiginoso e as considerações sobre Dion enquanto pessoa e personalidade pública são demasiado superficiais para fazerem a diferença. Uma predominância de cenas curtas, enfiadas entre montagens apressadas, não ajuda, causando a impressão de que nem Lemercier sabe bem o que quer dizer sobre seu sujeito. Talvez ela mesma esteja ambivalente face à cantora.
Só que a ambivalência em cinema depende de precisão para suceder, uma qualidade em falta nesta biografia que, ocasionalmente, lá é tão má que é boa, um paradoxo de genialidade cómica. No que se refere ao trabalho de Lemercier em frente às câmaras, sua caracterização de Aline Dieu é como um sketch do Saturday Night Live no melhor e pior sentido dessa expressão. Não lhe daríamos um César, mas reconhecemos o apelo estranho desta caricatura, como um holofote a brilhar sobre a futilidade da cinebiografia enquanto conceito e pesquisa psicológica. Quando se retorce em forças transgressoras, “A Voz do Amor” triunfa, mas até no fracasso é um daqueles trabalhos tão únicos que têm que ser apreciados por todo o cinéfilo. Há que ver para crer.
A Voz do Amor, em análise
Movie title: Aline
Date published: 3 de November de 2022
Director(s): Valérie Lemercier
Actor(s): Valérie Lemercier, Sylvain Marcel, Danielle Fichaud, Roc Lafortune, Antoine Vézina, Pascale Desroches, Sonia Vachon, Alain Zouvi, Marc Béland, Jean-Noël Brouté, Victoria Sio
Genre: Biografia, Comédia, Drama, 2020, 126 min
Cláudio Alves - 50
50
CONCLUSÃO:
Valérie Lemercier é Céline Dion é Aline Dieu numa das cinebiografias mais enlouquecidas da memória recente, uma caricatura paródica que conjuga amor e gozo num cocktail que pode resultar em embriaguez resvalando em loucura. “A Voz do Amor” é uma anti-biografia eufórica, tão má que é boa, tão bizarra que se torna em visionamento obrigatório.
O MELHOR: Os figurinos são um elemento que resiste à disfunção técnica e desequilíbrio de ideias.
O PIOR: A montagem rouba muito fôlego a este musical diegético, tanto no momento do êxtase da canção como na corrida pelos momentos na vida da sua heroína.
Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.