Ariana DeBose como Anita em "West Side Story" © NOS Audiovisuais / 20th Century Studios

West Side Story | Ariana DeBose em entrevista exclusiva

De Hamilton para Hollywood, Ariana DeBose brilha como a nova Anita na adaptação musical de West Side Story de Steven Spielberg.

A saltar diretamente de “Hamilton” na Broadway para Hollywood, Ariana DeBose abre-nos as portas  de “West Side Story” de Steven Spielberg, cuja estreia nas salas portuguesas acontece a 8 de dezembro. Dois anos após ter rodado o filme onde dá vida a Anita, a atriz continua fascinada pela sua personagem e, muito honestamente, com toda a experiência. É isso que nos conta numa entrevista exclusiva.

Para Ariana DeBose, que o público mainstream conhecerá do musical da Netflix “The Prom”, de Ryan Murphy, filmar West Side Story foi um momento especial, que jamais esquecerá. Participar num filme de Steven Spielberg, um dos cineastas que mais admira, foi algo que nunca pensou ser possível.

Em poucas palavras, relevou-nos como foi passar de Donna Summer para Anita, sem esquecer a sua passagem na peça Hamilton, disponível no Disney+. Ficámos também a saber que a sua paixão pela dança foi em parte inspirada pela introdução do filme “West Side Story” de 1961. Aliás, quem nunca pensou dançar depois de assistir à sequência inicial desse projeto?

Ariana DeBose abre-nos a porta a West Side Story

Apesar de reconhecer o filme como datado, Ariana DeBose  revela que esse foi um dos seus musicais favoritos enquanto crescia. Das músicas “Dance at the Gym” ao célebre número de “America” algo ficou enraizado no seu corpo e nunca mais a largou.

DeBose disse mesmo que sempre esteve obcecada pela mulher de vestido roxo, que mais tarde descobriria ser a vencedora do Óscar Rita Moreno. 60 anos depois, DeBose coloca-se no centro dos holofotes, e mostra como é ser mulher porto-riquenha dos anos 50 em Nova Iorque. A tão talentosa atriz, que está a ser aclamada pelo seu desempenho, desvendou-nos os segredos de contracenar com David Alvarez, que interpreta Bernardo, ou com a tão jovem Rachel Zegler, a nova Maria. Não houve uma única oportunidade em que a atriz não parasse para referir o nome dos seus colegas de profissão.

A conversa decorreu depois de Ariana DeBose ter visto o “West Side Story” pela primeira vez e tê-lo considerado absolutamente surreal. Aos 30 anos de idade, Ariana DeBose revive o momento em que recebeu a chamada de Steven Spielberg, as cenas mais sombrias da nova versão de West Side Story e o porquê da sua personagem ser um salto importante em termos de representatividade na sétima arte. Com toda a certeza, estamos diante uma estrelas de Hollywood que todos deveremos prestar atenção nos próximos anos!

Ariana DeBose é a nova Anita de West Side Story

West Side Story 2021
© 20th Century Studios

MHD: Acabaste de assistir ao film. Existe algo mais comovente do que West Side Story? Tem um impacto emocional enorme, não é?

Ariana DeBose: Impacto é uma palavra muito boa. Ao ver o filme há muito para processar e muito para pensar. Acredito que o público sentirá uma alegria e desespero conjuntos e conseguirá entender as múltiplas facetas da tristeza. Quando eu penso em “West Side Story” penso em canções de amor. Agora que acabei de assistir ao filme, vejo como os últimos 40 minutos vão além disso e são uma montanha-russa de sensações.

MHD: Ainda te lembras onde estavas quando ouviste falar do West Side Story de Steven Spielberg pela primeira vez?

Ariana DeBose: Eu estava na Broadway a dar a vida à ‘Disco’ Donna Summer no musical “Summer: The Donna Summer Musical”. Estava responsável por cantar as suas músicas icónicas e por protagonizar um espectáculo cujas atuações decorriam oito vezes por semana. Na verdade, foi um trabalho muito árduo para mim, mas adorei cada minuto.

De repente, no final de um desses espectáculos, vejo que tenho uma mensagem de voz no meu telemóvel. Era-me pedido para fazer um teste para West Side Story em Brooklyn no dia seguinte. Eu estava ” “Oh, Deus, isso parece demasiado…” Mas queria entrar e acho que foi a partir daí que começou esta trajetória.

West Side Story dá muito para processar e muito em que pensar. É uma montanha-russa.

West Side Story

MHD: Quanta informação sabias sobre o filme nessa época?

Ariana DeBose: Eu sabia que era Steven Spielberg o responsável pela realização e que seria o Tony Kushner o argumentista da adaptação. O Tony é simplesmente um dos meus escritores favoritos na história de qualquer arte. Honestamente eu disse que iria ao teste, mas nunca pensei ser considerada para o trabalho. Claramente levei o trabalho muito a sério, mas nunca, nem num milhão de anos, pensei que o Steven Spielberg me iria ligar e oferecer trabalho.

Lembro-me perfeitamente que estava a arranjar as unhas, na Rua 46, e que o Steven ligou-me. Eu fiquei sem saber como responder. Perguntava-me “o que está a acontecer? Isto é verdade?”. Ele disse-me que era mesmo o Steven Spielberg. Estava desorientada, “Como está senhor? O que posso fazer por si?” e ele disse “Queres interpretar a Anita no meu filme?”. Eu respondi “Claro! porque que não!?”. Quando terminámos a conversa eu chorei.

MHD: E como foi contar à sua família e aos seus amigos?

Ariana DeBose: Eu estava proibida de comentar com quem quer que fosse durante algum tempo. Parecia ser o maior segredo do mundo, ou pelo menos, o maior segredo da minha vida e da minha carreira. O Steven Spielberg oferecem-me o trabalho em outubro, mas só tive oportunidade de falar sobre o projeto em meados de janeiro do ano seguinte.

MHD: Foi difícil digeri-lo?

Ariana DeBose: Foi muito dificil. Eu sabia que tinha o emprego, mas o meu espectáculo na Broadway estava a terminar. Foi uma conclusão interessante, porque já sabia que tinha algo para fazer a seguir, contudo não podia comentá-lo com ninguém.

Tenho um grupo maravilhoso de amigos que estavam muito preocupados porque pensavam que estava deprimida por ver o meu espectáculo de Donna Summer terminar. Eu contestava, “Não, não… Estou muito feliz com este espectáculo e com o facto de ele ter acontecido… Estou bem malta.” Os meus amigos mal sabiam o que estava a acontecer.

MHD: Como foi a sua preparação para o filme?

Ariana DeBose: Lembro que tivemos um dia em que Stephen Sondheim veio e falou connosco para partilhar as suas histórias e percepções de West Side Story. Não me lembro de o conhecer pessoalmente, e certamente se tivesse apertado a sua mão nunca mais me esqueceria. Eu estava na sala onde isso aconteceu, disso estou segura (risos).

O Steven perguntou-me, “Queres interpretar a Anita no meu filme?”. Quando terminámos a conversa eu chorei.

West Side Story
© NOS Audiovisuais / 20th Century Studios

MHD: Que mulher é a Anita?

Ariana DeBose: Acho que ela é uma mulher otimista, mas também é uma mulher incrivelmente ambiciosa. Isso é o que eu realmente admiro nesta versão da personagem. Ela não tem vergonha de querer criar uma vida melhor para si própria.

A sua maneira de fazer isso é criar o seu negócio e ganhar dinheiro para poder comprar um apartamento melhor. Eu gosto que ela seja bastante direta. Ela não faz as coisas por acaso, ela sabe bem o que quer. Ela é inerentemente como eu na vida real. Digamos que não foi necessariamente um exagero trazer essa parte da minha personalidade para a Anita. De certa maneira, encontrei o meu caminho para a personagem através da sua linguagem corporal.

MHD: Portanto o teu percurso na dança ajudou-te?

Ariana DeBose: O filme tem sequências de dança brutais e sinto-me orgulhosa de ter conseguido dar vida a isso. Foi tudo graças aos nossos coreógrafos, ao Justin Peck, à Patricia Delgado e à restante equipa. Eu diria que encontrei a alegria e o coração da Anita através dos meus movimentos, através da dança e tal influenciou todo o resto.

A dança é uma forma de arte incrivelmente vulnerável, mas também confiante. Não há como se esconder. O teu corpo consegue ser uma revelação para a maioria das coisas.

MHD: A Rita Moreno, a cara Anita do filme de 1961, disse-nos “a Ariana é uma dançarina feroz”.

Ariana DeBose: Isso é bastante simpático da parte dela. Eu dou o meu melhor. Eu danço melhor do que falo inglês. Portanto, sinto-me honrada com a sua opinião.

A minha Anita não faz as coisas por acaso, ela sabe o que quer. Ela é como eu na vida real.

Ariana DeBose
Ariana DeBose como Anita e David Alvarez como Bernardo em “West Side Story” © NOS Audiovisuais / 20th Century Studios

MHD: Que apoio tiveste da Rita?

Ariana DeBose: A Rita foi extremamente generosa comigo. Ela é exatamente o que pensas que ela vai ser. Ela é maior do que a vida. Ela é uma força da natureza. Ela tem uma generosidade de espírito incrível. Eu estava numa pilha de nervos e, para ser franca, extremamente ansiosa quando a conheci.

Eu disse, “Eu sou Anita, a nova, uma diferente. Como vamos fazer isso?” e ela: “Eu digo-te tudo o que quiseres saber”. A conversa seguiu e eu respondi-lhe “Só quero saber o que a Rita me quiser dizer”. Entendemo-nos bem. Disseram-me que ela gosta de como eu sou fogosa… Divertimo-nos imenso.

MHD: Como é a relação da Anita com Maria?

Ariana DeBose: A Anita é como uma irmã mais velha para a Maria. Elas não são necessariamente as melhores amigas, porque Anita é a namorado de Bernardo, o irmão mais velho da Maria. Mas ela tem uma relação muito maternal com ela. Foi realmente adorável explorar isso com a Rachel…

Rachel Zegler
Rachel Zegler como Maria em “West Side Story” © 20th Century Studios

MHD: Foste também uma irmã mais velha para a Rachel?

Ariana DeBose: Trabalho desde os meus 19 anos e, embora este seja o meu primeiro grande filme de estúdio, não é a primeira vez que trabalho profissionalmente. Então, foi realmente encorajador para mim ser capaz de trazer um certo nível de experiência… apenas um conselho de irmã mais velha para a Rachel quando ela tivesse dúvidas, ou quando se ela se sentisse perdida. Tivemos uma dinâmica realmente incrível e sinto que fomos capazes de nos apoiar e de nos fortalecer uma à outra em diferentes momentos do processo.

MHD: Como descreveria a Rachel?

Ariana DeBose: Ela é uma miúda tão brilhante. Ela é mais inteligente do que eu era na idade dela. Foi muito divertido vê-la florescer. Ela também é muito melhor nas redes sociais do que eu. Eu digo-lhe, “Rachel, como posso tweetar para que chegue a todos?” Gostamos muito da companhia uma do outra.

MHD: Qual foi a tua abordagem na relação entre a Anita e o Bernardo?

Ariana DeBose: Eles estão intensamente apaixonados um pelo outro. O que adoro na dinâmica deles é que não têm medo de discutir. Na verdade, eles são pessoas diferentes e o seu relacionamento prospera em discordâncias e discussões apaixonantes. Eles assumem responsabilidades de maneiras diferentes, o que eu acho que contribui para um relacionamento saudável. Se não consegues ter uma discussão saudável, que relação é essa? Foi muito divertido explorar isso com o David.

David Alvarez
David Alvarez como Bernardo Vasquez em “West Side Story” © NOS Audiovisuais / 20th Century Studios

MHD: Gostaste de contracenar com o David Alvarez?

Ariana DeBose: Ele é tão charmoso e sexy no seu papel. Dentro da cultura hispânica e latina, o amor é apaixonante e ardente. Adorei a forma como Bernardo amava a Anita. O David disse: “Estou aqui para ajudar-te, baby”. Nós divertimo-nos tanto. Além disso, ele foi um parceiro de dança inigualável.

MHD: E como foi trabalhar com o Steven Spielberg. Como é o seu estilo de direção?

Ariana DeBose: Honestamente, ele foi muito colaborativo. Eu estava pronta para ele me dizer qualquer coisa, o que queria. Mas em vez disso, ele disse: “Não, segue o teu instinto”. De vez em quando, ele aproximava-se e dizia: “Bem, o que aconteceria se a Anita começar a sentir esta emoção? Para onde vais partir?”. Tive rédea solta e apenas controlava-me quando achava necessário.

MHD: Quais os teus filmes preferidos de Spielberg?

Ariana DeBose: “E.T. phone home!”. Eu penso que seja o meu favorito. O Steven é literalmente um dos maiores cineastas não apenas da nossa época ou da sua época, mas de todos os tempos. Quando vi “A Lista de Schindler” pela primeira vez fiquei rendida. Aquela miúda de casaco vermelho diz tanta coisa. Ela diz tudo numa narrativa inteligente e dinâmica.

MHD: Treinaste com o coreógrafo, o Justin Peck?

Ariana DeBose: Sim. O seu estilo está enraizado na técnica. É uma linguagem só dele, então aprender a falar com o Justin Peck levou-me algum tempo. Ele e a Patricia Delgado – a nossa coreógrafa executiva – e toda a equipa de dança criaram um espaço seguro e acolhedor para garantir que estávamos bem… Tínhamos todas as ferramentas de que precisávamos para executar a coreografia num nível de excelência muito específico.

MHD: Como foram as rodagens de ‘America’?

Ariana DeBose: A energia de filmar ‘América’ nas ruas de Nova Iorque era palpável. Filmámos durante uma onda de calor, então consegui um bronzeado muito específico. Também fiz buracos nas solas dos meus sapatos porque o asfalto estava a ferver. Mas foi engraçado! Criamos uma comunidade latina e foi estrondoso sentir que eu estava no centro dela. Foi das primeiras vezes que me senti realmente no centro de uma comunidade. Esse é um sentimento que nunca esquecerei.

A minha experiência em dança foi especialmente útil porque este é um musical fabuloso. […] A energia de filmar ‘América’ nas ruas de Nova Iorque era palpável.

West Side Story
Ariana DeBose como Anita e David Alvarez como Bernardo em “West Side Story” © NOS Audiovisuais / 20th Century Studios

MHD: Qual o significado da música para a trama?

Ariana DeBose: É uma discussão sobre o que a América tem para oferecer: o que é bom, o mau, e o que é terrível. E também é sobre a possibilidade de uma América com futuro, especialmente nos tempos tão desafiantes para as pessoas do West Side e para os migrantes porto-riquenhos. É o que eu gosto da música ‘America’ no contexto deste filme. É um momento precioso numa história que é também uma tragédia, mas cheia de esperança, de possibilidades e realismo. Quando o número musical terminar tenho a certeza que os espectadores quererão dançar connosco.

MHD: No extremo oposto está ‘A Boy Like That’, que é sem dúvida a música mais dramática do filme. Como foi essa experiência?

Ariana DeBose: Oh, eu fui absolutamente dominada pela ansiedade. Quando chegamos a esse momento, a personagem da Anita está mergulhada na dor e com a dor vem uma ansiedade tremenda.

Pode ser muito difícil para um ator interpretar momentos sombrios como esse, porque debruçaste sobre ele horas a fio. Eu não tive medo disso. Eu encaro os desafios de uma maneira própria e há partes do processo que ainda não consegui deixar de lado. Acaba por ser muito difícil para mim falar sobre certas coisas que filmámos em “West Side Story” porque ainda sinto isso de maneira muito profunda.

MHD: É esse mar de emoções que diferencia West Side Story de outros musicais?

Ariana DeBose: Sim, “West Side Story” tem profundidade e determinação. Eu acho que a maioria de pessoas que não gosta de musicais gosta deste, porque distingue-se precisamente nesse aspeto. As pessoas amam as músicas e acabam por venerar as suas personagens.

MHD: De que forma o West Side Story é autêntico para a experiência dos latinos?

Ariana DeBose: Para mim, autenticidade significa ter a certeza de que estamos realmente a contar a verdade sobre as circunstâncias. No filme temos 32 personagens latinas e todos os latinos do filme são, na verdade, latinos. Somos exatamente o que aparentamos ser em toda a nossa glória, representando a cultura latina e a herança hispânica.

Eu acho que é realmente algo para aplaudir, nos dias de hoje: ver um filme que representa evidentemente todo o espectro glorioso de como pode ser um latino. Eu sou afro-latina. Sou negra e isso não tira o facto de que sou hispânica. Tu literalmente obténs todas as cores, formas, tamanhos e tons sobre a cultura latina neste filme e, no final das contas, a autenticidade começa por aí. Não podes falar da cultura latina em geral sem primeiro reconhecer a diáspora. Este filme faz isso da maneira mais autêntica possível.

Só pelo facto dela ser afro-latina, a minha Anita já é diferente.

Hollywood musical
West Side Story (2021) | © 2019 Fox and Amblin Entertainment

MHD: Sentes isso na tua Anita?

Ariana DeBose: Sim. Só pelo facto dela ser afro-latina, a minha Anita já é diferente. Essa mulher anda pela rua e é tratada de uma forma diferente, ao contrário de uma latina de pele clara. Temos que admiti-lo. Isso vai colocá-la num patamar distinto.

A realidade das situações e algumas das coisas que são ditas pela Anita e à Anita foram realmente ditas por várias pessoas nesse período. É muito difícil ouvir tudo isso. Mas também é muito importante reconhecê-lo como algo que aconteceu.

MHD: Porque razão West Side Story é ainda hoje relevante?

Ariana DeBose: Recontamos os clássicos porque não aprendemos as nossas lições. Temos que pegar nas mesmas circunstâncias clássicas e torná-las aplicáveis aos tempos em que vivemos agora. Isso é o que faz de “West Side Story” relevante hoje. Há tantas lições que precisamos lembrar. Ainda temos muito que aprender.

West Side Story estreia a 8 de dezembro nas salas de cinema portuguesas e os bilhetes já se encontram à venda. 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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