LEFFEST ’16 | The Woman Who Left, em análise

The Woman Who Left, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, conta uma simples, mas trágica, história de vingança através do prisma da reflexão histórica, espiritual e literária.

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Há um inegável contraste entre o método pelo qual Lav Diaz construiu o filme que lhe valeu o Leão de Ouro este ano, e a grandiosidade épica que o projeto, na sua forma final, trespassa. Tal como muitas das suas obras, The Woman Who Left é uma narrativa de grandiosa duração, 226 minutos para sermos exatos. Na sua filmografia, tal extensão temporal nem é muito impressionante mas, para a audiência comum, é, compreensivelmente, algo alarmante e alienante. O contraste de que acima falamos refere-se, lá está, à rudimentaridade da execução técnica do filme, rodado em câmaras digitais que poderiam até ser de uso pessoal e editado num iPad.

Apesar das claras dificuldades logísticas em criar-se um épico de autor nas Filipinas, especialmente com um estilo tão severo e rígido como o de Diaz, seria insultuoso supor que esta formalidade contraintuitiva não é parte da teia concetual do filme. Aliás, esta relação antagónica entre algo que se sente grandioso mas que, na sua crua realidade, é pequeno e mesmo insignificante é como que a espinha dorsal a suportar The Woman Who Left. Esta é uma história que podia muito bem ser contada em duas horas.

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Horacia está presa há 30 anos por um crime que não cometeu e, depois de uma amiga ter confessado estar envolvida na conspiração para a incriminar, ela é libertada. Liberta da clausura presidiária, ela descobre que o marido morreu, o filho está desaparecido e sua filha é quase uma desconhecida. Assim, livre mas mais perdida que nunca, ela decide vingar-se do homem, seu ex-namorado, por detrás de todo o esquema que a levou à prisão e assim, qual Conde de Monte Cristo, finge uma nova identidade e imiscui-se no mundo periférico ao dele.

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Mesmo com a sua convoluta conclusão, onde a vingança vem por meios inesperados, esta é uma história facilmente contada em duas horas. O que não seria transmitido nesses 120 minutos seria precisamente a qualidade cataclísmica que tal sequência de eventos teria na mulher titular, nem os reflexos que a história tem em algo muito maior. É que, tal como toda a sua recente obra, The Woman Who Left é tanto uma adaptação de literatura russa, neste caso um conto de Tolstoy, como é parte de uma crónica da história turbulenta das Filipinas.

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Esse retrato nacional, de proporções e ambições quase cósmicas, assume sua máxima manifestação no ato médio do filme, onde observamos o dia-a-dia de Horacia. Enquanto o sol está alto no céu, ela monta um negócio de restauração, visita a igreja onde seu ex-namorado vai regularmente, sempre acompanhado por guardas pessoais – na época em que o filme decorre, as Filipinas estavam a ser assoladas por uma epidemia de sequestros e crimes violentos – e tenta ajudar uma vocifera sem-abrigo que está sempre a acusar quem não lhe dá  dinheiro,  de ser um demónio. À noite, contudo, Horacia veste roupas de homem, assume o nome de Renata, e vai travando conhecimento com uma série de marginais da sociedade, como um corcunda vendedor de balut (embriões de pato cozidos) e uma deprimida transsexual que anda a tentar matar-se através de uma vida hedonista.

A insistente repetição destas rotinas, vai criando um retrato progressivamente complexo e completo de uma sociedade de extremos socioeconómicos, onde a igreja católica se evidencia como uma cruel ligação entre os dois mundos. Uma casa luxuosa, existe ao lado de barracas, mas sempre protegidos por guardas e movimentando-se de carro, os ricos vivem noutra realidade. Para salientar onde estão as suas alianças pessoais, Diaz faz um sublime truque formalista, ao tornar as cenas diurnas especialmente as que se passam na igreja, em momentos de ofuscante brancura, quase dolorosa, enquanto a escuridão da noite é muito mais reconfortante.

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Nada disto resultaria, nem a nível dramático ou histórico, se o centro humano do filme tivesse alguma fragilidade e, para o enorme benefício de Diaz, The Woman Who Left conta com uma formidável protagonista em Charo Santos-Concio, uma superestrela filipina que voltou ao trabalho de atriz especialmente para este projeto. No seu retrato, ora pacífico e santo, ora misterioso e perigosamente volátil, Horacia torna-se numa tapeçaria de contrastes tão marcados como os da estética do filme e tão complexos como as várias facetas da sua história nacional. Periféricas à sua protagonista, Diaz reúne também um formidável elenco, capaz de participar nos jogos tonais da sua narrativa e conjurar uma coleção de personagens coloridas e exageradas, mas nunca alienantes ou injustamente vilificadas.

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O final golpe de génio do filme está no modo como subverte a história de vingança e a rouba de qualquer tipo de sangrenta satisfação, celebrando, ao invés, a humanidade e generosidade de Horacia. Quando uma quebra no discurso formal marca o início do derradeiro ato de The Woman Who Left, Lav Diaz vai contra todas as expetativas de uma audiência sofrida e decide acabar a sua grande opus numa coda trágica. Nas ruas de Manila, Horacia termina o filme, expurgada do desejo de vingança, mas vazia, com um novo propósito mas sem rumo, cheia de desespero mas nenhuma gota de esperança. É deprimente e quase insuportável depois de quase quatro horas de investimento emocional mas, não deixa por isso de ser impactante, memorável e tão galvanizante como as mais célebres obras-primas de literatura russa a que Diaz continua a ir buscar a sua inspiração.

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O MELHOR: Os contrastes fotográficos e a sublime mestria, quase clássica, de Diaz no que diz respeito a enquadramento, composição e mise-en-scène. Não há uma única imagem em The Woman Who Left que mostre um pouco de displicência estética.

O PIOR: O ritmo e a falta de disciplina do autor enquanto editor dos seus projetos. Enquanto a duração épica é necessária, os primeiros 45 minutos do filme são muito penosos e difíceis de suportar.



Título Original:
Ang babaeng humayo
Realizador: Lav Diaz
Elenco:
Charo Santos-Concio, John Lloyd Cruz, Michael De Mesa,  Nonie Buencamino

LEFFEST | Drama, História | 2016 |226 min

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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