Yentl | A estreia de Barbra Streisand como realizadora

Para celebrar a JUDAICA, que se está a realizar em Lisboa, a nossa rubrica sobre Mulheres Realizadoras foca-se, esta semana, em Yentl, o filme que marcou a estreia de Barbra Streisand atrás das câmaras.

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Depois de ter lido o conto Yentl, o Rapaz Yeshivá de Isaac Bashevis Singer em 1968, Barbra Streisand decidiu que queria protagonizar uma adaptação cinematográfica da obra. Lembramos que, nesse ano, Streisand estreou o seu primeiro trabalho cinematográfico, Funny Girl, pelo qual viria a ganhar o Óscar de Melhor Atriz. Infelizmente para si, nem mesmo a popularidade estratosférica ou a estatueta prestigiosa conseguiram persuadir os grandes estúdios de Hollywood a ir para a frente com um projeto tão “étnico”. Mesmo assim, em 1969 os direitos da adaptação foram adquiridos e o projeto lá começou a avançar, mesmo que com muitos percalços que se estenderam pela década seguinte e deram a toda a aventura um toque de desespero sisífio. Chegado o ano de 1979, Streisand ainda não tinha desistido e agora estava empenhada em também realizar o filme que, sofreu mais um desastroso atraso quando, após o cataclisma financeiro provocado pela estreia de As Portas do Céu de Michael Cimino, a produtora do projeto decidiu cancelar todos os seus filmes que excedessem 10 milhões de dólares orçamentais. Finalmente, quase 15 anos depois do início da sua odisseia, Barbra Streisand deu início às filmagens de Yentl em 1982 e o filme estreou em 1983, foi um relativo sucesso de bilheteiras e levou a que Streisand se tornasse na primeira mulher a ganhar o Globo de Ouro para Melhor Realização.

Mesmo que a história tenha um final feliz, o seu epílogo está longe de ser risonho, sendo que, nas décadas seguintes, Yentl ganhou uma reputação injustamente maligna e passou a ser olhado com escárnio por muitos que o acusam de ser simplesmente um projeto de vaidade. No entanto, por muito que Streisand seja central ao filme, este não se trata de nenhum espetáculo de fácil glamour cinemático feito para enaltecer a sua celebridade. Veja-se logo a complicada premissa narrativa dada pelo conto de Singer. Na Polónia do início do século XX, Yentl, uma rapariga solteira, vive com o seu pai académico numa comunidade judaica e, apesar de ter uma insaciável sede por conhecimento e discussão intelectual, o seu género impede-a de seguir uma vida académica. Mas, quando o seu pai morre, Yentl decide libertar-se da prisão do seu sexo e disfarça-se de rapaz, deixa para trás a terra que a viu crescer e junta-se a uma comunidade de estudantes numa cidade vizinha, onde mostra ser uma fantástica estudiosa do Talmude e trava amizade com um dos seus colegas.

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O nome dele é Avigdor e Yentl, agora conhecida como Anshel, vai-se apaixonando por ele ao mesmo tempo que conhece a amada do amigo, a imagem de perfeita feminilidade submissa que é Hadass. Num outro filme qualquer, este triângulo amoroso poderia ser tratado como uma fonte de comédia pateta, mas Streisand examina toda a situação com uma seriedade surpreendente que apenas vai salientando as políticas de género que a narrativa insiste em por em jogo de um modo inimaginável no panorama do cinema mainstream dos anos 80. Resumidamente, o suicídio passado do irmão de Avigdor é sabido pelo pai de Hadass que proíbe a filha de se casar com um homem com tal historial de insanidade na família e, por sua vez, o noivo rejeitado convence Yentl a se casar com Hadass. Assim, a jovem não terá de desposar alguém que não conheça e Avigdor poderá ainda estar próximo dela. Entre a espada e a parede, Yentl aceita, casa-se com Hadass, e continua a sua dissimulação, ao mesmo tempo que inspira a sua esposa a questionar os limites que a sociedade patriarcal lhe impôs, inclusive as crenças machistas do próprio Avigdor.

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É óbvio que esta situação não demora muito até se desmoronar, mas Streisand fez uma importante alteração ao texto de Singer. Ao invés de contar a história de Yentl como uma tragédia moralista sobre uma mulher que viola as leis naturais e é prontamente castigada pela sua húbris, Streisand abordou a narrativa como uma parábola feminista sobre a rejeição das ossificadas ideologias sexistas do Velho Mundo. Nesse aspeto, a sua seriedade e interesse nas políticas sexuais subjacentes à história ganham particular relevância, e é precisamente na relação de Yentl com a sua própria identidade e com as noções sociais de género que está o grande conflito do filme. A relação da protagonista com Hadass é também fascinante, ao mostrar como, ao mesmo tempo que Yentl não quer ser a fada do lar personificada pela sua noiva, ela também sente a dor de uma mulher que tem de rejeitar a sua feminilidade para poder viver segundo a sua própria vontade e até mostra respeito pela devoção doméstica e pelas escolhas de vida de Hadass.

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Tal relação é perfeitamente exemplificada pelo monólogo interior de Yentl aquando do primeiro jantar que tem em casa de Hadass. Neste ponto do nosso texto, convinha esclarecermos algo sobre o filme. Yentl é um musical e praticamente todos os seus números musicais tomam a forma de monólogos em voz-off dentro da psique da protagonista que é a única personagem que tem direito a cantar. Ocasionalmente, quando Yentl está sozinha ou no seu bombástico final, o filme mostra-nos Streisand a cantar em cena, mas o voz-off predomina, para mal e pior. Em “No Wonder” a cena de jantar acima referida, a natureza introspetiva do registo musical funciona e sublinha as questões ideológicas subjacentes. Noutra instância como “Tomorrow”, que é cantada antes e durante o casamento de Yentl e Hadass, este mecanismo resulta numa explosão de incoerência formal e tonal que ameaça descarrilar toda a experiência num piscar de olhos.

Como se pode entender pelo parágrafo anterior, o trabalho de Streisand enquanto realizadora oscila entre os pináculos da inspiração cinematográfica e a incompetência de uma amadora a dar os primeiros passos atrás das câmaras. O seu amor entediante por planos médios e closeups claustrofóbicos ainda exemplifica melhor esse lado negativo mas, em contrapartida, é impossível ignorar o fervor apaixonante que vibra do ecrã. É óbvio, quando vemos Yentl, que este foi um projeto alimentado pela paixão de Streisand, que passou mais de uma década a desenvolver todos os seus aspetos e a realizar extensivas pesquisas históricas e teológicas sobre o seu contexto e temas. Veja-se, por exemplo, como, tirando os rasgos de incoerência de algumas das sequências musicais, Yentl é um triunfo formal do mais alto gabarito. A fotografia de David Watkin, aliada à requintada reconstrução histórica do cenógrafo Roy Walker e da figurinista Judy Moorcroft, dá ao filme uma aparência tão reminiscente de fotografias antigas como de pinturas seiscentistas cheias de sombras e jogos de luz âmbar. A música, se possível, é ainda melhor, mesmo os números musicais que são agraciados com letras normalmente inteligentes e portadoras de uma grande dose de introspeção quase literária.

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No que diz respeito aos atores, a história complica-se. Sem querer entrar numa retórica sexista, aos 40 anos, Streisand era efetivamente demasiado velha para interpretar uma personagem que, originalmente, foi concebida como uma jovem de 16 anos. A complicar a situação ainda mais, não obstante o poder emocional que Streisand confere às canções, a sua abordagem nas cenas não musicais tende a ser demasiado moderna, o que viola toda a pesquisa histórica subjacente ao texto e à construção formal de Yentl. O resto do elenco faz melhor figura, especialmente Mandy Patinkin como Avigdor e Amy Irving como Hadass. Ambos exploram as suas personagens num registo de disciplinada reticência e reconstrução de atitudes e comportamentos de época. Irving, em particular, é soberba e decerto não mereceu a sua injusta indicação para o Razzy que, curiosamente, foi acompanhada também por uma, mais merecida, nomeação para o Óscar.

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Como já esclarecemos, apesar de ter saído da mente e paixão de uma das grandes divas dos nossos tempos, Yentl está longe de ser um simples veículo de estrela ou um vácuo projeto de vaidade. O que temos aqui é uma complicada obra cheia de ideias sobre género, o valor intrínseco da educação e da procura pelo conhecimento e sobre tradição judaica que se atreveu a arriscar a alienação do público gói em prol de uma admirável especificidade cultural. Mesmo no seu final, que completamente reescreve a tese e a moral da obra original, Streisand mostra a sua ambição, retratando o desfecho infeliz da ação principal como algo a ser superado com o abandono do Velho Mundo, onde as comunidades judaicas como as que vemos no filme encontrariam o seu apocalipse algumas décadas depois, e a procura por um futuro melhor algures no Novo Mundo que eram os EUA.

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Desde Yentl, Barbra Streisand realizou mais duas longas-metragens, O Príncipe das Marés em 1991 e As Duas Faces do Espelho em 1996. O filme de 91 foi inclusive nomeado para o Óscar de Melhor Filme.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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