68ª Berlinale | Dia 2 “Las Herederas”

“Las Herederas”, do paraguaio Marcelo Martinessi sacudiu o segundo dia da Berlinale, com o seu grito no feminino. Ao mesmo tempo “Las Herederas” partilhava a competição com “Damsel”, um filme dos irmão David e Nathan Zellner (“Kumiko”), um western ‘não-convencional’, interpretado por duas super-estrelas: Robert Pattinson e Mia Wasikowska, esta curiosamente no papel de uma mulher forte e emancipada.

“Las Herederas”, de Marcelo Martinessi no meio de polémica do #MeToo, assumiu, logo neste inicio um grito emancipador das mulheres, contra a submissão e a favor da igualdade de géneros. É também uma história rara no universo de filmes LGBT: uma relação homosexual pode cair nas mesmas rotinas de uma relação heterosexual; além de ser um retrato cruel da conservadora sociedade paraguaia. O Paraguay é um país bastante invisível em termos de cinema. Espero que este filme vá inverter esta situação, começou por apontar Martinessi, na conferência de imprensa — com as três actrizes Ana Brun, Margarita Irún, e Ana Ivanova — deste filme que é uma co-produção do Paraguai com Brasil, Uruguai, França, Noruega e Alemanha.

VÊ TRAILER DE “LAS HEREDERAS”

Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irun) formam um verdadeiro casal há muito tempo. Ao longo dos anos, adaptaram-se viver juntas — embora uma tenha o ar fino de menina de família e a outra traços de indígena. No entanto, cada uma cumpre o seu papel na relação já gasta pelo tempo. Chiquita é mais alegre e a responsável pela gestão da vida em conjunto e da decadente morada onde nasceu Chela, localizada num bairro rico. Chela, não gosta de sair de casa, preferindo passar os seus dias de uma forma nostálgica, em frente a um cavalete, pintando abstrações. No entanto, as dificuldades financeiras do casal, obriga-as a vender algumas peças de mobiliário e loiças herdadas, algumas até, de grande valor sentimental. Chiquita vai para a prisão por dívidas acumuladas e Chela fica de repente sozinha e desamparada. No entanto, ela acaba por aproveitar o seu velho Mercedes — que também está à venda — para fornecer um serviço de táxi para senhoras ricas do seu bairro. No seu novo papel de motorista particular, Chela conhece a filha de uma dessas senhoras: a fogosa e atraente Angy (Ana Ivanova). Apesar de bastante passiva e reservada Chela sente-se atraída pela outra mulher mais jovem que vai ajudá-la a redescobrir seus próprios desejos.

"Las Herederas"
O realizador Marcelo Martinessi disse que o Paraguai é prisioneiro do imobilismo.

Segundo Martinessi “Las Herederas” é uma história passada num país com uma sociedade que se mantêm igual há 50 anos. Uma grande prisão, onde numa cela verdadeira se respira mais liberdade do que em casa, explicou na conferência de imprensa a seguir à projecção. O Paraguai é prisioneiro do imobilismo e um país com uma dívida para com as mulheres, acrescentou uma das actrizes. Ana Brun (Chela), uma actriz auto-didacta, sem formação dramática, transportou este sentimento e lágrimas, ao recordar que o papel que interpreta, da mulher que se emancipa e ganha auto-estima, ao tornar-se motorista particular: é muito parecido com o que tem sido a minha própria vida.

VÊ A CONFERÊNCIA DE IMPRENSA DE “LAS HEREDERAS”

Literalmente este filme é uma história de mulheres, onde ‘menino não entra’: passa-se na moradia do casal Chela e Chiquita, que vai ser despejada e demolida e é partilhada com a doméstica negra e discreta, que trabalha mais por afinidade do que pelo dinheiro; e ainda numa noitada de karaoke exclusiva para mulheres, nos jogos de canastra entre velhinhas ricas, nas curtas viagens das senhoras no táxi particular de Chela, e na ala feminina de uma prisão de delito comum; os homens não existem como personagens. Salvo erro, das duas vezes que aparece um homem, fica desfocado, gesticula, não tem diálogos e não participa directamente no conflito.

Marcelo Martinessi decidiu mostrar o imobilismo destas pessoas da classe média-alta,  de mulheres maduras ou de idade avançada, do Paraguai, mais vai-se focando aos poucos em Chela (Ana Brun), a mais misteriosa e passiva de todas. Vai explorando cuidadosamente o seu mundo exterior , ao mesmo tempo que o filme vai aprofundando aos poucos um olhar sobre um estrato social, que na realidade vive em outro tempo e não pensa no futuro. No entanto, quando Chela visita sua namorada na prisão, surge uma imagem muito diferente da sociedade altamente conservadora, machista e desigual do Paraguai. Apesar do ambiente na prisão de mulheres ser muito diverso do ponto de vista social como refere uma das protagonistas. A postura sensual e provocadora de Agy (Ivanova), a jovem e atraente filha de uma das ‘Tias’, — que Chela conduz à sua jogatana semanal de canastra —, é uma reação a esse imobilismo, embora ela mesmo não consiga viver sem o seu César (o tal homem que aparecem deslocado e desfocado).

"Las Herederas"
A história de duas mulheres que se arruinam para esconder o seu segredo.

O filme mostra um caminho duro de todas aquelas mulheres, feito de subtilezas, situações caricatas e excelentes diálogos, para ironizar uma sociedade onde a mulher é obrigada a calar-se por ser homossexual, sozinha, divorciada ou porque já passou da idade para casar ou dependente do marido infiel. Curiosamente o filme estreia na altura certa, quando o Parlamento do Paraguai acabou de recusar a Lei do Género.

Depois é ao som da música clássica dentro do Mercedes ou ao ritmo de boleros e belas canções românticas de vozes latinas, que “Las Herederas”, nos mostra essa violência silenciosa sobre as mulheres, nas sociedades conservadoras e machistas — curiosamente a maioria das sociedades latino-americanas, inclusive o Brasil. Estou-me a lembrar agora de “Cinco Esquinas”, o último e ardente romance de Mário Vargas Llosa. No entanto, o tema central deste filme notável, “Las Herederas, acaba por ser a história deste casal e destas duas mulheres que são obrigadas a vender peça a peça a sua herança, para guardarem o segredo da sua homossexualidade.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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