A Vida Invisível

72º Festival de Cannes | ‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’ de Karim Ainouz foi o filme vencedor da secção Un Certain Regard, a mais importante a seguir à competição oficial. O filme homenageia muitas mulheres que passam invisíveis no mundo e tem no elenco dois actores portugueses. É o filme brasileiro mais português deste Cannes 72.

‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’, de Karim Ainouz é um filme que aborda a luta, nem sempre favorável de duas mulheres e dos seus sonhos num contexto machista de uma família de imigrantes portugueses no Rio de Janeiro dos anos 50. Na sua quarta longa-metragem Karim Ainouz (‘Madame Satã’ ou ‘Praia do Futuro’), regressou a uma temática que lhe toca profundamente do ponto de vista pessoal: a defesa dos direitos das mulheres, homenageando sobretudo a sua mãe, que o educou sozinha, e a sua avó que viveu até aos 108 anos. Este filme que ganhou o Prémio Un Certain Regard, a mais importante secção paralela, chega num momento crucial para a afirmação da arte, cultura, educação e cinema brasileiro e num contexto político e social muito complicado.

A Vida Invisível...
Carol Duarte é Eurídice uma pianista com talento nato.

Baseado no romance homónimo de estreia de Martha Batalha, ‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’ (publicado em Portugal pela Porto Editora), narra a vida paralela de duas irmãs cariocas, cujos sonhos são apagados pelo peso e preconceito de uma família tradicional portuguesa e por uma sociedade brasileira machista e conservadora. O destino traça caminhos muito diferentes para Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), mas as duas mulheres, acabam por partilhar a mesma frustração de não poderem realizar o seus sonhos e de sentirem a dor de viverem uma vida inteira separadas, e sem o saberem, no Rio de Janeiro. O filme com muito da cultura portuguesa (inclusive a gastronómica, com inúmeras referências ao pão e pratos de bacalhau), além de ouvirmos variadíssimas vezes nos diálogos o sotaque de Portugal, marca igualmente a estreia das protagonistas, Carol Duarte e Julia Stockler, vindas do teatro, no cinema e a excelente participação dos actores portugueses António Fonseca e Flávia Gusmão, que trabalham em Portugal, sobretudo no teatro e televisão.

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Duas irmãs que vivem uma vida inteira separadas no Rio de Janeiro dos anos 50.

Eurídice, está determinada a ser pianista de carreira, lutará durante anos para ser aprovada no conservatório de música, e conseguir uma bolsa para estudar em Viena, embora seu pai Manuel (fabulosa interpretação do actor português António Fonseca),  tirânico, de origens humildes e seu marido conservador (o humorista Gregório Duvivier num papel sério) não sejam capazes de entender por que é que uma mulher não serve apenas para ficar em casa para cuidar da família e do esposo. Por outro lado Guida é atingida pela infelicidade de ainda muito jovem, se enamorar por um marinheiro grego, fugir de casa, engravidar e tornar-se mãe solteira. Poderoso em sentimentos, o filme reforça visualmente seu caráter melodramático com uma grande densidade de cores e belos lugares, casas e calçadas do velho Rio de Janeiro que ainda perduram, bem como excelentes interpretações, característica do teatro (a origem da maioria dos actores incluindo os portugueses), ou das melodramas clássicos americanos e das excelentes telenovelas da Globo dos anos 70 e 80, como ‘Gabriela Cravo e Canela’. Aliás uma grande referência dramática e televisiva também em Portugal.

A Vida Invisível...
Alguns dos ambientes são lindos com esta cena passada na floresta da Tijuca.

Algumas cenas como a da noite de núpcias de Eurídice, talvez das melhores do filme, marcam igualmente um tom de tragicomédia e de humor negro do filme. Mas em alguns momentos o filme brilha mesmo na sua cor, luz e paisagem do Rio de Janeiro, com o realizador a capturar na perfeição, inclusive  os ambiente de boémia popular do bairro da Lapa, trazendo à lembrança o seu filme ‘Madame Satã’. A grande e veterana actriz Fernanda Montenegro (‘Central do Brasil’) faz uma aparição especial quase num apoteótico e emocionante final do filme, que chega mesmo a dar arrepios, quando começa o genérico ao som do fado português ‘Estranha Forma de Vida’, interpretado por Mariza e que se adequa na perfeição à história e contexto do filme.

PRÉMIO UN CERTAIN REGARD
A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO

(LA VIE INVISIBLE D’EURÍDICE GUSMÃO/THE INVISIBLE LIFE OF EURÍDICE GUSMÃO) DE KARIM AÏNOUZ

 PRÉMIO DO JURÍ
O QUE ARDE

(VIENDRA LE FEU/FIRE WILL COME)
DE OLIVER LAXE

 PRÉMIO DE INTERPRETAÇÃO
CHIARA MASTROIANNI

POR CHAMBRE 212 (ON A MAGICAL NIGHT) DE CHRISTOPHE HONORÉ

 PRÉMIO DE REALIZAÇÃO
KANTEMIR BALAGOV

POR BEANPOLE (UNE GRANDE FILLE)

 PRÉMIO ESPECIAL DO JURÍ
LIBERTÉ

DE ALBERT SERRA

 PRÉMIO ‘COUP DE COEUR DO JURÍ (Ex-aequo)
LA FEMME DE MON FRÈRE (A BROTHER’S LOVE)
DE MONIA CHOKRI
THE CLIMB
DE MICHAEL ANGELO COVINO

 MENÇÃO ESPECIALE DO JURÍ
JEANNE
 (JOAN OF ARC)
DE BRUNO DUMONT

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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