75º Festival de Cannes | As 8 Montanhas

A dupla de realizadores belga Felix van Groeningen e Charlotte Vandermeersch, estão na competição com ‘The Eight Mountains’, um filme com um espirito ‘zen’, rodado em italiano, passado nos Alpes, sobre a amizade e o sentido da vida.

A nossa vida, mudou bastante depois dos lockdowns e a pandemia: as amizades reduziriam-se à nossa bolha familiar, o nosso relacionamento ou crescimento ficou limitado e até os elementos da natureza se alteraram profundamente, como as montanhas e o planeta, resta-nos ainda saber se para melhor ou pior. Vivemos agora uma espécie de ‘novo normal’. Estas são algumas das questões abordadas, de uma forma muito serena e sincera, em ‘The Eight Mountains’ (‘Le Otto Montagne’), dirigido pelos dois realizadores belgas Felix van Groeningen (‘Beautiful Boy’) e pela sua mulher Charlotte Vandermeersch, mais um filme da competição de Cannes 75. Este filme marca também a primeira incursão italiana de Van Groeningen que tem trabalhado em vários idiomas: antes de ‘Beautiful Boy’, a sua estreia em inglês, tornou-se mundialmente conhecido com ‘Ciclo Interrompido’ (‘The Broken Circle Breakdown’), um pungente filme de origem holandesa, sobre o casal de músicos country que vê a sua criança pequena com uma doença terminal e que foi nomeado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2014; e depois por ‘Belgica’, (2016), um filme flamengo, que foi premiado no Festival de Sundance.

75º Festival de Cannes

‘The Eight Mountains’, um título inspirado numa lenda nepalesa, centra-se na história de uma amizade improvável. ‘The Eight Mountains’ é sobretudo baseado num romance da autoria do italiano Paolo Cognetti, um livro que ganhou vários prémios nacionais e internacionais e foi até publicado nos EUA. Paolo Cognetti, mora seis meses por ano nos Alpes e muitos dos seus locais de eleição, serviram de inspiração tanto para o livro, como para o filme que é rodado em grande parte perto da residência alpina do escritor.

VÊ TRAILER DE ‘THE EIGHT MOUNTAINS’

O filme faz-nos imediatamente lembrar as abordagens da relação homem-natureza, vistas por exemplo em ‘O Lado Selvagem’ (2007), de Sean Penn; e no que diz respeito à pura amizade entre dois jovens, em ’O Segredo de Brokeback Mountain’ (2005), de Ang Lee. ‘The Eight Mountains’ é porém e tem algo em comum com as referências anteriores, um conto de amadurecimento, que se passa ao longo de três décadas sobre dois rapazes italianos da mesma idade: Pietro (Luca Marinelli de ‘Martin Eden’), que é de Turim, pertencente à classe média e filho de um engenheiro químico; e o outro, Bruno (Alessandro Borghi de Suburra), filho de um pedreiro, que imigrou para trabalhar fora e  deixou o filho com os tios no campo. Os rapazes, de meios muito diferentes, passam uma boa parte da sua infância ou das férias escolares juntos, numa vila alpina isolada, caminhando pelos belos picos, glaciares, ribeiros, lagos e vales circundantes, antes que seus caminhos divirjam, em várias direcções e opções de vida. Porém cerca de 15 anos depois, Pietro e Bruno voltam a ligar-se e a reunir-se no mesmo lugar e no projecto de reconstrução de uma velha casa da montanha.

Van Groeningen juntou-se agora em ‘The Eight Mountains’ com Vandermeersch, a sua  companheira na vida, que é atriz, escritora e música e que agora faz sua estreia na realização de cinema, apesar de já terem colaborado no argumento de ‘Ciclo Interrompido’. ‘The Eight Mountains’ é uma história emocionante e simples, contada em boa parte em voz off, mas que tem ao mesmo tempo qualquer coisa de épico, quanto mais não seja pelo cenário brutal das montanhas e picos alpinos, ou do Nepal, como iremos ver mais a meio do filme. Trata-se de uma história de várias camadas que abrange mais de 30 anos e na qual o espectador testemunha as diferentes fases, planos e incertezas da vida desses dois amigos, que andam à procura de um sentido para a suas vidas. Como em muitas amizades ao longo da vida, quando somos crianças o tempo parece interminável e nunca mais acaba. No caso dos protagonistas deste filme, todos os verões parecem enormes. Mas as coisas ficam mais complicadas quando se cresce e cada uma vai para seu lado. Os realizadores escreveram o argumento durante o lockdown e depois da abertura partiram para os Alpes e para o Nepal, aliás as duas principais localizações do filme. Essa necessidade que todos tivemos de sair de um bloqueio e ir por aí fora e de ao mesmo tempo reavaliar-mos o nosso modo de vida ou de procurar certezas do que realmente vale a pena, parece ter impregnado este filme subtil e maravilhoso, com uma adorável banda sonora e que faz todo o sentido estar nesta competição do Festival de Cannes 2002, da pós-pandemia.

JVM, em Cannes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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