"Vício Intrínseco" | © LEFFEST

LEFFEST ’20 | Vício Intrínseco, em análise

Aquando da sua estreia nacional, a Magazine HD não publicou crítica oficial sobre a sétima longa-metragem de Paul Thomas Anderson. Chegou a altura de remediarmos a lacuna. “Vício Intrínseco” passou no Lisbon & Sintra Film Festival como parte de uma programação dedicada ao trabalho do seu audaz realizador.

Depois de ter trabalhado com Joaquin Phoenix em “O Mentor”, parecia que Paul Thomas Anderson havia encontrado nova musa para inspirar o seu trabalho. Se essa fita de 2012 já muito se construía em volta duma performance desse ator, o projeto seguinte destes colaboradores levou tal dinâmica ao píncaro. A primeira grande produção baseada num livro de Thomas Pynchon, “Vício Intrínseco” é feito à imagem e semelhança da personagem ao seu centro.

Doc Sportello é um detetive privado que passa grande parte do seu tempo a abusar de drogas na Los Angeles de 1970. Phoenix dá-lhe vida através de um desempenho frouxo e deliberadamente amorfo, parecendo estar sempre a dançar no precipício da inconsciência. A confusão meio cómica da performance só se intensifica à medida que a história se complica. Ao longo do filme, três casos complicados intercetam-se e o nosso anti-herói em perpétua dopagem vai cambaleando pelo enredo.

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No meio, a memória fragmentada mostra a cara e os fantasmas do passado atormentam. Um antigo interesse romântico é particularmente persistente, consumindo grandes partes do filme em reminiscências sensualistas. Sinceramente, não nos é possível resumir de forma mais clara a trapalhada que é esta história, este conto de mistérios e detetives, de conspirações e imobiliárias corruptas. O enredo transcende o convoluto caos dos mistérios de Philip Marlowe que lhe serviram de inspiração.

É assim quase impossível entender o que se está a passar e, passado um certo tempo, parece fútil lutar contra a incompreensão. Mais vale deixarmo-nos enrolar pelas ondas do que nadar contra a maré. Entenda-se que este é o tipo de filme que demanda o abandono hedonista do espetador. Há que se deixar embalar pelo feitiço inebriado de “Vício Intrínseco” para entender o apelo do filme. Contudo, é difícil não sair da sala de cinema com o gosto do desapontamento na ponta da língua.

Só em retrospetiva é que a obra ganha ímpeto, as sementes das ideias que Anderson plantou florescendo no canteiro da memória. Acontece, contudo, que até a mais propositada das indulgências tem o seu limite e “Vício Intrínseco” excede os limites da paciência com tresloucado ímpeto. O filme é um teste de estamina para o espetador que é aqui convidado a aturar duas horas e meia de parvoíces alucinadas, sem sentido e sem nexo a não ser o apelo impressionista do cinema imersivo, da montagem onírica e o ritmo poético.

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Apesar de todas estas críticas, há muito valor a se desenterrar deste caos. O mais cínico filme de Thomas Pynchon converte-se num dos trabalhos mais peculiarmente sinceros de Paul Thomas Anderson. Há uma estranha melancolia no ar fumarento desta odisseia californiana. O modo de viver tipificado pelas personagens principais foi algo nascido na década de 60, no rubro do verão do amor e do movimento hippie. Nos anos 70, essa folia libertina começava a estar ultrapassada, mas ainda estava demasiado próxima para ser digna de moda nostálgica.

Isso leva a uma tristeza prevalente na história, uma elegia cultural cantada por aqueles que perderam a guerra pelo espírito da nação e do mundo. A obsolescência fatalista é tão intensa aqui como no “Salão de Música” de Satyajit Ray ou em “O Leopardo” de Visconti. O mundo mudou, mas esta gente continua presa no passado, sua identidade esfumando-se. Tais tonalidades complicam a obra, informam a leitura do material e evocam uma profundeza de sentimento que surpreende até o espetador mais carrancudo.

Além disso, a execução formal e interpretativa de “Vício Intrínseco” é sublime. Quase se consegue cheirar o aroma da marijuana a emanar do ecrã, tal é o verismo plástico das imagens e sua acompanhante sonoridade. As roupas têm todas caracteres específicos, os cenários transbordam pormenor, a fotografia vibra com cores garridas, a música delícia e a maquilhagem suja também entretém.  No que se refere ao elenco para além de Phoenix, trata-se de uma equipa bem recheada, repleta de atores consagrados que só aparecem numa cena ou duas e dão tudo o que têm nesses fugazes minutos.

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Vendo este devaneio delirante, sentimo-nos a testemunhar o trabalho de um realizador sem medo do fracasso. Anderson é como um trapezista que salta no escuro sem rede de proteção entre si e o solo. Assistir a tal espetáculo fascina, amedronta. Mesmo quando tudo acaba com um borrão de carne esmagada na arena do circo, sentimo-nos obrigados a aplaudir a audácia do artista.

Vício Intrínseco, em análise

Movie title: Inherant Vice

Date published: 15 de November de 2020

Director(s): Paul Thomas Anderson

Actor(s): Joaquin Phoenix, Katherine Waterston, Josh Brolin, Joanna Newsom, Eric Roberts, Jeannie Berlin, Maya Rudolph, Hong Chau, Reese Witherspoon, Michael Kenneth Williams, Benicio Del Toro, Jena Malone, Owen Wilson, Timothy Simmons, Jillian Bell, Martin Short

Genre: Comédia, Crime, Drama, 2014, 148 min

  • Cláudio Alves - 75
  • José Vieira Mendes - 85
80

CONCLUSÃO:

“Vício Intrínseco” sabe a cerveja barata e cheira a ganzas fumegantes. Paul Thomas Anderson explora a prosa psicadélica de Thomas Pynchon num filme deliberadamente amorfo. Belo, mas abrasivo, frouxo, mas portador de estranha elegância, a obra frustra mais do que entretém. Apesar de tudo isso, sentimos vontade de aplaudir a ousadia destes artistas. Bravo!

O MELHOR: As imagens saturadas e granulosas que Robert Elswit capturou. Os figurinos que valeram uma indicação para o Óscar a Mark Bridges. A cenografia detalhada de David Crank.

O PIOR: A estrutura desequilibrada faz sentido para o local e para a cultura, mas não deixa de ser um problema. Além disso, o filme é demasiado comprido e começa a perder o gás muito antes de chegar ao seu derradeiro ato. Esta experiência dopada devia ter 90 minutos. Ao invés, tem 148.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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