75º Festival de Cannes | ‘Boy From Heaven’

Depois de dissecar os primórdios da revolução egípcia em ‘Cairo Confidencial’ (2017), o realizador sueco Tarik Saleh marca presença pela primeira vez em Competição no Festival de Cannes, com ‘Boy from Heaven’, um belíssimo thriller politico-religioso. 

O cineasta, produtor, jornalista e artista visual sueco de origem egípcia, Tarik Saleh regressa ao Egito em ‘Boy From Heaven’ (‘Walad Min Al Janna’), num filme onde descreve as tensões e conspirações entre a segurança do Estado e o poder religioso, no seu país de origem. Recorde-se que há quase 20 anos, Tarik Saleh produziu e realizou em parceria com Erik Gandini, um premiado documentário intitulado ‘Gitmo -The New Rules of War’ (2005) [as novas regras da guerras], sobre o campo de detenção de Guantánamo Bay.

75º Festival de Cannes

Em ‘Boy from Heaven’, desta vez procura decifrar e desmontar as complexas ligações políticas e religiosas, que comandam a Universidade al-Azhar, a maior do país, que forma as elites e logo, acaba por ter muita influência no governo do pais.

VÊ TRAILER DE ‘BOY FROM HEAVEN’

Filho de um pescador, ao jovem Adam (Tawfeek Barhom) é-lhe oferecido o privilégio de ser admitido e estudar na Universidade al-Azhar, no Cairo, uma das escolas de maior prestígio para o ensino do islamismo sunita no mundo. A morte inesperada do Grande Imã, no dia do início do ano letivo deixa um lugar vago na direção da prestigiada e influente instituição. Muito rapidamente, Adam vê-se envolvido num complexo jogo de intrigas, poder (e crime também) tornando-se um peão, numa implacável luta pelo poder e pela influência recíproca, entre a elite religiosa e política do Egito. Assíduo em temas políticos-religiosos, o realizador nascido no Egito regressa assim a um assunto que lhe é caro e que domina na perfeição nesta sua belíssima longa-metragem, que é para já uma das grandes surpresa desta competição de Cannes 75: a precisão do intrincado argumento e a elegância da realização, marcam este filme que faz lembrar os melhores thrillers de investigação política norte-americanos, saídos por exemplo das mãos de Alan J. Pakula (‘Os Homens do Presidente’, 1976). Em ‘Boy from Heaven’, Saleh cria um grupo de personagens dúbias, que não se sabe muito bem se agem pela sua devoção pela doutrina de Islão ou em proveito próprio e ambição de poder como em qualquer sociedade ocidental. Os primeiros momentos do filme, em nada sugerem um thriller político-religioso desta categoria, mas antes um retrato da vida diária dos estudantes da universidade e da necessidade de substituição do Imã.

75º Festival de Cannes

Porém à medida que a história avança, o filme vai ganhando cada vez mais fôlego e ritmo, sobretudo na implacável abordagem que faz dessas lutas pela influência, que irão determinar a sucessão do Grande Imã e os preceitos islâmicos que influenciam o povo e o Estado. É efectivamente o know-how jornalístico do cineasta, que se sente nos pequeno detalhes, que são trazidos à maioria das extraordinárias cenas deste filme, seja das movimentadas ruas do Cairo, seja nos pátios das mesquitas ou dos mentos religiosos do preceitos e aulas dos estudantes e imãs da Universidade Al-Azhar, o centro nevrálgico desta história incrível que até parece real ou baseada em factos reais. A história, no entanto é centrada no jovem Adam, um inocente que apenas quer ter uma vida melhor e que acaba por ser usado e transformado num ‘bufo’, sem saber muito bem quem e qual a causa, que serve. Muito bom!

JVM em Cannes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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