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75º Festival de Cannes | ‘Les Amandieres’

Em ‘Les Amandiers’, a atriz e realizadora franco-italiana Valeria Bruni Tedeschi e em mais um ‘brinquinho’ desta Competição, evoca com entusiasmo e lucidez, a sua juventude e o inicio da sua carreira na famosa Escola de Teatro de Nanterre, com Patrice Chéreau.

No final dos anos 1980, um grupo de jovens e vibrantes atores da Escola de Teatro de Nanterre, o magnético Patrice Chéreau e um amor que desaparece tragicamente: Stella (Nadia Tereszkiewicz), Etienne (Sofiane Bennacer), Adèle (Clara Bretheau) e toda uma trupe de jovens aspirantes a actores que tinham então vinte anos, dão os seus primeiros passos na arte da representação. Passam no exame de admissão para a famosa escola criada por Patrice Chéreau (Louis Garrel) e Pierre Romans (Micha Lescot) no Teatro Amandiers em Nanterre, nos arredores de Paris. Lançados a toda velocidade na vida, misturando paixão, diversão, amor, juntos este grupo de jovens vive um momento de viragem nas suas vidas, mas também as suas primeiras grandes tragédias pessoais.

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Este Les Amandiers, de Valeria Bruni Tedeschi, (57 anos) é mais um dos excelentes filmes desta feliz Competição de Cannes 75, onde a atriz-realizadora relata um episódio inédito da sua vida, que aliás tem sido constantemente reinventado no cinema: a sua entrada na famosa e efémera Escola de Teatro Amandiers em Nanterre, em 1986, onde estudou  com o genial e fascinante encenador-director de teatro e também realizador Patrice Chéreau (Louis Garrel, é brilhante a encarná-lo); e com o director da escola o doce Pierre Romans (Micha Lescot), que veio a falecer bastante novo por causa do consumo de drogas. Protagonizado por notáveis ​​jovens atores, pelos quais nos apaixonamos na primeira aparição, este filme coral é também a história de um primeiro amor que morreu prematuramente e de uma geração marcada também pela sombra da SIDA.

VÊ TRAILER DE ‘LES AMADIERS’

Porém no filme, escrito a três mãos — por ela e pelas suas colaboradoras Noémie Lvovsky e Agnés de Saco — encontramos também toda a fantasia do universo da realizadora, de É mais fácil para um camelo…’ (2003), aliada a uma avassaladora vontade de reviver e recordar alguns dos seus queridos amigos da escola, e de um curso por onde passaram entre outros: Eva Ionesco, Agnès Jaoui, Vincent Perez ou Bruno Tedeschini. O filme é uma torrente de emoção, intensidade e paixão da realizadora-atriz relativamente a esses anos 80, que foram marcantes para muita gente dessa geração.

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Há um certo vento de loucura que sopra também neste filme, desde os primeiros momentos, com as audições e com interpretações tão intensas que mais parecem acrobacias ou saltos sem rede. É impressionante ver como os candidatos, todos eles muito jovens, jogam as suas vidas e quase as suas ‘tripas’ no palco da sala de audições, com os jurados a assistir, presididos por Pierre Romans. O jovens dão tudo, provavelmente, alguns até demais. Os membros do júri parecem hesitar entre a diversão e a admiração. O pequeno grupo de 12 escolhido lembrar-se-á sempre desses momentos incríveis, agora representados igualmente por um conjunto de brilhantes actores.

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A atriz-realizadora fala deste período da sua vida — foi uma das candidatas premiadas —, mas também de uma época, esses finais dos anos 80, de um momento importante da história do Teatro em França, em que Amandiers despertava um desejo infinito a todos os aspirantes a atores. Patrice Chéreau (falecido em 2013) dirigia o teatro, e Pierre Romans (falecido em 1990), dirigia a escola. Essas duas figuras fizeram muito pela influência deste espaço no contexto teatral e da representação em França, só comparável talvez como uma Actor Studio, nos EUA. O filme consegue também evocá-los, sem forçar excessivamente a semelhança física: Louis Garrel interpreta um Chéreau, austero e colérico, no auge do seu carisma; e Micha Lescot num Pierre Romans suave, doce e com uma sensibilidade irresistível. No entanto, nenhum deles é idealizado ou idolatrado, pela cineasta: o primeiro é escandalosamente instigador com os alunos-atores, ao passo que o segundo, vai-se afundando lentamente no seu vício em drogas. Um filme lindíssimo!

JVM, em Cannes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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